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“A Jordânia tem o dever de defender Jerusalém e Al-Aqsa”

Publicado em: Ásia e Américas, Entrevistas, Israel, Oriente Médio, Palestina, EUA, Vídeos & Fotojornalismo
Sawsan Al Keilani, diretora de Relações Públicas e Informações do Comitê Real para Assuntos de Jerusalém [Foto de arquivo]

Em entrevista ao MEMO, a diretora de Relações Públicas e Informações do Comitê Real para Assuntos de Jerusalém, Sawsan Al-Keilani, explica a posição da Jordânia sobre os recentes acontecimentos em Jerusalém.

Em julho do ano passado, Israel fechou a Mesquita Al-Aqsa para as orações de sexta-feira pela primeira vez em 17 anos. A medida aumentou as tensões em Jerusalém, depois que dois policiais israelenses e três palestinos foram mortos. Dois dias depois, Israel instalou detectores de metal na entrada do complexo, provocando ondas de repúdio, protestos e acusações. Centenas de palestinos oraram nas ruas da Cidade Velha de Jerusalém. O mundo esperou e assistiu.

Do outro lado do rio Jordão, no homônimo Reino Hashemita da Jordânia, milhares se manifestaram nas ruas de Amã. Segundo Sawsan Al-Keilani, “estes protestos e manifestações foram de grande importância, porque expressaram primeiramente solidariedade com o povo palestino e, segundo, enfatizaram o direito árabe e islâmico a Al-Haram Al-Sharif [o Nobre Santuário de Al-Aqsa]. Ela acrescenta que os protestos lembraram aos espectadores que a Mesquita Al-Aqsa “não é apenas para os palestinos, mas para mais de 1,5 bilhão de muçulmanos” em todo o mundo. A força e a escala dos protestos representaram “um obstáculo às tentativas das autoridades de ocupação israelenses de impor um novo fato consumado ao dividir Al-Haram Al-Sharif”, interrompendo o status quo que prevaleceu sobre o complexo por décadas.

A custódia jordaniana da Mesquita Al-Aqsa, o terceiro local mais sagrado do Islã, está enraizada na história. Em 1924, Sharif Hussein Ibn Ali Al-Hashimi, então rei de Hijaz, recebeu a visita do Grande Mufti de Jerusalém, Hajj Amin Al-Husseini. Ele informou ao Sharif que a mesquita de Al-Aqsa estava sob ameaça e pediu-lhe que ajudasse o povo de Jerusalém naquela situação. O Sharif doou 50.000 liras de ouro para restaurar a Mesquita e outros locais sagrados em toda a cidade de Jerusalém.

Quase um século depois, o descendente de Sharif Hussein, o rei Abdullah II da Jordânia, honra esta longa história de custódia hashemita sobre a mesquita de Al-Aqsa. Al-Keilani explica que a Jordânia tem “o dever de defender Jerusalém com base nessa tutela legal, religiosa e moral”. Esse é um papel que o Reino desempenha por meio do Waqf, doações do tesouro religioso que administram a mesquita. Apesar das extensas mudanças que ocorreram na história recente da Cidade Santa – da invasão à divisão e ocupação – esta custódia jordaniana prevaleceu.

Ultimamente, no entanto, o status quo tem sido desafiado repetidamente. Incursões no complexo do santuário nobre por extremistas israelenses tornaram-se mais frequentes. Em maio, um grupo de colonos radicais invadiu o pátio da mesquita de Al-Aqsa no primeiro dia do Ramadã, sob a proteção das forças de segurança israelenses. Em abril, um tribunal israelense determinou que os judeus que atacavam Al-Aqsa poderiam entoar slogans patrióticos como “Am Yisrael chai” (“O povo de Israel vive”), sob o argumento de que não são considerados orações religiosas. É proibido, sob o acordo do status quo, que os judeus adorem no complexo.

Questionado sobre o que a Jordânia está fazendo para evitar essas incursões e violações, Al-Keilani diz que o governo em Amã advertiu repetidamente sobre as consequências das incursões de extremistas judeus, até porque isso provoca os muçulmanos, agride suas santidades e desencadeia protestos na região. “A Jordânia teme que isso contribua para uma situação de risco na cidade de Jerusalém e além”. Para combater as violações, vários parlamentares, instituições civis e sindicatos jordanianos denunciaram as provocações israelenses. “Alguns até pediram o cancelamento do tratado de paz entre Israel e a Jordânia, o fechamento da embaixada israelense em Amã e o cancelamento do acordo com as autoridades israelenses”.

Permanece em questão se a Jordânia pode tomar medidas legais contra os israelenses que perturbam o status quo ou, de fato, contra o próprio Estado de Israel por seu apoio e proteção a esses indivíduos. No longo prazo, porém, “a Jordânia acredita que acabar com a ocupação e estabelecer um Estado palestino com Jerusalém como capital, de acordo com as resoluções de legitimidade internacional, é a única solução para o problema”.

Mas o que acontece quando esses mecanismos de diplomacia e legitimidade internacional são minados e ignorados repetidamente, não apenas por Israel, mas também por seu principal aliado, os Estados Unidos? O anúncio feito pelo presidente Donald Trump de que os EUA transfeririam sua embaixada para Jerusalém, e seu rápido cumprimento dessa promessa em maio, mudou as regras do jogo de muitas maneiras e abriu o caminho para violações do direito internacional.

“A transferência da Embaixada dos EUA para Jerusalém é inválida porque viola as resoluções de legitimidade internacional, que consideram Jerusalém um território ocupado”, assinala Al-Keilani. “A transferência de embaixadas para Jerusalém não é permitida, porque essa ação legitima a ocupação e dá a Israel o sinal verde para seguir sua política agressiva sem inibições”.

A Jordânia acredita que a embaixada dos EUA não apenas “incitou os sentimentos em Jerusalém, assim como no mundo árabe e islâmico, [mas também que] a adoção de tal decisão […] impedirá o processo de negociações e a possibilidade de alcançar uma solução que satisfaça tanto os partidos israelenses quanto os palestinos”. No entanto, na ausência de negociações e sem nenhum processo de paz em processo de conversações, como a Jordânia vê Al-Aqsa, e Jerusalém mais amplamente, a partir de agora?

Al-Keilani sugere que, à luz das repetidas violações do status quo e do direito internacional, as autoridades de ocupação israelenses “não são dignas” de ter controle sobre Jerusalém. “Manter a atual situação política em Jerusalém não é nada tranquilizador”, acrescenta ela. A intransigência israelense é um enorme obstáculo para qualquer resolução futura.

No 70º aniversário da Nakba – “uma data trágica para todos os povos árabes” – o destino de Jerusalém permanece em dúvida. Observando que “os fortes não permanecem fortes e apoiados para sempre, e os fracos não permanecem fracos para sempre”, o vizinho de Israel pede ao governo que “respeite o papel único que o Reino Hashemita da Jordânia tem em relação sobre os locais sagrados islâmicos em Jerusalém”. “

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