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Pobreza e covid-19 agravam a situação das crianças palestinas

Crianças se reúnem para receber ajuda alimentar distribuída por uma benfeitora a famílias carentes no bairro de Zeitoun, na Cidade de Gaza, Gaza, em 28 de janeiro de 2021. [Ali Jadallah/Agência Anadolu]
Crianças se reúnem para receber ajuda alimentar distribuída por uma benfeitora a famílias carentes no bairro de Zeitoun, na Cidade de Gaza, Gaza, em 28 de janeiro de 2021. [Ali Jadallah/Agência Anadolu]

Vagando pelas ruas da Cidade de Gaza, Ahmed, de 12 anos, tenta convencer os transeuntes a comprar as máscaras que vende como forma de sobreviver. Seu chefe o espera de volta antes do pôr-do-sol, ou então o jovem Ahmed corre o risco de ser espancado, relata a Anadolu.

Ahmed é apenas uma das centenas de crianças palestinas engajadas em diferentes formas de trabalho nos territórios ocupados devido à extrema pobreza causada pela ocupação israelense e divisões interpalestinas.

Cinco de abril marca o Dia da Criança Palestina, data aprovada em 1995 pelo falecido presidente Yasser Arafat.

Enquanto a Palestina marca este dia, as condições das crianças palestinas continuam piorando em meio ao surto da pandemia do coronavírus.

Abandono escolar para conter a propagação do vírus, escolas em todo o mundo mudaram para a educação online. Para Rami Al-Khatib, de 8 anos, essa opção não é acessível, apesar de as autoridades palestinas pedirem às escolas que recorressem ao e-learning.

Sua família pobre não foi capaz de fornecer ao menino os materiais necessários para a educação online.

“Não podíamos pagar pelos serviços de Internet e por um laptop ou telefone celular para Rami”, disse sua mãe, Doa’a, à Agência Anadolu. “Isso significava que ele foi privado de educação e afetou seu desempenho.”

O caso de Al-Khatib não é isolado.

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Em declarações à Agência Anadolu, Basim Abu Jeri, pesquisador do Centro de Direitos Humanos Al-Mezan, disse que 34,83% dos alunos na Palestina não puderam participar das aulas virtuais porque “as famílias não têm dispositivos inteligentes ou acesso à Internet”.

Segundo Abu Jeri, a educação a distância “não garante igualdade para todos no acesso à educação”, pois muitas famílias mal conseguem “prover o necessário para os filhos”.

Ele alertou que a falta de acesso à educação pode aumentar o número de evasões escolares e forçar as crianças a buscar aventuras perigosas “como se infiltrar em Israel”, observando que 71,4% das crianças presas durante a travessia para Israel abandonaram a escola.

O pesquisador Hussein Hammad, que também trabalha com o Centro Al-Mezan para os Direitos Humanos, culpa os múltiplos desafios que as crianças palestinas enfrentam em vários setores pela redução de suas chances de obter seus direitos básicos.

Ele destacou a ocupação israelense por minar as chances das crianças palestinas de terem acesso aos seus direitos, especialmente no que diz respeito à “mobilidade, tratamento médico e vida”.

Forças israelenses visando crianças palestinas. [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Forças israelenses visando crianças palestinas. [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

“Israel continua a violar os direitos das crianças, seja em Gaza seja na Cisjordânia, por meio de prisões, danos físicos ou psicológicos, ou restringindo seu movimento”, disse Hammad, explicando que crianças doentes em Gaza estão impedidas de buscar melhor tratamento em hospitais na Cisjordânia ou em Israel.

“Negar os pedidos de encaminhamento dos pacientes às vezes causa a morte”, acrescentou Hammad.

Ele também culpou as divisões interpalestinas por interromper a prestação de serviços às crianças, ao mesmo tempo destacando o papel da ocupação em impedir a implementação da Convenção sobre os Direitos da Criança acordada pelo direito internacional.

Em um relatório no domingo, a Sociedade de Prisioneiros Palestinos (PPS) disse que as autoridades israelenses prenderam 230 crianças palestinas desde o início deste ano, com duas delas em detenções administrativas e sob condições adversas.

O representante palestino da Defense for Children International (DCI) disse em um comunicado que 85% das crianças presas no ano passado foram “submetidas à violência física”, enquanto 27 crianças foram colocadas em confinamento solitário.

O grupo de direitos humanos também disse que nove crianças foram mortas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em 2020.

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Com coronavírus e pobreza, Hammad descreveu o ano 2020 como “ruim” para as crianças palestinas devido às implicações da pandemia, pobreza aguda e abuso por parte das autoridades israelenses.

De acordo com Hammad, escolas superlotadas aumentam as chances de infecção do vírus entre as crianças.

Ele argumenta que a pandemia exacerbou a pobreza nos territórios palestinos, levando muitas crianças a recorrerem ao trabalho e à mendicância. “Este fenômeno é equivalente a um crime contra crianças e é proibido pelo internacionalmente pelos direitos humanos”, disse Hammad, acrescentando que aumenta a violência contra as crianças, seja da família seja da comunidade.

Aziza al-Kahlout, porta-voz do Ministério de Desenvolvimento Social, estima que 400 crianças mendigas passeiam nas ruas de Gaza devido à pobreza e ao divórcio.

“As difíceis condições na Faixa de Gaza levaram a um aumento na taxa de divórcio”, disse al-Kahlout, sem especificar o número, que ela disse ter causado “desintegração familiar e deslocamento de crianças”.

Para melhorar as condições das crianças na Palestina, Al-Kahlout revelou planos de seu ministério para lançar um programa nacional de proteção social que visa beneficiar mais de 195.000 crianças menores de 18 anos.

Mais de dois milhões de palestinos que vivem na Faixa de Gaza continuam sofrendo com a deterioração das condições econômicas e de vida como resultado do bloqueio israelense imposto ao território desde 2006.

Estimativas do Bureau Central de Estatísticas da Palestina mostram que em 2020, quase metade da população palestina em Gaza e na Cisjordânia tinha menos de 18 anos.

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