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O desequilíbrio na abordagem canadense em relação aos palestinos

Bandeira do Canadá [foto de arquivo]

À medida que se aproximam as eleições federais no Canadá, no próximo mês, parece que há pouca diferença entre os dois principais partidos rivais – liberais e conservadores – no que se refere a apoiar Israel às custas dos direitos humanos palestinos. A principal diferença é que os conservadores deixaram bastante claro seu apoio unilateral a Israel, enquanto os liberais alegam equilíbrio ao agir de maneira partidária.

Sem dúvida, a política canadense sobre Israel e Palestina sempre caminhou na corda bamba. Por um lado, o Canadá se compromete à lei internacional, que condena a ocupação israelense sobre territórios palestinos como algo absolutamente temporário, seus assentamentos como evidentemente ilegais, além de considerar Jerusalém como cidade compartilhada, multiétnica e multirreligiosa, e garantir (supostamente) o direito de retorno dos refugiados palestinos à sua pátria.

Por outro lado, o Canadá vê Israel como um aliado próximo e companheiro de democracia liberal. O Canadá sempre apoiou a ideia sionista de que os judeus do mundo têm o direito a um estado no Oriente Médio. Independente dos governos canadenses – liberais ou conservadores – o apoio a Israel como estado judeu sempre foi uma constante.

Ainda assim, durante uma década de governo conservador (2006-2015), a tradição canadense de encorajar o respeito à lei internacional e promover paz e justiça no Oriente Médio deu espaço a um apoio hiperpartidário para o governo mais à direita na história do Estado de Israel.

Durante os ataques israelenses contra a Faixa de Gaza, em meados de 2014, que resultaram na morte de centenas de palestinos inocentes (incluindo crianças), oficiais do governo canadense responsabilizaram os palestinos pela agressão e alardearam o “direito” de Israel à “autodefesa”. O Canadá puniu os palestinos ao reter ajuda humanitária, impedir o trabalho voluntário de médicos em Gaza e recusar vistos a crianças palestinas convidadas para tratar seus ferimentos em hospitais canadenses.

A vitória eleitoral de um governo liberal em 2015, com seu primeiro-ministro jovem e carismático, deu vazão a esperanças de uma nova era nas políticas canadenses. O gestão liberal possuía a maior diversidade da história do país. Justin Trudeau – o novo primeiro-ministro – não conteve declarações a fim de promover a representatividade e a igualdade em seu governo. Na época, um repórter perguntou ao primeiro-ministro porque paridade de gênero era tão importante em seu gabinete; Trudeau respondeu de modo bastante ousado: “Porque é 2015”. A virtude não demanda justificativas.

Aqueles que esperavam uma abordagem ética por parte da política canadense sobre o Oriente Médio ousaram ter esperanças de alguma imparcialidade retornasse à mesa. Contudo, logo descobriram que o idealismo progressista de Trudeau não inclui os direitos humanos do povo palestino.

Mesmo antes das eleições, Trudeau atacou o movimento de BDS – campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções contra o estado de apartheid de Israel. Desde meados de 2005, ativistas palestinos realizam um chamado global pelo uso desta tática não-violenta em defesa dos direitos humanos – aos moldes da luta da África do Sul contra o apartheid –, diante do fracasso de esforços diplomáticos que encerrassem a ocupação militar israelense de décadas sobre os territórios palestinos.

O movimento de BDS busca pressionar Israel a cumpri a lei internacional. É promovido por meio de diversas iniciativas, incluindo eventos de conscientização acadêmica como a Semana do Apartheid Israelense, iniciada em Toronto e difundida por mais de cinquenta cidades em todo o mundo.

Ainda assim, ao invés de se alinhar ao movimento global por justiça, Trudeau decidiu tornar-se aliado dos mais radicais apoiadores do estado sionista de Israel. Em março de 2015, Trudeau compartilhou em seu Twitter: “O movimento de BDS, como a Semana do Apartheid Israelense, não tem lugar nas universidades canadenses.”

Não se sabe se Trudeau foi ignorante ou meramente estratégico. Decerto, estava ciente da profusão de indivíduos e grupos conceituados que apoiam o BDS, além de muitos outros que se recusam a condenar o movimento.

Entretanto, Trudeau também estava ciente de que defender direitos humanos – ao menos, no que se refere à Palestina – atrai um alto custo político. Por exemplo, em 2006, o altamente respeitado ex-presidente americano Jimmy Carter publicou seu livro Palestine: Peace Not Apartheid (Palestina: Paz Sim; Apartheid Não, em tradução livre). A reação foi rápida e contundente. Abraham Foxman, chefe de longa data da Liga Antidifamação dos Estados Unidos, classificou Carter como antissemita. A Universidade Brandeis, em Massachusettz, perdeu doadores após sediar uma conversa sobre o livro com o ex-presidente, condecorado com o Prêmio Nobel da Paz, em 2002. Jimmy Carter enfrentou um ataque frontal à sua reputação.

Justin Trudeau, Primeiro-Ministro do Canadá, em Buenos Aires, Argentina, 30 de novembro de 2018 [Murat Kaynak/Agência Anadolu]

De dezembro de 2008 a janeiro de 2009, Israel executou a chamada Operação Chumbo Fundido. O impiedoso ataque em massa contra a Faixa de Gaza empobrecida foi aparentemente provocado por alguns mísseis. Israel matou 1.409 palestinos, a grande maioria civis, incluindo centenas de crianças. No lado israelense, somente três civis e dez combatentes foram mortos, quatro destes por fogo amigo.

O ataque israelense contra Gaza levou a uma investigação iniciada pelas Nações Unidas, chefiada pelo jurista sul-africano Richard Goldstone. Seu relatório divulgado em setembro de 2009 mostrou-se crítico à imagem de Israel, ao revelar que o exército israelense utilizou deliberadamente força desproporcional contra civis palestinos.

Mais tarde, naquele mesmo ano, Benjamin Netanyahu foi eleito Primeiro-Ministro de israel e imediatamente passou a trabalhar para recuperar a reputação global do Estado de Israel. A analogia do apartheid, o chamado pelo BDS e o Relatório Goldstone – todos assinalavam uma mudança na opinião global que incomodava profundamente os anseios de Netanyahu. Goldstone foi violentamente difamado e segregado dos círculos acadêmicos e sociais. Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard e autodeclarado “fã número um” de Netanyahu, rotulou Goldstone (ex-colega e amigo) como “traidor do povo judeu”.

Em maio de 2010, o jornal israelense Haaretz noticiou que o Ministério de Relações Internacionais de Israel planejava utilizar grupos de fachada para transmitir mensagens de hasbara (propaganda, ou relações públicas), a fim de influenciar “políticos de alto escalão, formadores de opinião e jornalistas” no Ocidente. A hasbara opera ao tentar justificar e ressiginificar o histórico de abusos israelense, à medida que agride os críticos a Israel.

Este método encontrou ávidos soldados rasos na comunidade canadense. A população judaica da diáspora no Canadá é hoje uma das mais pró-Israel em todo o mundo.

O grupo Irmandade da Hasbara alega ter levado mais de 3.000 estudantes universitários e de ensino médio de mais de 250 instituições da América do Norte para viagens a Israel, com duração de dezesseis dias, a fim de ensiná-los táticas de “comunicação positiva” para promover Israel.

Aish Toronto, que administra a Irmandade da Hasbara no Canadá, declara levar “centenas de estudantes” a Israel durante os períodos de verão e inverno (férias escolares), “ao lhes conceder informação e ferramentas para retornar às suas escolas como educadores sobre Israel”. Outros grupos, como o StandWithUs Canada, também são treinados para agir como “emissários estudantis ao estado judeu”.

O Centro Canadense para Assuntos Judaico-Israelenses (CIJA, em inglês), poderoso grupo de lobby sionista estabelecido em 2004, contibui com milhões de dólares ao ativismo de hasbara nas universidades e colégios em todo o país. Sua equipe consiste em cinquenta pessoas, mas seu orçamento abrange US$ 10 milhões destinados a promover “apoio a 25 instituições de ensino em nove províncias”. O CIJA opera intimamente com o Hillel e outros grupos universitários a fim de sanear a reputação de Israel e deslegitimar a campanha de BDS.

Nos últimos anos, a organização B’nai Brith (Filhos da Aliança) e o Centro Simon Wiesenthal do Canadá também concentraram suas atividades em demonizar as campanhas de solidariedade ao povo palestino e difamar o BDS como antissemita. Muito de seu trabalho se concentra em promover a defesa sionista em instituições de ensino.

Nos Estados Unidos, a B’nai Brith criou o chamado “Lawfare Project” – descrito um fundo financeiro de caráter legal pró-israelense –, cujo propósito é intimidar e silenciar as campanhas de solidariedade à Palestina. No Canadá, o recém-criado grupo Canadenses pelo Estado de Direito (CFRL, em inglês) busca imitar o projeto da B’nai Brith; a entidade canadense já realizou, por exemplo, um controverso “fórum educacional” para mobilizar ativistas antipalestinos.

Ativistas canadenses reúnem-se em apoio à Palestina em frente ao Parlamento do Canadá, na capital Ottawa [Tony Webster/Wikimedia]

Todas essas táticas parecem funcionar. Em fevereiro de 2016, os conservadores, na oposição, somente seis meses depois de sua derrota eleitoral, introduziram uma moção na Casa dos Comuns para condenar “quaisquer e todas as tentativas de organizações canadenses, grupos ou indivíduos para promover o movimento de BDS, tanto no país quanto internacionalmente”.

Apesar da maioria liberal no parlamento, a moção anti-BDS dos conservadores foi aprovada com 229 votos a favor e 51 contra. Em um raro momento de bipartidarismo, virtualmente todos os parlamentares liberais e conservadores apoiaram a medida.

Mais de três anos antes do Congresso dos Estados Unidos ganhar suas duas vocais representantes muçulmanas, Rashida Tlaib e Ilhan Omar, a Casa dos Comuns do Canadá recebeu a chegada de um número de parlamentares islâmicos sem precedentes históricos no país: dez do partido liberal e um do partido conservador. Ainda assim, nenhum deles decidiu defender os direitos humanos do povo palestino ao declaradamente votar contra a moção anti-BDS, apesar do fato de três entre quatro muçulmanos canadenses apoiarem tais medidas de sanções internacionais contra Israel, conforme pesquisas.

De fato, uma maioria silenciosa de quase dois terços da população canadense acreditam que seu governo é tendencioso em favor de Israel. Porém, o proeminente parlamentar liberal Anthony Housefather (representante do distrito de Mont-Royal) recentemente destacou com orgulho, em entrevista a um jornal judaico canadense, o fato de o governo liberal é mais pró-Israel em relações internacionais do que qualquer governo anterior de qualquer partido majoritário:

“Nós [liberais] votamos contra 87% das resoluções que exigiam a condenação de Israel na Assembleia Geral contra 61% no governo de Harper [conservador], 19% no governo de Martin [liberal] e Mulroney [conservador] e somente 3% do governo de Chrétien [liberal]. Também apoiamos 0% de tais resoluções, comparados a 23% em Harper, 52% em Mulroney, 71% em Martin e 79% em Chrétien.”

Não há mistério, no entanto, nas razões pelas quais um governo liberal que afirma ostentar uma postura de justiça social é capaz de difamar movimentos legítimos de direitos humanos e ainda se orgulhar disso, a fim de preservar exclusivamente seus ganhos políticos. O Canadá possui um movimento ativo e vibrante de solidariedade ao povo palestino, embora debilitado diante dos recursos abundantes do lobby sionista.

Indivíduos e grupos de esquerda ou de defesa às liberdades civis, incluindo a Associação de Liberdades Civis de Ontário e algumas entidades sindicais, tentaram responder ao cerco das políticas anti-BDS. Tyler Levitan, membro da organização Independent Jewish Voices (Vozes Judaicas Independentes) declarou: “É absurdo que nossos representantes eleitos punam publicamente ativistas de direitos humanos, e falsamente os acusem de ódio e intolerância por defender a solidariedade com as vítimas da opressão e violência perpetrada pelo estado israelense.”

Em janeiro de 2019, Trudeau reiterou sua condenação ao BDS, ao alegar preocupação em relação aos estudantes judeus que “ainda não sentem-se acolhidos e confortáveis em alguns de nossos colégios e nossas universidades devido à intimidação relacionada ao BDS”. Trudeau, portanto, lavou as mãos no que se refere ao número exponencialmente crescente de inocentes palestinos feridos e mortos na fronteira de Gaza após meses de protestos pacíficos.

A Anistia Internacional, o Human Rights Watch (Observatório de Direitos Humanos), a organização não-governamental israelense B’Tselem e o Alto-Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas, além de inúmeras outras entidades, classificam as ações israelenses como desproporcionais, injustificadas e ilegais.

Trudeau decidiu atacar defensores de direitos humanos, à medida que Israel agride violentamente civis palestinos.

Para aqueles que ainda esperam o mínimo de princípios éticos de um primeiro-ministro que busca a reeleição, há pouco espaço para a dúvida sobre como estão posicionadas suas prioridades. Infelizmente para os canadenses, a principal alternativa nas próximas eleições – os populistas conservadores – não poderiam desprezar mais o povo palestino ou seus defensores. A preocupação dos conservadores em relação à liberdade de expressão termina precisamente onde começa o assunto do povo palestino.

Os canadenses deveriam estar preocupados – embora não pareçam – com o declínio da integridade e da reputação internacional de seu país no que concerne à abordagem política ao Oriente Médio e aos direitos humanos internacionais. Embora muitos canadenses sejam capazes de reconhecer o desequilíbrio do país na política internacional, poucos parecem se importar o suficiente para torná-lo uma questão eleitoral. Talvez a aposta de Trudeau na duplicidade tenha sucesso.

 

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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