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Pentecostalismo sionista e a capitulação da Guatemala

Presidente da Guatemala Jimmy Morales e Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu comandam cerimônia de inauguração da embaixada guatemalteca em Jerusalém [Twitter]
Presidente da Guatemala Jimmy Morales e Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu comandam cerimônia de inauguração da embaixada guatemalteca em Jerusalém [Twitter]

O primeiro país latino-americano a decidir pela transferência de sua embaixada de Tel Aviv para a Jerusalém foi a Guatemala, ainda em dezembro de 2017 , sob o então governo do comediante Jimmy Morales (de janeiro de 2016 a janeiro de 2020), em seu controverso e subalterno mandato. A mudança da representação diplomática máxima dessa república centro-americana, no criminoso Estado de Israel, foi muito aplaudida pelo primeiro ministro Benjamin Netanyahu, seu aliado na Casa Branca, Donald Trump, e centenas de fariseus neopentecostais, tanto nos Estados Unidos como no território outrora epicentro do “mundo Maia”. Morales, além de atuar no ramo do entretenimento é egresso do pentecostalismo, serviu-se dessa base de proselitismo para sua campanha e governo, favorecendo pastores aliados e usando essas instituições sócio-políticas para legitimar suas nefastas políticas, tanto domésticas como em escala internacional.

Mas nem sempre foi assim na Guatemala, o mais populoso país da América Central. Nos últimos trinta anos, o evangelismo-pentecostalismo teve um crescimento repentino. Trata-se do país com mais pentecostais per capita da América Latina, algo em torno de 40% e, para cada igreja católica, estima-se que haja até 96 igrejas protestantes. Somente entre 2007 e 2014, os mega-templos das igrejas Christian Fraternity e Casa de Dios representaram um investimento de US$ 100 milhões. Nada é por acaso. Tais instituições, com crescimento vertiginoso após o recuo da guerrilha e os “acordos de paz”, minaram a base social mais à esquerda e têm ligações muito profícuas com a chamada direita bíblica dos EUA, instituições de manipulação da fé alheia, que professam uma versão absurda do Velho Testamento, também conhecido como “sionismo evangélico-pentecostal”. O crescimento da direita pentecostal, aliada dos invasores da Palestina, é proporcional ao avanço do imperialismo estadunidense. Além disso, a fragilidade do país, diante da necessidade de receber divisas das massas de imigrantes que trabalha nos Estados Unidos, também reforça o peso eleitoral do pentecostalismo.

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Raízes da guerra revolucionária guatemalteca: cristianismo popular, luta indígena e camponesa

Na década de 1980, a América Central viveu sob uma intensa pressão imperialista, arriscando seu destino em três lutas simultâneas: Nicarágua, El Salvador e Guatemala. A mais antiga das guerras civis latino-americanas, até então, era a guatemalteca, iniciada em novembro de 1960 (concluindo as negociações de “paz” em dezembro de 1996), com a reorganização da resistência popular após oito anos do golpe de Estado que, em 1954, derrotou o presidente reformista, o general Jacobo Árbenz Guzmán.

O ex-militar prometia uma agenda social, que por sinal era urgente. Apenas os dados fundiários eram muito alarmantes. Em março de 1951, quando Árbenz assume o Poder Executivo após ser eleito em 1950, três quartos da população da Guatemala controlavam coletivamente menos de 10% das terras. Enquanto isso, apenas uma empresa dos Estados Unidos, a United Fruit Company, possuía mais de 50% de todas as terras aráveis, das quais apenas 3% eram cultivadas.

O golpe havia começado na noite de 18 de junho de 1954. Quase 500 soldados, sob o comando do coronel Carlos Castillo Armas, havia cruzado a fronteira de Honduras com um único objetivo: acabar com o governo de Árbenz. A pequena oligarquia criolla guatemalteca, associada da CIA e dos capitais “bananeiros” estadunidenses, queria extirpar a experiência da reforma agrária e a garantia de direitos sociais. Árbenz renuncia na manhã de 27 de junho, com o colapso das forças armadas nacionais, quebra de lealdades e entreguismo, favorecendo aos odiados gringos.

A intervenção da CIA foi uma espécie de era inaugural da Agência no pós Segunda Guerra. Em termos de projeção imperialista, equivale para a América Latina ao golpe dado contra o governo do primeiro ministro iraniano, Mohammad Mossadegh (abril de 1951 a agosto de 1953). Dr. Mossadegh (“o correto, o honesto”) promoveu a nacionalização do petróleo, ferindo de morte a odiada empresa Anglo Persian Oil Co. A CIA entrou de cabeça na mudança de regime, dando um autogolpe monarquista absolutista, entregando a Pérsia para a influência anglo-saxã, com os Estados Unidos substituindo a Inglaterra como hegemon no Golfo Pérsico, na prática “fechando o estreito de Ormuz”, área de navegação de ao menos 20% do fornecimento global de petróleo e derivados. Mossadegh, no Grande Oriente Médio e Árbenz, na América Central, destinos que se equivalem.

Entrevista com o ex-deputado da Guatemala Enrique Alvarezex

Durante a guerra civil guatemalteca, quatro forças político-militares combateram em separado até que, em 1982, a coordenação estratégica se deu através da fundação da Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG, hoje homônima de um partido político eleitoral herdeiro enfraquecido desse processo). Concomitante ao frente político-militar da URNG, as Comunidades de Populações em Resistência (CPRs) e as bases paroquiais indígenas, camponesas e periféricas eram o tecido social produtivo da guerra e da revolução. Alimentando todas as frentes, animavam o trabalho de inserção, abrigavam refugiados, operavam corredores de solidariedade e mantinham a produção da agricultura familiar e camponesa. Em todas essas tarefas estavam o clero católico e aliados protestantes progressistas, ambos sob a guarda da Teologia da Libertação, Fé e Política e Ecumenismo e Revolução.

O avanço das conversações de “paz” trouxe consigo a ampliação da área metropolitana da Cidade da Guatemala (cerca de um milhão na capital e outros dois milhões e 700 mil nas periferias), dentro de um universo de mais de 17 milhões de guatemaltecos. As comunidades de maioria indígena são mais bem organizadas e preservam sua cultura originária, praticando formas de sincretismo de resistência advinda dos tempos coloniais. Há, portanto, nesses locais, resistência. O neocolonialismo gringo se dá na reprodução em velocidade absurda de uma leitura pentecostal, baseada no fantástico (denominado por estes de “sobrenatural”), no clientelismo e na reprodução das linhas da política externa do Império e seu aliado Israel.

Aliança Evangélica da Guatemala exorta a balançar bandeiras de Israel

A entidade que congrega os pentecostais guatemaltecos, a Aliança Evangélica , foi fundamental no apoio ao então presidente Jimmy Morales para instalar a embaixada de seu país na Jerusalém Ocupada. Ao contrário dos pregadores profissionais, os diplomatas e exportadores preocuparam-se com o fechamento de portas do mercado árabe, consumidor de produtos da Guatemala como cardamomo, açúcar, frutas, café e artigos de vestuário (em 2017 tais exportações representaram vendas de US$ 226 milhões).

Ao invés de pensar em termos diplomáticos e nos laços de solidariedade históricos entre o Mundo Árabe e América Latina, a liderança política dos fariseus guatemaltecos encorajou “as igrejas e pessoas físicas que são amigas de Israel” a agitar as bandeiras do país que invade a Cisjordânia e cerca Gaza “como um sinal de apoio e solidariedade para nós”. A Aliança Evangélica também afirmou à época que Morales tomou “uma atitude ligada à Bíblia e consistente com a amizade histórica com o povo de Israel”. São fariseus, profanadores e blasfemadores, que normalizam uma ocupação ilegal e o Apartheid.

Como era de se esperar, além dessa absurda decisão colonialista, o governo Morales terminou em janeiro de 2020 recheado de investigações de corrupção, desvio de fundos nacionais, financiamento público de suspeitíssimas empresas privadas e outras mazelas . Em cada uma dessas suspeitas há a presença de fariseus que apoiam a Ocupação da Palestina e a direita pentecostal imperialista. Definitivamente, para ampliar os laços entre as sociedades latino-americanas, árabes e a Causa Palestina, é urgente recriar pontes com o cristianismo progressista e ecumênico, católico e protestante.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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