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‘Eles os queimaram, mortos e vivos’, relata médica de campo sobre Rabaa

Dra. Hanan al-Amin
Dra. Hanan al-Amin

A dra. Hanan al-Amin estava em uma tenda médica provisória no hospital de campo de Rabaa, quando forças de segurança invadiram o local e deram-lhe ordens, junto de outro médico, para sair imediatamente. Um paciente estava na mesa com o abdômen aberto – os médicos haviam descoberto seis balas em seu fígado, rim e diafragma.

A médica insistiu ao policial que não poderia abandonar os pacientes, apontando para outras três pessoas à sua frente. Em resposta, o policial ergueu sua arma e atirou em cada uma delas na região do coração.

“Naquele momento, perdi a habilidade de pensar”, recorda a médica. “Tudo que pude pensar é que aquela pessoa não poderia ser, de modo algum, um ser humano, não tinha como estarmos ainda no Egito, não tinha como aquele homem ser parte do meu povo”, declara, sob lágrimas, diante da dolorosa recordação.

“Minha vida foi interrompida em 14 de agosto de 2013”, afirma, após um instante. “Não pude ir adiante do dia 15 de agosto; minha vida parou naquele dia.”

Há sete anos atrás, forças de segurança avançaram contra manifestantes na praça de Rabaa, que reuniam-se para protestar pacificamente contra a deposição de Mohamed Morsi, primeiro presidente eleito democraticamente no Egito, via golpe militar.

Por doze longas horas, franco-atiradores dispararam indiscriminadamente contra a multidão, tratores devastaram o local e forças de segurança incendiaram tendas.

Uma vez mortos tantos manifestantes quanto possível, os policiais voltaram-se ao hospital de campo, onde médicos (como al-Amin) tratavam pacientes de forma voluntária. Cerca de 1.000 pessoas morreram naquele dia.

Os manifestantes começaram a se reunir na praça de Rabaa cerca de um mês e meio antes do massacre. Al-Amin vivia do outro lado da praça e, a princípio, atendia ali algumas horas por dia, antes ou depois do trabalho na Universidade Zagazig, onde dava aulas de pediatria.

Com o passar dos dias, conforme os manifestantes continuavam a reivindicar seus direitos, a médica decidiu comprometer-se cada vez mais a atendê-los na praça de Rabaa. Al-Amin começou a sentir que tratava-se de uma causa nacional e do futuro de suas próprias crianças.

“Queria dar um exemplo ao povo, ao me voluntariar, diante das manifestações pacíficas, e para resgatar o país e exigir uma vida melhor à sua população”, afirma a médica.

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Al-Amin graduou-se como melhor de sua escola, não apenas de sua classe, e tinha confiança, quando jovem, de que seria uma boa médica. Mas nada que aprendeu na escola ou na universidade poderia prepará-la para o que vivenciou em Rabaa, naquele dia.

“Nunca, por um segundo sequer, enquanto estudava ou em trinta anos como médica, eu imaginei que teria de tratar a gravidade dos ferimentos que vi em Rabaa”, relata al-Amin. “Eu vi o que aconteceu aos palestinos durante a Nakba [catástrofe palestina; criação do Estado de Israel] nas mãos da ocupação israelense, mas jamais pensei que veria egípcios fazendo o mesmo com seu próprio povo”.

“Jamais imaginei que veria tantas pessoas, que protestavam e pediam apenas por seus direitos, serem feridas pelo seu próprio exército e sua própria polícia, que ali deveriam estar para defendê-los”, prossegue seu testemunho.

Vista aérea da Praça de Rabaa al-Adawiyya, onde dezenas de milhares de manifestantes protestavam contra o golpe militar que depôs o Presidente do Egito Mohamed Morsi, no Cairo, capital do Egito, 26 de julho de 2013 [Mohammed Elshamy/Agência Anadolu]

Vista aérea da Praça de Rabaa al-Adawiyya, onde dezenas de milhares de manifestantes protestavam contra o golpe militar que depôs o Presidente do Egito Mohamed Morsi, no Cairo, capital do Egito, 26 de julho de 2013 [Mohammed Elshamy/Agência Anadolu]

Nos dias que antecederam o massacre, a própria al-Amin participou dos protestos. À tarde, enquanto muitas pessoas descansavam, a médica envolveu-se também na organização de marchas de mulheres para mobilizar a população. Ela saía por uma hora, mais ou menos, e então voltava a trabalhar. “Era minha forma de recarregar as energias”, recorda.

“Senti como se as manifestações fossem o que de fato mantinha tudo vivo na praça. Em alguns dias, quando eu não saía, poderia vê-las e me motivar com os protestos, e então desejava estar lá fora com eles. Víamos todas as marchas e protestos, que começaram em Rabaa e nos outros lugares, como forma de reanimar nossa motivação e nossa esperança.”

Muitos dos médicos em campo eram filiados à Irmandade Muçulmana, mas não todos, destaca al-Amin. O diretor do hospital, por exemplo, não era. Havia ali, dentre os manifestantes, grupos autônomos que meramente acreditavam no direito dos egípcios de viver com liberdade.

“Todos nós acreditávamos nos direitos do povo de expressar suas opiniões e de preservar sua autodeterminação”, prossegue al-Amin. “Acreditávamos em nosso direito de exercer a democracia; acreditávamos também que povo egípcio surpreendera a todos com a sua revolução e que todos possuíam o direito de viver suas vidas da maneira como preferiam.”

Mas nada disso foi o bastante para salvar o povo, naquele dia.

O massacre começou por volta das 7 horas da manhã e, desde o início, al-Amin e seus colegas trabalharam incansavelmente para tentar cuidar dos feridos. Às 15 horas, aproximadamente, mal havia remédios sobressalentes, recorda a médica, nem mesmo analgésicos. “Eu estava ali, parada, desamparada, impotente. Naquele momento, odiei a mim mesma e odiei a medicina. Odiei tudo”, relembra.

Crianças aterrorizadas reuniram-se na mesquita, em busca de algum refúgio, mas estavam sufocando pelo gás lacrimogêneo. Ambulâncias foram impedidas pelas forças de segurança de entrar na praça. Relata al-Amin: “Era uma zona de guerra. O único objetivo por trás daquilo era imputar medo e intimidar o povo. Declararam um genocídio sobre nós, naquele dia.”

Os hospitais ao redor da praça de Rabaa estavam equipados, mas al-Amin recorda que tais instituições receberam ordens diretas das autoridades para não apenas impedir o acesso das ambulâncias, como para proibir a internação de qualquer paciente. Mesmo as farmácias nos arredores foram instruídas a não fornecer qualquer remédio.

Enquanto a dra. Hanan al-Amin era escoltada para fora do hospital de campo, pelo homem que executou seus pacientes, um menino gritou a ela para não abandoná-lo. Ela não ousou olhar para ele, pois temia que também fosse morto.

Do lado de fora, a médica testemunhou a coluna de fumaça que erguia-se do hospital de campo, ainda lotado de feridos. Forças de segurança incendiaram o local – “Eles os queimaram, mortos e vivos”, destaca al-Amin.

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Al-Amin conhece um dos médicos que foi baleado pelas costas e tornou-se paraplégico, na ocasião. Somente alguns profissionais de saúde foram poupados durante o massacre. Talvez, sugere a médica, Deus tenha lhes destinado a vida apenas para que pudessem suportar tamanha experiência. Quem sabe, alternativamente: os criminosos estavam comprometidos em assassinar toda a oposição.

Devido aos enormes temores sobre retaliações das autoridades diante dos protestos, manifestantes retiraram os corpos das crianças da praça escondidos em roupas ou cestos, para então enterrá-los. Muitos não esperaram qualquer certificado oficial de óbito, pois estavam aterrorizados demais com a possibilidade de que seus entes queridos ou irmãos fossem punidos por associação.

Algum tempo após o massacre, um dos policiais confessou ter recolhido 700 corpos com um trator e os transportar a Gebel al-Ahmar, perto da cidade de Heliópolis, subúrbio do Cairo, para então enterrá-los – alguns mortos; outros, ainda vivos. É por essa razão que al-Amin acredita que o número de mortos seja muito superior às mil vítimas anunciadas.

As forças de segurança tinham três objetivos claros, em 14 de agosto de 2013, reflete a médica. Primeiramente, desejavam eliminar todos que ali estavam; segundo, queriam enviar uma mensagem de medo e intimidação a todos que consideravam opôr-se ao novo regime; por fim, ansiavam por representar o massacre como uma vitória militar.

Obtiveram êxito, alega al-Amin, em dividir a sociedade em duas. “Uma metade foi morta, a outra teve de satisfazer-se em permanecer viva”, argumenta. “A divisão que surgiu do massacre levará anos, senão décadas, para sanar-se.”

“Qualquer um que esteve envolvido será punido”, prossegue. “Veremos todos eles punidos ao longo da vida; somente então, o povo poderá se curar.”

Quanto à comunidade internacional, reitera a médica: “Assistiram silenciosos, das 7 horas da manhã às 18 horas, enquanto, não apenas muçulmanos, mas toda a raça humana era queimada viva e assassinada diante dos olhos do mundo. Aquele dia é uma data de vergonha e desgraça para a humanidade como um todo.”

“Como pediatra, jamais amei e detestei minha profissão mais do que naquele dia, em Rabaa. Senti o verdadeiro valor da medicina. Naquele momento, amei o que faço pois senti o valor de tudo que estudei, mas também detestei meu trabalho pois me senti impotente como nunca antes. Jamais pensei que poderia estar tão desamparada, enquanto médica. Jamais pensei que veria um paciente na minha frente, sem ser capaz de tratá-lo.”

Os efeitos de Rabaa serão sentidos nos anos porvir, enfatiza al-Amin. Algumas pessoas demonstraram tanto medo do governo que suas crianças não foram devidamente tratadas logo em seguida. Muitas crianças de Rabaa sofrem os efeitos psicológicos do massacre até hoje. Algumas tornaram-se órfãs; ou muitos de seus pais estão na prisão.

“Tenho certeza que as crianças que estavam em Rabaa são nosso tesouro estratégico”, conclui al-Amin. “Após testemunharem Rabaa, não aceitarão viver suas vidas como escravos”.

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