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Arquivos palestinos: reflexos de uma rica história

Foto da 'Nakba' palestina em 1948

A documentação de eventos palestinos é essencial para enriquecer o arquivo histórico virtual. Este é um processo que ocorre paralelamente à resistência frente a ocupação militar em suas diferentes formas. Esconder e distorcer a narrativa é uma técnica dos colonizadores frequentemente praticada para negar ao povo os meios de transmitir sua própria história.

Antes da criação de Israel na Palestina histórica, em 1948, os palestinos viviam em uma sociedade diversificada, em convivência e harmonia com os seguidores de todas as fés. Comércio e agricultura prosperavam, assim como a vida urbana. Uma vida vibrante prevalecia, onde a simplicidade encontrava a modernidade. A Palestina, assim como outros países do Oriente Médio, passou por diversos eventos históricos, desde o Império Otomano ao domínio britânico, até a atual ocupação militar israelense.

As novas gerações são gratas pela documentação das vidas de seus ancestrais. Para este fim, o “arquivamento online” começou a emergir recentemente na Palestina com um grupo de voluntários que realizam este trabalho, como um hobby que reflete seu amor pela pátria.

Montaser Tarazi, um palestino de trinta anos de idade, residente de Gaza, teve a iniciativa de preservar a história e a herança da Palestina, através da criação de arquivos digitais e da publicação de fotografias antigas, documentos e videoclipes, gratuitamente.

Apesar de estudar contabilidade, a pesquisa sobre a história palestina tomou conta de seu tempo e seu trabalho.

Tarazi, que nasceu em uma família cristã em Gaza, iniciou seu projeto voluntário pessoal em 2013.

Ele conduziu pesquisas sobre a história moderna da Palestina e reuniu registros da vida cotidiana, documentos oficiais, fotografias pessoais e vídeos de indivíduos comuns e instituições.

Ele disse ao TRT World (emissora de TV com base em Istambul) que a ideia começou a surgir após a guerra israelense em Gaza em 2012, quando ele sentiu a necessidade de preservar a narrativa palestina e participar da elaboração da sua história.

“Quando comecei este projeto, criei uma página no Facebook chamada Gaza nos velhos tempos. Como continuei publicando o trabalho de fotógrafos, vídeos e materiais de áudio, o número de seguidores chegou a cerca de 70.000. Mais tarde, criei uma nova página chamada Arquivo de Montaser Tarazi, na qual tenho agora ainda mais seguidores. ”

Aperto de mão icônico entre o líder da OLP, Yasser Arafat, e o presidente israelense, Shimon Peres, durante os acordos de Oslo [Foto de arquivo]

Muitas das fotografias publicadas datam do final do século XIX e início do século XX, mesmo antes da criação de Israel na Palestina histórica em 1948. Muitas estavam escondidas em álbuns de família e foram entregues a Tarazi.

Ao disponibilizar essas fotos ao público, ele espera reviver a memória coletiva dos palestinos. Um esforço que ele acha que os deixará orgulhosos de sua rica herança cultural e os lembrará dos bons e velhos tempos.

“Passei uma quantidade significativa de tempo pesquisando os arquivos de universidades e jornais locais em Gaza, bem como agências de notícias internacionais como a Reuters e a Associated Press”.

Quem vê a rica coleção de fotografias publicadas é levado de volta a outros tempos e pode vivenciar a liberdade absoluta de imaginar a agitação de então. As fotos foram tiradas por moradores e estrangeiros que visitaram a região dos anos 50 a 90. Entre eles estão imagens do falecido líder palestino Yasser Arafat e do líder egípcio Gamal Abdel Nasser com professores na Faixa de Gaza. Outras imagens registram a vida na época.

Os palestinos contam com a internet para obter informações. Fotógrafos admiráveis e clipes vintage raros da luta palestina podem ser uma fonte de orgulho e inspiração para os jovens.

Khalid Safi, especialista em mídias sociais, diz que os materiais publicados são um verdadeiro tesouro que pode ser usado para incentivar os jovens a se ater aos direitos inalienáveis nacionais.

“Estamos testemunhando um crescente interesse das novas gerações em saber mais sobre a vida de seus ancestrais e sobre o que eles viveram. Essas iniciativas são positivas e esperamos que as páginas do Facebook, como a de Montaser, não sejam atacadas e fechadas por Israel, em colaboração com a administração do Facebook. Nos últimos anos, o conteúdo online palestino, como sites, contas pessoais e oficiais, foi encerrado simplesmente por relatar questões palestinas”.

Alguns projetos para criar um arquivo online sobre a história palestina foram iniciados durante os últimos anos na Palestina, no Líbano e em outros lugares. O objetivo era criar um banco de dados multimídia. Os projetos envolveram a coleta de depoimentos orais de história sobre a Nakba, além de documentar fotografias de diferentes eventos e disponibilizá-las ao público para servir a acadêmicos, estudantes, artistas, ativistas e qualquer pessoa interessada na causa palestina.

Muitos registros da história palestina foram, no entanto, saqueados pelo exército israelense e estão agora ocultos nos arquivos israelenses.

Vista do complexo da mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém, em 23 de julho de 2017.
[Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]

De acordo com a historiadora israelense Rona Sela, que passou 20 anos desvendando a história visual palestina, a pilhagem da história e dos arquivos palestinos começou nos anos 1930, de maneira sistemática e organizada nas mãos das milícias sionistas do Haganah. Ela descobriu que os materiais foram posteriormente apropriados e classificados em vários eventos históricos em 1948, 1967, 1982, 1991 e até hoje.

Adnan Abu Amer, chefe do departamento de ciência política e mídia da Universidade Al-Ummah, em Gaza, disse que a maior apreensão de arquivos palestinos ocorreu durante a invasão israelense a Beirute, em 1982.

“A liderança palestina – a saber, a Autoridade Palestina – deve desempenhar um papel maior na preservação do arquivo nacional. As iniciativas dos jovens são apreciadas, mas precisam de endosso e apoio das autoridades. É irônico que grande parte do nosso arquivo esteja enterrado e escondido em instituições, universidades e no Ministério da Defesa israelenses. ”

A exposição virtual online fornece uma plataforma para inúmeros meios de comunicação e titulares de contas pessoais nas mídias sociais compartilharem o que eles chamam de “tesouro”.

O hobby de Montaser não é apenas para mantê-lo ocupado. Ele está documentando o sofrimento e a luta de uma nação sob uma ocupação de décadas e a determinação palestina que mantém o país vivo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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