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Dez implicações por trás da visita do Ministro de Petróleo do Egito a Israel

Ministro de Petróleo do Egito Tarek el-Molla participa do Fórum sobre Gás Natural do Mediterrâneo Oriental, no Cairo, Egito, 16 de janeiro de 2020 [Khaled Desouki/AFP via Getty Images]
Ministro de Petróleo do Egito Tarek el-Molla participa do Fórum sobre Gás Natural do Mediterrâneo Oriental, no Cairo, Egito, 16 de janeiro de 2020 [Khaled Desouki/AFP via Getty Images]

A visita do Ministro de Petróleo e Recursos Minerais do Egito Tarek El-Molla a Israel carrega em si diversas implicações políticas e econômicas. O evento resultou na assinatura de um acordo entre a ocupação e o Cairo, para conectar o campo de gás natural de Leviathan a instalações de gás natural liquefeito egípcias, via gasoduto submarino, a partir do qual os recursos energéticos poderão ser exportados aos mercados europeus.

Círculos israelenses próximos à visita de El-Molla confirmaram que o ministro está longe de ser um coadjuvante na política do Egito; ao contrário, representa uma figura bastante íntima ao presidente e general Abdel Fattah El-Sisi. El-Molla é descrito como um dos mais mais proeminentes ministros do país. Portanto, sua visita carrega uma série de pressupostos políticos, não menos importantes do que seu propósito de fato declarado: debater questões mútuas de gás natural e recursos energéticos.

A primeira acepção repousa no fato de que a visita de El-Molla ao estado ocupante representa a primeira visita pública de um ministro egípcio a Israel desde julho de 2016, quando o chanceler Sameh Shoukry viajou ao país. Observadores israelenses destacam o episódio em curso, no qual o premiê israelense Benjamin Netanyahu decidiu reunir-se com El-Molla em Jerusalém ocupada, como um importante alerta político, como se a simples viagem carregasse o reconhecimento egípcio da cidade como capital israelense.

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O segundo indício é que El-Molla chegou de ônibus aos campos de gás natural e produção de energia, acompanhado por uma delegação de oito oficiais egípcios. Então, reuniu-se com Netanyahu e com importantes figuras israelenses: Yuval Steinitz, Ministro de Energia; Gabi Ashkenazi, Ministro de Relações Exteriores; o Presidente Reuven Rivlin; Meir Ben-Shabbat, conselheiro de Segurança Nacional; e Amira Oron, embaixadora de Israel no Cairo.

O terceiro alerta concentra-se na agenda da visita, incluindo uma turnê a uma plataforma de gás natural e uma conversa entre El-Molla e Steinitz sobre maneiras de promover o próximo fórum regional sobre recursos energéticos, levando em consideração que a visita do ministro egípcio ocorre após duas visitas similares dos líderes do Chipre e da Grécia, também membros do evento. É como se os três países, junto de Israel, quisessem demonstrar união e trabalho coordenado entre aliados regionais, ao lidar tanto com amigos quanto inimigos, o que pode indicar até mesmo uma mensagem direta aos Estados Unidos.

A quarta sugestão política foi exposta por Netanyahu ao dar as boas-vindas ao ministro egípcio e expressar seus cumprimentos ao “amigo” Sisi. Afirmou o premiê israelense: “Esta visita é um evento importante que simboliza a cooperação contínua entre Cairo e Tel Aviv no campo de energia e muitos outros. Trata-se de uma nova era de paz e prosperidade, com a assinatura dos Acordos de Abraão, a fim de melhorar as condições econômicas de todos os povos da região. Acreditamos ser uma enorme oportunidade para fortalecer a cooperação regional entre Egito, Israel e outros países”.

O quinto sinal remete às relações entre Egito e Estados Unidos, e o papel inerente do estado sionista nesta questão, dado que círculos israelenses creem que a visita de El-Molla está vinculada às preocupações do regime de Sisi sobre um início desfavorável do diálogo com o novo presidente americano Joe Biden, além dos anseios egípcios de reengajar-se no conflito Israel-Palestina. Em outras palavras, o Egito quer mandar uma mensagem positiva à Casa Branca sobre sua parceria com Tel Aviv.

Ministro de Petróleo do Egito Tarek el-Molla participa do Fórum sobre Gás Natural do Mediterrâneo Oriental, no Cairo, Egito, 16 de janeiro de 2020 [Khaled Desouki/AFP via Getty Images]

Ministro de Petróleo do Egito Tarek el-Molla participa do Fórum sobre Gás Natural do Mediterrâneo Oriental, no Cairo, Egito, 16 de janeiro de 2020 [Khaled Desouki/AFP via Getty Images]

Os israelenses afirmam que as relações entre Sisi e Biden são parte da agenda de El-Molla em Israel. A suposição decorre das fortes críticas do Presidente dos Estados Unidos ao Egito durante sua campanha eleitoral, sobretudo concernente a violações de direitos humanos, o que incitou dúvidas ao regime no Cairo de que sua relação próxima com Washington durante o governo de Donald Trump não será sustentada no mandato de Biden. Desta forma, autoridades egípcias avaliaram que retomar seu papel de mediador entre Israel e Palestina poderia atenuar as tensões com o novo governo americano. Sisi já começou a avançar nessa direção.

O sexto indicador refere-se ao momento da visita. El-Molla chegou a Israel em meio a um recente ressurgimento das relações entre Cairo e Tel Aviv, após Abbas Kamel, chefe da inteligência egípcia e um dos principais homens fortes de Sisi, pousar em Israel para reunir-se com oficiais de alto escalão, para debater uma futura visita de Netanyahu ao país norte-africano. Kamel reiterou o convite de Sisi e Netanyahu ainda pretende conduzir a visita, enquanto ambos os lados buscam formular um meio-termo para sua realização.

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Outro aspecto notório do contexto da visita de El-Molla é que sua presença em Israel coincide com a contagem regressiva para as eleições no estado sionista. Netanyahu mal pode esperar por uma oportunidade para fotografar-se com Sisi, a fim de utilizar a imagem como propaganda eleitoral. Contudo, a última vez que Netanyahu viajou oficial e publicamente ao Egito foi há uma década, quando o ex-ditador Hosni Mubarak ainda era presidente, em visita restrita a Sharm El-Sheikh, sem passar pela capital. Desde então, de fato Netanyahu visitou o país inúmeras vezes; porém, em termos confidenciais.

As mesmas fontes israelenses mencionaram que a visita de Netanyahu ao Egito deveria ocorrer há um mês, mas Sisi não parecia favorável a receber Netanyahu às vésperas das eleições israelenses, marcadas para março. Portanto, foi adiada. Assim, quando as conversas sobre uma eventual visita foram retomadas, os egípcios pediram a Netanyahu um novo compromisso referente à questão palestina.

O oitavo indício refere-se à dimensão regional presente nas conversas de El-Molla com ministros israelenses, dado que o Cairo mantém receios sobre o plano israelo-emiradense de bombear óleo de Eilat, na costa do Mar Vermelho, ao porto de Ashkelon, no Mediterrâneo. O regime, contudo, evitou criticar publicamente o projeto devido às suas boas relações com Abu Dhabi e Tel Aviv, a despeito do fato de que qualquer desenvolvimento no litoral palestino ocupado terá impacto direto na pasta de segurança do Egito.

Em contexto relacionado, os círculos israelenses revelaram que um dos principais objetivos dos encontros de El-Molla com oficiais de Israel, além de discutir a questão energética, é enviar uma mensagem à Turquia e seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, dado que as relações entre ambos os países vivenciaram recentemente uma nova escalada de tensões, após o Egito decidir juntar-se à Grécia e Chipre em seus projetos energéticos e militares. Em cooperação com Israel, os três países instituíram o Fórum sobre Gás Natural do Mediterrâneo Oriental, com sede no Cairo, e conduziram uma bateria de exercícios militares. Decerto, a reunião de El-Molla com Netanyahu e os outros ministros denota uma mensagem clara à Turquia.

A nona acepção está relacionada à atual onda de normalização entre estados árabes e a ocupação de Israel. Círculos diplomáticos israelenses mencionaram que El-Molla confirmou planos de normalização durante sua visita, como se o Egito emitisse uma mensagem oculta de cooperação com a entidade sionista, a fim de garantir mais e mais acordos de normalização com o restante dos países árabes, desde que Israel ajude Sisi a manter um relacionamento razoável com os Estados Unidos.

Por fim, a décima faceta substancial da visita do ministro ao estado sionista pode ser deduzida dos rumores israelenses sobre a chegada de El-Molla a Ramallah, na Cisjordânia ocupada, para encontrar-se com oficiais da Autoridade Palestina e permitir a Sisi que retrate seu regime como mediador do conflito israelo-palestino, em direção a uma suposta solução de dois estados. Talvez, a visita pretende complementar recentes ações diplomáticas do Egito, após receber os Ministros de Relações Exteriores da Jordânia, França e Alemanha no país norte-africano, supostamente com o intuito de debater maneiras de ressuscitar as conversas de paz, apenas uma semana antes da posse de Biden.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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