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Netanyahu promete anexar a Cisjordânia após eleições israelenses

Primeiro-Ministro israelense Benjamin Netanyahu [Mehanem Kahana/AFP/Getty Images]

O Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu disse no último sábado (6 de abril) que pretende anexar assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada caso conquiste o cargo por mais um mandato, uma promessa eleitoral de última hora que provavelmente irá indignar os palestinos e o mundo árabe.

Em entrevista ao canal 12 News, emissora israelense, três dias antes das eleições de 9 de abril, Netanyahu foi questionado porque não estendeu a soberania israelense aos amplos assentamentos na Cisjordânia, como feito em Jerusalém Oriental e nas Colinas de Golã, a despeito do repúdio internacional, ambos capturados na chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967.

“Quem disse que não queremos fazê-lo? Estamos no caminho, estamos discutindo o assunto,” respondeu Netanyahu.

“Você me pergunta se estamos avançando para o próximo nível – a resposta é sim, iremos adiante. Eu vou estender a soberania (israelense) e não faço distinção entre os blocos de assentamentos e os assentamentos isolados.”

O veterano líder conservador israelense, que dominou a política de Israel por uma geração inteira, luta pela sua sobrevivência política contra o ex-general de alto escalão Benny Gantz, um novato político em campanha por uma plataforma centrista.

Netanyahu vem descrevendo Gantz como um esquerdista fraco que iria por em perigo a segurança de Israel ao conceder parcelas territoriais aos palestinos.

Porém, Netanyahu, cuja candidatura ocorre sob a sombra de alegações de corrupção, também concorre por votos junto a partidos de extrema-direita que defendem a anexação. Seus comentários provavelmente pretendem apelar para eleitores da linha-dura, opositores ferrenhos da concessão de terras.

Líderes palestinos imediatamente reagiram com indignação.

Saeb Erekat, chefe de negociações palestino e assessor próximo do Presidente palestino Mahmoud Abbas, argumentou: “Israel irá continuar a violar deliberadamente as leis internacionais enquanto a comunidade global continuar a recompensá-lo com impunidade, em particular dado o apoio da gestão de Donald Trump e seu endosso a violações de direitos nacionais e humanos do povo palestino.”

Em Gaza, o oficial Sami Abu Zuhri exigiu que a Autoridade Palestina, sediada na Cisjordânia e comandada por Abbas, interrompa a cooperação de segurança com Israel na Cisjordânia ocupada.

“Os sonhos de Netanyahu de anexar a Cisjordânia jamais serão alcançados. Não iremos permitir que isso aconteça,” ele afirmou.

“É a hora da Autoridade Palestina encerrar seu papel de coordenação de segurança para a ocupação, e unir-se ao povo para enfrentar esses desafios.”

Cisjordânia

Os assentamentos representam uma dos tópicos mais controversos nos esforços para reiniciar as conversas de paz israelo-palestinas, paralisadas desde 2014.

Após décadas de construção de assentamentos, mais de 400.000 israelenses agora vivem na Cisjordânia, de acordo com estatísticas israelenses, ao lado de 2.9 milhões de palestinos, conforme o Escritório de Estatísticas da Palestina.

Outros 212.000 colonos israelenses vivem em Jerusalém Oriental, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários.

Os palestinos e muitos outros países consideram os assentamentos ilegais conforme as convenções de Genebra, que proíbem a colonização de terras capturadas em guerra. Israel contesta essa tese, mencionando necessidades de segurança e conexões bíblicas, históricas e políticas com a terra.

Os palestinos desejam estabelecer seu estado na Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza, todos territórios capturados por Israel em 1967. Israel anexou Jerusalém Oriental e recuou de Gaza. A Cisjordânia permanece sob ocupação militar israelense com autodeterminação limitada de um governo palestino.

As declarações de Netanyahu acompanham uma série de anúncios e mudanças políticas executadas pelo Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, todas vistas como favoráveis a Israel.

Em março, Trump quebrou décadas de consenso internacional ao reconhecer a soberania israelense sobre as Colinas de Golã, território capturado da Síria por Israel.

Esse decreto de Trump sobreveio à decisão de dezembro de 2017 de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e transferir a embaixada americana para lá. Ambos os movimentos agradaram Israel, indignaram palestinos e líderes árabes e foram rechaçados pela maioria dos aliados americanos.

Com as ações de Trump em relação a Jerusalém e Golã, o líder israelense deve se sentir encorajado a defender a anexação.

Oficiais dos Estados Unidos afirmaram que irão revelar os tão esperados planos de paz da gestão de Donald Trump para o Oriente Médio logo após as eleições israelenses, mas os prospectos de reinício das negociações permanecem obscuros.

Os palestinos têm agido por meio de boicote à gestão de Donald Trump no que concerne os movimentos de Jerusalém e outras decisões vistas como enviesadas a favor de Israel.

Campanha eleitoral

O Departamento de Estado dos Estados Unidos recusou-se a comentar as declarações de Netanyahu, vistas pela mídia israelense como uma tentativa de atrair votos de direita, ao contrário de uma mudança imediata nas ações políticas.

Durante a campanha eleitoral, Netanyahu foi continuamente acusado de atos de corrupção, após o procurador-geral de Israel anunciar publicamente em fevereiro sua intenção de indiciar Netanyahu.

Netanyahu negou todas as acusações nos três casos de suposto suborno e fraude, mas as alegações podem ofuscar seu futuro político e de qualquer governo liderado por ele, possivelmente levando a uma nova eleição.

Seu principal rival eleitoral, Gantz, prometeu buscar a paz com os palestinos, mas também não foi adiante ao ser questionado sobre os planos de soberania de um estado palestino.

Um porta-voz de Gantz recusou-se comentar as declarações de Netanyahu.

Na sexta-feira (5), último dia permitido às pesquisas eleitorais, estimava-se que o partido centrista Azul e Branco, de Gantz, conquistaria 30 assentos no Knesset, mais do que os 26 assentos previstos para o Likud de Netanyahu, de acordo com sondagens do jornal Yedioth Ahronoth.

Contudo, esta e outras pesquisas também projetam que a maioria dos 120 assentos de Knesset irá aos partidos da coalizão de direita de Netanyahu, concedendo ao primeiro-ministro uma maioria magra, porém operativa.

Poucos dias antes das eleições anteriores, em 2015, Netanyahu prometeu que jamais haveria um estado palestino sob sua vigilância, mas depois recuou nesta declaração após reprimenda do predecessor de Trump, Barack Obama.

Ano passado, no entanto, Netanyahu declarou a membro de seu partido, o Likud, que Israel e os Estados Unidos estão discutindo a possibilidade de Israel anexar assentamentos. A Casa Branca rapidamente negou as alegações.

Concomitantemente à sua promessa de não evacuar colonos de seus assentamentos, Netanyahu também afirmava no passado que o futuro dos assentamentos deveria ser determinado nas conversas de paz com os palestinos.

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