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Vitória incompleta do Azerbaijão, derrota esmagadora da Armênia, grande vitória da Rússia

O presidente russo, Vladimir Putin (E), cumprimenta o presidente armênio, Nikol Pashinyan (D), durante cerimônia de boas-vindas, em 20 de dezembro de 2019, em São Petersburgo, Rússia. [Mijhail Svetlov/Getty Images]
O presidente russo, Vladimir Putin (E), cumprimenta o presidente armênio, Nikol Pashinyan (D), durante cerimônia de boas-vindas, em 20 de dezembro de 2019, em São Petersburgo, Rússia. [Mijhail Svetlov/Getty Images]

Não há dúvidas de que a Rússia, sob liderança de Vladimir Putin, não é o mesmo Estado fraco que era após a desintegração da União Soviética. O presidente russo quer devolver ao país a glória da URSS e a sua posição geopolítica. A intervenção militar na Ucrânia, por meio da qual controlava locais estratégicos na Crimeia, foi seguida pela anexação da península por Moscou após a zombaria de um referendo em que a população local aparentemente votou pela adesão à Federação Russa.

A Rússia também interveio na Síria para pôr fim à revolução contra seu aliado, Bashar Al-Assad. Pretendia mantê-lo como figura de proa com Moscou como governante de fato.

Agora, a Rússia está ativa no Cáucaso, sobre o qual deseja ter controle e ser ponto de referência. Daí o acordo mediado pela Rússia para devolver Nagorno-Karabakh ao Azerbaijão após 30 anos da ocupação armênia. Moscou controla efetivamente a situação, tendo, inclusive, pressionado um acordo para encerrar a guerra após o Azerbaijão obter uma grande vitória e liberar parte de suas terras ocupadas, a mais importante a cidade de Shusha.

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Com as forças do Azerbaijão a poucos metros de libertar toda a região, a Rússia temeu que o caos ocorresse e que perderia completamente a região de Karabakh, de modo que estabeleceu linhas vermelhas para o Azerbaijão não cruzar o limite e evitar que as tropas do país avançassem para a capital. Enquanto isso, impôs um acordo de cessar-fogo à Armênia, que sofreu derrota esmagadora. Isso fez com que o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, fugisse para um local secreto e se dirigisse ao seu povo pelo Facebook. O líder insistiu que, se não tivesse aceitado o acordo e as condições de paz, mais de 20 mil soldados armênios teriam sido capturados e perdido Karabakh.

O Azerbaijão e a Armênia eram ambos “Repúblicas Socialistas Soviéticas” dentro da URSS, antes de ela se desintegrar, e Putin tem a intenção de trazê-los de volta ao país; Moscou é o principal aliado da Armênia. No entanto, o presidente russo parece insatisfeito com a atual liderança armênia por suas inclinações ao Ocidente, o que o fez adotar uma postura aparentemente neutra quando a luta por Nagorno-Karabakh foi retomada. Ele pediu à Armênia que se retirasse do território ocupado do Azerbaijão, enquanto a Turquia apoiou o Azerbaijão militar, logística e politicamente. A Rússia queria que essa guerra enviasse um aviso à liderança armênia para retornar ao redil russo ou, então, ser mudada. Ao mesmo tempo, não queria sofrer uma derrota humilhante nas mãos do Azerbaijão, apoiado pela Turquia. Por isso, o acordo apressado, o qual interrompeu a luta e deu a Moscou vantagem sobre a região. Os termos do acordo farão com que as forças armênias se retirem e sejam substituídas por “soldados da paz” russos. O ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, disse, em Moscou, que nenhuma força internacional se juntará aos russos nessa função. O acordo de paz não contemplou a participação das forças turcas, embora tenha sido feito com a Turquia a fim de obter um papel de monitoramento do cessar-fogo em algumas áreas.

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As forças russas são posicionadas ao longo do Corredor Lachin do lado armênio e, portanto, a Rússia terá obtido a parte do leão nesse bolo. Isso pode representar uma ameaça para a Turquia e o Azerbaijão no futuro.

Putin soube administrar a crise com inteligência, habilidade e, da maneira que pretendia, alcançou o resultado esperado. Ele se manteve longe do Conselho de Segurança e do Grupo de Minsk, de modo que Moscou conseguiu a maior parte do que queria, apesar de ainda estar tentando substituir a liderança armênia, a menos que mude suas políticas voltadas ao Ocidente. Protestos foram vistos na Armênia contra o acordo humilhante, com manifestantes entrando no parlamento e vandalizando-o. Isso pode evoluir para algo mais sério. A agência de segurança do Estado armênio disse que frustrou uma tentativa de golpe e um complô para assassinar Pashinyan.

O Azerbaijão espera há 30 anos que a comunidade internacional devolva o seu território ocupado, sem sucesso. Tendo investido seu potencial econômico, desenvolvido seu exército em cooperação com a Turquia e ansioso por desenvolver seu arsenal, o Azerbaijão buscou mudar o status quo e provar sua capacidade de libertar Nagorno-Karabakh pela força. Infelizmente, a Rússia não permitiu a liberação completa do território.

As negociações e os interesses internacionais, assim como aproveitadores à espera de recolher as migalhas, provavelmente farão com que sacrifícios dos soldados no campo de batalha tenham sido em vão. Essa será a consequência de o Azerbaijão vitorioso aceitar o acordo russo e parar a guerra quando suas forças ganhavam em campo.

Em suma, testemunhamos uma vitória incompleta do Azerbaijão; uma derrota esmagadora para a Armênia; e uma grande vitória para a Rússia. E os russos nem mesmo precisaram disparar um único tiro.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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