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O Líbano é uma longa história de desastres e crises

Bandeira libanesa dentre os escombros após a explosão em Beirute, capital do Líbano, 5 de agosto de 2020 [Houssam Shbaro/Agência Anadolu]
Bandeira libanesa dentre os escombros após a explosão em Beirute, capital do Líbano, 5 de agosto de 2020 [Houssam Shbaro/Agência Anadolu]

O Líbano fez por merecer uma reputação de resiliência – uma habilidade extraordinária para se reconstruir e ir adiante, mesmo quando tudo parece perdido. Os últimos dez meses, porém, impuseram sucessivos testes a tamanha resiliência, crise após crise, desastre após desastre; aparentemente, um ciclo sem fim.

A crise do dólar levou a economia ao colapso; a crise financeira arrasou o valor dos salários e passou a impedir depositários de acessar suas poupanças; uma classe política corrupta e arraigada carece tanto de vontade quanto mera capacidade para implementar reformas; a pandemia de coronavírus pôs de joelhos os hospitais do país e agravou ainda mais a crise social; agora, duas massivas explosões, completamente evitáveis, devastaram a capital Beirute.

As explosões de terça-feira (5) ocorreram após 2.750 toneladas de nitrato de amônio pegarem fogo. O material explosivo estava armazenado indevidamente no Depósito n°12 do Porto de Beirute, há seis anos, após ser confiscado de uma embarcação. As explosões foram sentidas por toda a cidade e ouvidas tão longe quanto na ilha do Chipre, aproximadamente 240 quilômetros de distância do epicentro, no Mar Mediterrâneo.

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Até então, estimativas registram ao menos cem mortos e mais 4.000 feridos devido às explosões; centenas estão desaparecidos. Edifícios em toda a região de Beirute foram danificados; varandas e janelas, tão longe quanto os subúrbios da cidade, foram despedaçadas.

Diante das explosões, Nabih Berri – Presidente da Câmara dos Representantes do Líbano e líder do Movimento Amal, associado à comunidade xiita no país – descreveu Beirute como uma fênix, que se ergue das cinzas. A realidade é que este incidente conjura desastre ao país.

Antes mesmo do início da pandemia de coronavírus, o Banco Mundial estimava que mais de 50% da população libanesa seria empurrada abaixo da linha da pobreza, em 2020. As explosões devastadoras deverão acelerar o declínio libanês, em direção ao colapso e à miséria.

Milhares de residentes da capital perderam seus meios de vida, com lojas, escritórios e veículos irreparavelmente danificados. Algo entre 150.000 e 300.000 pessoas ficaram desabrigadas, após suas casas serem destruídas pelo incidente. Reparos à cidade deverão custar em torno de US$3 a US$5 bilhões, segundo estimativas do governo de Beirute.

Contudo, mesmo antes do último desastre no Líbano, o estado mal conseguia cambalear, desesperado por ajuda internacional para conter o acelerado e inevitável colapso econômico. A ajuda, no entanto, jamais se concretizou. A falta de resposta deve-se principalmente ao fato de que a assistência estrangeira estaria vinculada a reformas em todo o sistema do Líbano – em particular, no que se refere aos US$11 bilhões prometidos, em abril de 2018, pela Conferência Econômica para Desenvolvimento via Reformas e Negócios (Cedre), em Paris. Nada disso sequer aconteceu e o auxílio foi retido.

Após as explosões, não obstante, ajuda deve fluir aos montes em direção ao Líbano.

De fato, Arábia Saudita, França e mesmo Israel já ofereceram assistência de diversas formas possíveis. Todavia, sem qualquer garantia de que os recursos serão utilizados responsável ou efetivamente.

O fato da explosão ter sido causada ostensivamente por má gestão administrativa, segundo políticos de alto escalão que correram para fugir da culpa, e de protestos nacionais tomarem conta do país desde 17 de outubro de 2019, em denúncia à corrupção do estado, torna a eficácia financeira ainda mais incerta.

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Ao contrário, o que aconteceu nesta semana provavelmente promoverá ainda mais pedidos de resgate e negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), apesar de um impasse sobre as perdas do Banco Central. Investidores do FMI podem insistir em resolver a questão antes mesmo de assinar um acordo, estendendo o impasse indefinidamente, a menos que políticos libaneses sejam capazes de desatar este nó.

É verdade que o FMI pode sentir pressão para ignorar as perdas bancárias devido às explosões e concordar, portanto, com um acordo de resgate. Mesmo assim, há pouca expectativa ou confiança no bom uso do dinheiro. Enquanto isso, o colapso do Líbano continua a avançar.

As explosões não destruíram apenas lojas, escritórios, carros e casas de Beirute, mas também devastaram o maior porto do Líbano – um golpe gigantesco a um país que depende de importações para prover até 80% de seus alimentos. As explosões ainda danificaram um silo de armazenamento de trigo, para distribuição em todo o país, localizado no porto. Relatos oficiais, no entanto, alegam que o silo continha muito pouco grão no momento. Todavia, sem estoque ou um porto funcional para receber as importações via mar, persistem graves preocupações sobre a segurança alimentar do país.

A questão alimentar já era um problema no Líbano devido à crise econômica, que causou aumentos significativos nos preços de produtos importados – mesmo produtos mais básicos tornaram-se caros demais para milhares de residentes do país. O problema deve piorar.

Acima de toda esta conjuntura, há o setor de saúde no Líbano, também à margem do colapso. Já com enormes dificuldades para conter a demanda pelo aumento no número de casos de coronavírus, o sistema de saúde libanês subitamente teve de tratar milhares de pessoas com ferimentos graves, sofridos na tarde de terça-feira. Os hospitais também dependem substancialmente de importações para bens descartáveis e equipamentos e tiveram de reduzir serviços pouco a pouco, como resultado da crise econômica.

Protestos no Líbano [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Protestos no Líbano [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Os próprios hospitais foram severamente danificados pelas explosões. Médicos de plantão na noite de terça-feira tiveram de transferir pacientes para estacionamentos da cidade e retirar muitos feridos, frequentemente cobertos de sangue, das salas de trauma e de emergência. Algumas vítimas viajaram a Trípoli, cerca de 80 quilômetros a norte de Beirute, simplesmente para receber tratamento.

Residentes lançaram campanhas online para tentar encontrar seus entes desaparecidos; outros abriram suas portas a pessoas cujas casas foram destruídas pela explosão. Com histórico de levantes sociais, uma guerra civil de quinze anos, ocupação pela Síria e por Israel, a história do Líbano é uma longa história de crise após crise, desastre após desastre.

Seus políticos têm a oportunidade agora de enfrentar as dificuldades e realizar as mudanças, não apenas necessárias, mas que representam aquilo que o povo libanês, há muito sofrido, de fato merece. Não podem se dar ao luxo de ignorá-las.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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