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Egito, entre revoluções e ditaduras

Manifestante segura um pôster do falecido ex-presidente egípcio Mohamed Morsi durante um protesto em Nova York, EUA em 2 de março de 2019 [Atılgan Özdil / Agência Anadolu]
Manifestante segura um pôster do falecido ex-presidente egípcio Mohamed Morsi durante um protesto em Nova York, EUA em 2 de março de 2019 [Atılgan Özdil / Agência Anadolu]

Até o dia 23 de julho de 1952, o Egito era uma monarquia. A família real egípcia descendia do albanês Mohammad Ali, tido como o construtor do Egito moderno. Um grupo de oficiais do Exército Egípcio, auto-proclamado como “os Oficiais Livres”, protagonizou o golpe militar que colocou fim à monarquia no Egito. Foi um golpe militar branco, sem derramamento de sangue. O rei Faruk, último monarca da História do Egito, passou o resto da vida no exílio, na Europa. Há relatos, nunca comprovados, de que o rei Faruk pode ter sido envenenado no seu exílio na Itália, onde morreu após uma refeição.

Desde 1952, o Egito foi governado por seis presidentes apenas, dos quais cinco são militares e apenas um civil. Para todos os efeitos, as Forças Armadas Egípcias têm mantido o controle de fato do país desde a Revolução de 23 de julho de 1952. O único período de exceção foi após a Revolução de 25 de janeiro de 2011, que culminou com a renúncia do ditador Hosni Mubarak. Além de conseguir o grande feito de derrubar um ditador que já governava o país por três décadas, a Revolução de 25 de janeiro abriu caminho para as primeiras eleições democráticas na História do milenar país africano. A “dádiva do Nilo”, como a denominou grego Heródoto, tem sido marcada por uma história de regimes tirânicos, desde as dinastias dos faraós do Egito Antigo.

Mohammad Naguib

Único general da organização dos “Oficiais Livres”, Mohammad Naguib assumiu o papel de líder da Revolução de 23 de julho de 1952 e foi o primeiro presidente da História do Egito. O poder revolucionário estava, de fato, nas mãos do jovem coronel Gamal Abdel Nasser. Os Oficiais Livres, sob a liderança de Nasser, usaram a popular e respeitada figura do general Naguib para angariar maior apoio entre o oficialato para o seu nascimento. Mas não tardou para o general e o coronel entrarem em conflito.

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Naguib entendia que o papel das forças armadas, naquele momento, consistia em assegurar uma transição tranquila da monarquia para a república democrática, com a realização de eleições livres. Ele defendia o afastamento dos militares da vida política, a qual deveria, segundo ele, ficar nas mãos de civis. Na opinião do general Naguib, os militares deveriam restringir as suas atividades à caserna. Em contrapartida, Nasser e o grupo do “Oficiais Livres” entendiam que o exército egípcio deveria assumir o controle total do país. Nasser não via com bons olhos a ideia da democracia. Em 1954, Naguib por deposto por Nasser e condenado por ele à prisão domiciliar, da qual foi liberto somente em 1971, já no governo Sadat. Em 1984, aos 83 anos de idade, Naguib morreu, mas não sem deixar seu testemunho para a História, em seu livro autobiográfico, de título bem sugestivo: “Fui presidente do Egito”.

Desde a prisão domiciliar e até a sua morte, Naguib viveu em pleno ostracismo. O regime de Nasser tratava-o como persona non grata, negando e seu papel decisivo na Revolução de 23 de julho, e chegando ao absurdo de tentar apagar o nome do Mohammad Naguib dos livros de História, como sendo o primeiro presidente da História do Egito. Não resta dúvidas de que o general Naguib foi um dos maiores injustiçados da História Moderna e Contemporânea do Egito.

Gamal Abdel Nasser

Dotado de transbordante carisma de apelo populista, Gamal Abdel Nasser foi muito mais do que um simples presidente do Egito. Líder importante no mundo árabe e no dito terceiro mundo, Nasser ergueu alto a bandeira do pan-arabismo e, junto como os seus amigos Nehru (líder indiano) e Tito (líder da Antiga Iugoslávia), lideraram a formação do grupo dos estados não-alinhados em plena Guerra Fria, no século XX. Foi uma estratégia dos principais líderes do dito terceiro mundo para manter neutralidade em relação ao conflito entre as duas superpotências EUA e URSS, conflito este que marcou a maior parte do século XX.

Amado por muitos de um jeito que beira à idolatria (o seu funeral é tido como o maior da História Mundial), e odiado por outros ao ponto da demonização, Nasser provocou e ainda provoca acaloradas discussões no Egito e em todo o mundo árabe. Em 1954, com apenas 36 anos de idade, Gamal Abdel Nasser tornou-se presidente do Egito e principal líder do mundo árabe. Ele era um forte defensor e aliado da causa palestina e inimigo mortal do então recém-criado estado de Israel. Tentou colocar em prática os seus ideais de pan-arabismo com a criação da República Árabe Unida (constituída pelo Egito e pela Síria), mas foi uma experiência fracassada que durou cerca de três anos apenas.Entre as suas principais realizações e obras estão a nacionalização do Canal de Suez (ocorrida em 1956; o canal estava sob domínio colonial europeu até então; este fato provocou a guerra da tríplice aliança, ofensiva levada a cabo por França, Grã-Bretanha e Israel contra o Egito), a reforma agrária e a construção da hidrelétrica “Al-Sad Al-Ali” (significa “Barragem Alta”), no sul do Egito, com a criação da represa de Nasser. De ideologia política que misturava o socialismo com o nacionalismo árabe, Nasser mantinha estreita amizade com os líderes da então União Soviética, a qual financiou a construção de uma das maiores obras de engenharia de todos os tempos, a “Al-Sad Al-Ali”, localizada no trecho do Rio Nilo do Alto Egito.

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O maior golpe na vida e na trajetória política de Nasser foi a humilhante derrota na Guerra dos Seis Dias em junho de 1967. Esta guerra que resultou na ocupação israelense de toda a Península do Sinai, das Colinas do Golã e da Cisjordânia, foi a mais dura, dolorosa e humilhante derrota dos árabes na história do conflito árabe-israelense. Em setembro de 1970, aos 52 anos, Nasser veio a falecer em decorrência de um infarto cardíaco (esta é a versão oficial), embora há quem diga que ele foi vítima de envenenamento. Com 16 anos na presidência do Egito e liderança do mundo árabe, Nasser colecionou vitórias e derrotas, amores e ódios, mas foi, indubitavelmente, um dos maiores líderes egípcios e árabes da História.

Anwar Al-Sadat

Vice-presidente do Egito e membro dos Oficiais Livres, Anwar Al-Sadat assumiu o poder logo após a morte de Nasser. Deste fato, conclui-se que a Revolução de 23 de julho persistiu seguindo no caminho da ditadura. As forças armadas mantinham o controle total do país. O que mais marcou o governo de Sadat (que durou de 1970 a 1981) foram três fatos: 1) o rompimento definitivo e radical com o nasserismo e o pan-arabismo, o que teve como consequências várias prisões políticas e o abandono da amizade com os soviéticos, com uma aproximação cada vez maior com os Estados Unidos; 2) a vitória militar árabe na Guerra de Outubro de 1973 (também conhecida como “Guerra de Ramadan” ou “Guerra do Yum Kipur”) que, além de resgatar um pouco da moral árabe abatida com a derrota de 1967, serviu para abrir o caminho para os acordos de paz com Israel; 3) O “Acordo de Camp David”, sob o patrocínio do presidente americano Carter, que selou a paz entre o Egito de Anwar Al-Sadat e Israel de Mehahim Beguin (entre outras coisas, este acordo devolveu toda a Penísula do Sinai ao Egito). Sadat foi tragicamente assassinado em desfile militar em 1973, realizado para comemorar a lembrança da vitória na Guerra de Outubro.

Hosni Mubarak

A chegada de Hosni Mubarak ao poder em 1981 deu-se de forma semelhante ao seu antecessor Anwar Al-Sadat. Nada de eleições democráticas. Nada de os militares voltarem para a caserna e deixarem a vida política ser conduzida por civis capacitados e idôneos. Mubarak era vice-presidente do Egito quando Sadat foi assassinado. Assim, logo após a morte do presidente da “vitória de Outubro” e do “acordo de Camp David”, Hosni Mubarak, que também tinha sido comandante da força aérea egípcia, assumiu o poder e tornou-se o quarto presidente da História do Egito (até agora todos presidentes militares, ditadores para todos os efeitos). Um fato muito curioso que não podemos deixar de citar é o fato de Mubarak estar sentado ao lado do presidente Sadat no momento que ocorreu o atentado que matou este último. Hosni Mubarak não só saiu ileso deste atentado, como também tornou-se o presidente mais longevo da História do Egito, ficando no poder por cerca de três décadas.

A Revolução de Janeiro de 2011

Dado o gatilho inicial na Tunísia no final do ano de 2010, o Egito foi o segundo país a aderir à tão aclamada e celebrada “Primavera Árabe”. O dia 25 de janeiro de 2011, na Praça Tahrir, no centro do Cairo (capital do Egito), foi dado início ao movimento, que logo alastrou-se para todas as principais cidades do Egito, e que culminou com a derrubada do ditador Hosni Mubarak, após quase três décadas no poder.

Me lembro muito bem do dia da eclosão da Revolução de 25 de Janeiro. Era feriado municipal do aniversário da cidade de São Paulo. Naquele dia, eu estava de plantão como médico de emergência num dos pronto-atendimentos do centro de São Paulo. Começaram a chegar as notícias das aglomerações milionárias na Praça Tahrir no Cairo e em todas as cidades do Egito. Assim como muitos árabes espalhados pelo mundo, fiquei eufórico e exultante, com a real e viva esperança de que esta revolução traria dias melhores ao mundo árabe, com a derrubada dos regimes ditadoriais presentes na maioria dos países árabes (sejam repúblicas ou monarquias tirânicas). Afinal de contas, o Egito é a maior nação árabe, sendo o centro cultural, religioso e intelectual de ambos os mundos árabe e islâmico. Tudo o que acontece na “mãe do mundo” (como os egípcios chamam carinhosamente o seu país) tem tendência a influenciar e refletir-se em todos os países árabes e, em escala menor, nos países islâmicos não-árabes.

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Mohammad Morsi

Após um breve período de transição liderado por um comitê composto pelos maiores oficiais das Forças Armadas Egípcias, as primeiras eleições democráticas da História Milenar do Egito levaram o Dr. Mohammad Morsi ao cargo de presidente da República Árabe do Egito. Formado em engenharia mecânica, era também doutor e professor universitário nesta área.

Morsi pertencia à Irmandade Muçulmana, e venceu as eleições no segundo turno contra o candidato das forças armadas, Ahmad Chafic. O mundo árabe, apesar da oposição de grupos laicos (tanto de direita quanto de esquerda), ficou exultante e jubiloso com a chegada ao poder, no Egito, do primeiro presidente eleito democraticamente. Mas esta exultação não duraria muito. O Dr. Morsi ficou um ano apenas no poder. O seu ex-ministro de defesa, o marechal Abdel Fattah Al-Sisi, liderou um golpe militar sanguinário e assumiu o poder com uma mão de ferro.

Assumindo o poder em junho de 2013, Mohammad Morsi foi deposto e preso em julho de 2013. Com a sua injusta prisão (junto com a prisão de líderes do alto escalão da Irmandade Muçulmana e de outros grupos políticos), o Egito voltou de novo a ser governado por uma ditadura, após o breve período de democracia, que durou apenas um ano. Da prisão, o Dr. Morsi nunca mais saiu. Em junho de 2019, numa sessão de julgamento na penitenciária, faleceu subitamente, após um desmaio, o único presidente democraticamente eleito da história do Egito. A versão oficial é de que Morsi teria sido vítima de morte súbita cardíaca, mas persistem fortes suspeitas de que foi morte matada. De fato, lealdade nunca foi o ponto forte do algozes de Morsi, a começar pelo ex-ministro do governo democrático: Abdel Fatah Al-Sisi.

Abdel Fatah Al-Sisi

O marechal Sisi derramou muito sangue inocente para conseguir chegar ao poder. Prendeu. Perseguiu. Matou. Aplicou injustamente a pena de morte a prisioneiros políticos. Cometeu massacres. Eliminou centenas de opositores pacíficos. O massacre de Rabaa Al-Adawiya é o episódio mais trágico e sanguinário, numa longa lista de repressões e opressões. E, assim, desde julho de 2013, até os dias de hoje, o Egito está nas mãos do marechal Abdel Fatah Al-Sisi, um ditador sanguinário, um tirano opressor, o homem que deu o maior golpe nas esperanças de democracia no Egito e, por tabela, no resto do mundo árabe.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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