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A traição de Bin Salman não pode ser separada da normalização do cantor egípcio Mohamed Ramadan

Secretário de Estado dos Estados Unidos Mike Pompeo e Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu encontram-se na sede do governo israelense, em Jerusalém Oriental ocupada, em 19 de novembro de 2020 [Gabinete do Primeiro-Ministro de Israel/Agência Anadolu]
Secretário de Estado dos Estados Unidos Mike Pompeo e Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu encontram-se na sede do governo israelense, em Jerusalém Oriental ocupada, em 19 de novembro de 2020 [Gabinete do Primeiro-Ministro de Israel/Agência Anadolu]

O Tio Sam sempre expõe seus agentes, ao tirá-los da cama na escuridão da noite e trazê-los à luz do sol. Trata-se da própria natureza dos truques sujos conduzidos por agências de governo que operam nas sombras, em Washington e países aliados.

Portanto, não é surpresa alguma que os israelenses decidiram revelar detalhes do encontro entre Mohammed Bin Salman, príncipe herdeiro e governante de fato da Arábia Saudita, e o Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu, na cidade saudita de Neom, acompanhados pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos Mike Pompeo. Na realidade, estranho é o fato de Riad negar a reunião, de modo que Israel preferiu expor ainda mais o episódio à mídia internacional, o que efetivamente constrangeu os sauditas e suas tentativas miseráveis de encobrir as ações de seu governante de fato, ao remover o último vestígio de sua máscara.

Não é a primeira vez que Bin Salman encontra-se com Netanyahu ou outros líderes israelenses. Reuniões do tipo ocorreram inúmeras vezes. Câmeras capturaram o avião particular do príncipe pousando no Aeroporto Internacional Ben-Gurion, perto de Tel Aviv, durante uma visita a Israel, em 2017, por exemplo. Na ocasião, Riad não confirmou, tampouco negou um encontro entre oficiais de governo.

A iminente partida de Donald Trump da Casa Branca assombra Bin Salman, pois o príncipe sabe muito bem que, apesar das chantagens e da expropriação de bilhões dos cofres do tesouro saudita, o presidente republicano é mais piedoso sobre a monarquia islâmica do que seu sucessor Joe Biden. Bin Salman teme que o presidente eleito abra inquéritos sobre a questão de direitos humanos na Arábia Saudita e sobre o assassinato do jornalista dissidente Jamal Khashoggi. O príncipe herdeiro é o principal suspeito por ordenar a morte de Khashoggi, executado no consulado saudita em Istambul, no dia 2 de outubro de 2018. Os serviços de inteligência da Turquia entregaram à Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) gravações de áudio registradas dentro do consulado que comprovam a operação, mas Trump efetivamente protegeu seu aliado de qualquer processo que venha a responsabilizá-lo.

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É por isso que Bin Salman voltou-se a Netanyahu, a fim de limpar caminho para a posse de Biden como Presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro. O futuro presidente democrata não é particularmente amistoso ao reino, ao menos devido à intervenção saudita na guerra do Iêmen. Haverá, é claro, um preço a pagar e Netanyahu deverá coletá-lo em breve. A normalização e o estabelecimento de relações diplomáticas entre Arábia Saudita e Israel é mera questão de tempo. Ambos possuem canais abertos de comunicação há anos e reuniões secretas entre oficiais sauditas e israelenses são comuns. Sobretudo, foi Riad quem mobilizou Bahrein e Sudão a normalizar relações com o estado sionista e concedeu a bênção à mesma medida por parte dos Emirados Árabes Unidos.

Às vésperas do aniversário de 85 anos de seu pai, Bin Salman esperava chegar ao trono ainda sob a gestão de Donald Trump, com apoio do genro e conselheiro do presidente americano, Jared Kushner. Ambos representaram seus maiores apoiadores nos últimos quatro anos, mas agora suas esperanças e ambições repousam na anuência do premiê israelense.

A pressa de alguns estados árabes em normalizar relações com Israel não foi aceita de modo algum pelo povo comum em toda a região. A rejeição popular de fato preocupa Israel, a tal ponto que o estado sionista decidiu recrutar o popular ator e cantor egípcio Mohamed Ramadan como ferramenta para limpar a imagem da ocupação. O plano é atrair seus fãs junto de Ramadan, confiante de que seu público tem pouca ou nenhuma consciência política.

Israel deixou a direção deste complô a ser decidida pelos Emirados Árabes Unidos. Ramadan voou em um jato particular até uma festa de abertura de uma filial de negócios israelense em Dubai. O cantor não desapontou, dançou ao som da canção folclórica “Hava Nagila” e abraçou alegremente o cantor israelense Omer Adam. Fotografias do evento foram compartilhadas nas redes sociais; porém, reviraram seu mundo do avesso. Sob intensa pressão da indignação pública no Egito, em violação de diversos tabus nacionais, uma série de televisão estrelada pelo ator e cantor, prevista para ser transmitida durante o disputado mês do Ramadã, foi efetivamente cancelada. Uma notória empresa de telecomunicações no Egito parou de difundir um novo comercial gravado com Ramadan, sob receios de danos aos seus negócios. Além disso, a União de Sindicatos Artísticos decidiu suspendê-lo do trabalho e o Sindicato dos Jornalistas emitiu uma nota reivindicando que seu nome e sua imagem sejam banidos dos jornais, com alerta de que qualquer violação estará sujeita a ação sindical.

Enquanto Israel celebrava Ramadan por sua participação na festa em Dubai, o Egito reagia de forma profundamente indignada. Não poderia representar, portanto, uma paz amistosa afinal, após quatro décadas de “paz fria”. De fato, o truque publicitário decorreu no efeito oposto ao desejado, à medida que Ramadan tornou-se um exemplo de alto perfil do que poderá ocorrer a outras figuras públicas que decidirem acompanhá-lo. Os sionistas pareceram chocados com toda a reação árabe, ao redescobrir a dimensão do repúdio dos cidadãos comuns do Egito diante do estado racista de Israel, além da contundência do apoio popular à causa palestina.

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A mensagem foi recebida em alto e bom som: apesar dos “acordos de paz”, o povo egípcio rejeita a normalização. Esta sempre foi e permanece como a posição popular no Egito e não há qualquer forma de disfarçá-la em nome de uma suposta paz amistosa ou qualquer outro ardil.

A resposta do povo egípcio jogou água fria no entusiasmo dos estados do Golfo, ao refletir a dura realidade dos pactos de normalização. Tais acordos nada têm a ver com paz, mas representam apenas arranjos políticos rasos entre os regimes árabes sionistas e Israel.

Estamos diante agora de uma encruzilhada. As políticas adotadas e alianças estabelecidas são perigosas demais para recaírem a qualquer agente privado que mal sabe a história de seu próprio país ou a realidade a seu redor. No entanto, gostem ou não, Ramadan poderá ser determinante ao nosso futuro. E não podemos separá-lo da traição de Bin Salman.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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