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Mauritânia: luta contra a corrupção ou golpe brando?

Presidente da Mauritânia, Mohamed Ould Cheikh Ghazouani, em 30 de junho de 2020, em Nouakchott [Ludovic Marin/ Pool/ AFP/ Getty Images]
Presidente da Mauritânia, Mohamed Ould Cheikh Ghazouani, em 30 de junho de 2020, em Nouakchott [Ludovic Marin/ Pool/ AFP/ Getty Images]

O presidente da Mauritânia, Mohamed Ould Cheikh Ghazouani, acaba de completar seu primeiro ano no poder lançando uma campanha para combater a corrupção e proteger os fundos públicos. Como parte dessa campanha, foram abertos casos de uma década do ex-presidente Mohamed Ould Abdel Aziz. O primeiro sucesso da campanha foi a renúncia do primeiro ministro Ismail Ould Cheikh Sidiya, com menos de um ano da formação do governo, após um relatório da Comissão Parlamentar de Investigação que sugeriu que ministros estariam envolvidos em corrupção. O presidente Ghazouani propôs a formação do comitê no início deste ano.

Ghazouani parece decidido a romper com a época e o legado de seu antecessor, a ponto de o assunto se tornar um confronto aberto entre eles. Isso sugere que a disputa chegou a um ponto sem volta, especialmente após o desmantelamento de grande parte da influente rede de partidários do ex-presidente no establishment militar, notadamente com a remoção de oficiais-chave da Guarda Presidencial, a unidade mais importante do Exército. Esta é a unidade que realizou golpes militares em 2005 e 2008.

A campanha anticorrupção faz parte do programa de reforma do presidente Ghazouani, que foi aceito e aprovado pela maioria dos mauritanos, até porque estabelece responsabilidade e prestação de contas. Há também uma ênfase na igualdade para todos perante a lei, conforme confirmado pela responsabilização de figuras influentes na hierarquia estadual. Há poucos dias, a Polícia de Crimes Econômicos convocou um ex-presidente de dois mandatos para fornecer provas em casos de corrupção nos quais ele é suspeito de estar envolvido. A acusação foi ampliada para incluir a apreensão de bens e interrogatório de seu filho e genro.

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Muitos estavam otimistas de que a mudança sinalizaria o desmantelamento da corrupção enraizada que tomou conta de todo o órgão do estado, na medida em que era a norma ao lidar com todas as instituições públicas e administrações na Mauritânia desde o início dos anos 1990. Foi quando os militares legitimaram a corrupção sistêmica durante a era do ex-presidente Maaouya Ould Sid’Ahmed Taya, deposto por um golpe militar em 2005.

Os mauritanos estão otimistas quanto a um novo caminho a seguir para um país árabe e africano que possui recursos naturais e humanos totalmente desproporcionais em relação a sua classificação nas listas de indicadores globais. Há, porém, quem permaneça cético sobre o que está acontecendo porque a disputa está entre o atual e o ex-presidentes.

Isso começou com um movimento político dentro do Partido União pela República (UPR), que levou ao surgimento da “crise de referência”, já que o ex-presidente Ould Abdel Aziz recebeu ministros e dirigentes políticos na sede do partido após seu retorno da Europa, em sua qualidade como presidente fundador do partido e sua única referência. Ele presidiu uma reunião do comitê do partido no poder para apresentar sua nova visão e abordagem da situação da Mauritânia, desconsiderando os resultados da conferência do partido em dezembro de 2019, que anunciou o desligamento do ex-presidente e considerou o programa de Ould Cheikh Ghazouani como a nova referência para o partido no poder.

A reunião irritou os partidários do atual chefe de estado, e alguns consideraram a mudança um insulto e inaceitável contra um homem com quem ele mantinhauma relação de quarenta anos como amigos e colegas, no exército e na política. Existe até uma ligação pelo casamento, já que uma ex-esposa e mãe de uma das filhas do presidente é filha da tia de Mohamad Ould Abdel Aziz. Ghazouani também foi um dos indivíduos leais no momento mais difícil, pois esteve ao lado de Ould Abdel Aziz em seus golpes e protegeu o governo quando o presidente foi baleado no deserto em 2012.

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Mohamed Ould Abdel Aziz se defendeu e destacou que a ação do partido se baseia na ideia de proteger a democracia, ao acusar o atual presidente de trabalhar para destruí-la controlando as instituições partidárias e eliminando partidários do presidente fundador. Este argumento não se sustenta diante da história política de Ould Abdel Aziz, já que ele liderou o golpe militar contra Sidi Mohamed Ould Cheikh Abdallah, o primeiro presidente eleito da Mauritânia deposto em 2008. A Mauritânia está experimentando uma alta temperatura política.

O que pode acontecer agora? Existem três possibilidades. Para começar, o governo Ould Ghazouani vai querer moldar a política mauritana para se adequar a si mesmo. Para isso, está utilizando a campanha anticorrupção, convocando o ex-presidente, sua família e seus assessores com o objetivo de silenciá-los e retirá-los de cena. No mínimo, isso irá garantir que seu papel político seja reduzido e contido. Este é o objetivo das acusações de corrupção e má gestão.

Além disso, o governo vai querer ganhar nova legitimidade entre os cidadãos mauritanos movendo o processo sobre corrupção, que é visto pelo público como um ninho de vespas. Assim, Ould Ghazouani acerta dois coelhos com uma cajadada só, quebrando seu oponente político e obtendo um cheque em branco do povo para administrar seus negócios com calma, apesar de as condições econômicas serem muito difíceis.

Finalmente, o governo tentará recuperar o dinheiro roubado e levar os criminosos à justiça. Esta é apenas uma possibilidade tênue, porque requer uma forte vontade política, que o governo Ould Ghazouani ainda carece. A força do apoio de apoiadores estrangeiros foi revelada em sua campanha eleitoral, pois os apoiadores do presidente do Fórum para a Promoção da Paz nas Sociedades Muçulmanas dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Abdullah Bin Bayyah, com todo o seu peso, apoiaram Ould Ghazouani. Isso ficou ainda mais claro quando o recém-eleito presidente Ghazouani escolheu os Emirados Árabes Unidos para sua primeira visita ao exterior. Além disso, o filho mais velho do xeque Bin Bayyah, Mohamed Mahmoud Ould Bey, foi nomeado Ministro da Justiça.

Ao considerar tudo isso, podemos esperar uma reação do outro lado a qualquer momento. Ould Abdel Aziz, quejá liderou um golpe militar, não pode arriscar outro sem ter cartas para jogar contra o novo governo.

Este artigo foi publicado em árabe em Al-Araby Al-Jadeed em 24 de agosto de 2020

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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