clear

Criando novas perspectivas desde 2019

Uma história das invasões de Israel ao Líbano

Israel invadiu o Líbano diversas vezes desde 1948; mais recentemente, declarou planos para reocupar grandes áreas no sul do país

27 de abril de 2026, às 11h01

Bombardeios israelenses a Al-Khiyam, no sul do Líbano, em 23 de abril de 2026 [Stringer/Agência Anadolu]

Na semana passada, o presidente libanês, Joseph Aoun, disse em um discurso que estava preparado para ir “onde fosse necessário” para acabar com a ocupação israelense no sul do Líbano. O governo “recuperou o Líbano e seu poder de decisão pela primeira vez em quase meio século”, acrescentou.

Um dia antes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu que poderia convidar Aoun e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para a Casa Branca para consolidar um cessar-fogo de dez dias mediado por Washington entre os países.

O cessar-fogo, que interrompeu seis semanas de combates entre Israel e Hezbollah, ocorreu quando os embaixadores israelense e libanês nos Estados Unidos iniciaram negociações diretas em Washington, o primeiro encontro desse tipo desde 1993.

Desde 2 de março, Israel manteve uma campanha aérea em larga escala no Líbano, matando mais de 2.290 pessoas, ferindo mais de 7.500 e deslocando 1,2 milhão, ou cerca de 20% da população.

Ao mesmo tempo, as forças israelenses lançaram uma invasão por terra, anunciando planos de ocupar grandes extensões do sul do Líbano e declarando que os residentes deslocados não poderiam retornar às suas casas. As forças ocupantes passaram semanas demolindo vilarejos inteiros, usando escavadeiras e armando casas com explosivos antes de destrui-las em detonações remotas.

Horas após o cessar-fogo entrar em vigor, tropas israelenses realizaram demolições, bombardeios de artilharia e operações de desmatamento em diversas áreas de fronteira, em flagrante violação da trégua.

No sábado (18), o exército israelense afirmou ter estabelecido uma “Linha Amarela” a aproximadamente 10 km dentro do sul do Líbano, semelhante à linha em Gaza que separa as áreas controladas pela ocupação daquelas controladas pelo Hamas.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu insistiu que suas forças “permanecem no Líbano em uma zona de segurança reforçada”. Segundo o premiê: “Esta é uma faixa de segurança com 10 km de profundidade, muito mais forte, mais intensa, mais contínua e mais sólida do que a que tínhamos anteriormente. É aí que estamos e daí não vamos sair”.

Com a manutenção da presença israelense dentro do Líbano, bem como suas operações militares, examinamos aqui o histórico de invasões de Israel desde sua fundação, juntamente com as tentativas de Beirute de resolver o conflito por meio de negociações.

Outubro de 1948 – março de 1949: Ocupação pouco conhecida

Em 15 de maio de 1948, o Líbano juntou-se a Síria, Egito, Jordânia e Iraque na guerra contra Israel, um dia após a declaração de formação do novo Estado nos territórios expropriados da Palestina histórica. A ofensiva panárabe foi uma resposta ao despovoamento de cidades e vilarejos palestinos por grupos paramilitares sionistas nos meses anteriores.

Durante esse período, cerca de 750 mil palestinos foram deslocados, com aproximadamente cem mil buscando refúgio no Líbano.

As forças libanesas tiveram um papel limitado nos combates. Por volta da meia-noite de 30 para 31 de outubro, tropas israelenses cruzaram para o Líbano e ocuparam 15 vilarejos. No vilarejo de Hula, um dos ocupados, as forças israelenses realizaram um massacre. Entre 34 e 58 civis foram mortos após serem reunidos em um edifício então explodido.

Israel posteriormente se retirou dos vilarejos ocupados sob um acordo de armistício mediado pela Organização das Nações Unidas (ONU), assinado com o Líbano em 23 de março de 1949.

Acordos semelhantes foram concluídos com Jordânia, Síria e Egito, marcando o fim da primeira guerra árabe-israelense e a derrota dos exércitos árabes. O Iraque, no entanto, não assinou um acordo de armistício.

As Fazendas de Chebaa

Diferentemente de 1948, o Líbano não participou da guerra árabe-israelense de junho de 1967, durante a qual Israel lutou contra uma coalizão de países árabes e passou a ocupar Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, bem como a Península do Sinai, do Egito, e as Colinas de Golã, da Síria.

Na esteira da guerra, Israel retirou-se dos acordos de armistício de 1949 que havia assinado com o Líbano e outros estados árabes e, mais tarde, passou a ocupar a área das Fazendas de Chebaa, no sul do país.

A invasão de 1978

A derrota dos estados árabes por Israel na guerra de 1967 contribuiu para a ascensão da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), um guarda-chuva de facções palestinas comprometidas com a luta armada para recuperar sua terra ancestral.

Em 1971, o Líbano havia se tornado a principal base de operações da OLP, com combatentes palestinos lançando ataques intermitentes contra Israel a partir do sul do território. A OLP também forjou alianças com partidos políticos libaneses e ascendeu a um dos principais agentes da guerra civil libanesa, que eclodiu em abril de 1975.

Em 14 de março de 1978, Israel invadiu o sul do Líbano no intuito de empurrar os combatentes da OLP ao norte do Rio Litani. Combates mataram cerca de mil libaneses e palestinos, a maioria civis, além de 18 dentre os soldados invasores.

Israel retirou suas tropas da maior parte do sul em junho, sob a Resolução 425 do Conselho de Segurança da ONU. Adotada em março, esta instituiu então a chamada Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil), encarregada de confirmar a retirada de Israel e ajudar o governo libanês a restaurar sua autoridade na área.

Israel, no entanto, transferiu o controle de alguns dos territórios ocupados a uma milícia aliada, em vez de devolvê-los ao exército regular libanês.

A OLP, de sua parte, manteve posições ao sul do Rio Litani.

A invasão de 1982

Em junho de 1982, Israel invadiu o Líbano novamente, desta vez avançando mais para dentro do país e ocupando Beirute em setembro. Cerca de 19 mil libaneses e palestinos, a maioria civis, foram mortos durante a “Operação Paz para a Galileia”.

A ofensiva acabou forçando a liderança da OLP, juntamente com milhares de combatentes, a deixar o Líbano. O rápido avanço militar de Israel alterou radicalmente o equilíbrio de poder entre as facções beligerantes libanesas e ajudou a garantir a eleição de seu aliado, Bachir Gemayel, como presidente.

Eleito em agosto, Gemayel foi assassinado no mês seguinte, e seu irmão Amin foi eleito como seu sucessor em setembro.

Em dezembro, o governo de Amin Gemayel iniciou negociações mediadas pelos Estados Unidos com Israel. Após 37 rodadas de negociações, os dois lados assinaram um acordo em 17 de maio de 1983, aprovado pelo parlamento e pelo governo libaneses.

Embora o acordo pedisse o fim do estado de beligerância entre os dois países, o Líbano evitou descrevê-lo como um tratado de paz, ao enfatizar, em vez disso, que seu objetivo era garantir a retirada de Israel.

O acordo de 17 de maio enfrentou forte oposição de diversas facções libanesas, incluindo o Movimento Amal, xiita, e o Partido Socialista Progressista (PSP), ambos alinhados com a Síria, que tinha tropas estacionadas no Líbano desde 1976 e estava envolvida em uma disputa regional de poder contra Israel. Detratores alertaram que o acordo minava a soberania libanesa, sobretudo ao incluir acordos de segurança com Israel no sul do país.

Apoiados por Damasco, o Amal e o PSP lançaram uma rebelião armada contra o governo de Amin Gemayel, culminando em 6 de fevereiro de 1984 com a tomada do Beirute Ocidental, predominantemente islâmico.

Cedendo à pressão militar, Gemayel anulou o acordo em março e aproximou-se da Síria, formando um novo governo que incluía o líder do Amal, Nabih Berri, e o líder do PSP, Walid Jumblatt, entre seus ministros.

Negociações fracassadas em Naqoura, em 1984

Embora Israel tenha se retirado de Beirute e das Montanhas Chouf, manteve sua ocupação em todo o sul do Líbano. Mais uma vez, Líbano e Israel iniciaram negociações em novembro de 1984 com objetivo de chegar a um acordo para a retirada israelense do território ocupado.

Delegações militares libanesas e israelenses realizaram sucessivas rodadas de negociações entre 8 de novembro de 1984 e 24 de janeiro de 1985 na vila fronteiriça de Naqoura, mas não conseguiram chegar a um acordo.

Em meio a negociações estagnadas e ao aumento de baixas causadas por ataques de facções libanesas no sul, o governo israelense aprovou um plano em janeiro de 1985 para uma retirada unilateral e parcial.

No final de abril, as forças israelenses haviam se retirado de Saida, Nabatieh, Sour e áreas circundantes, mas continuaram a ocupar uma faixa de território mais próxima da fronteira, que denominaram “zona de segurança”.

Negociações de Madrid

Após o fim da guerra civil libanesa em 1990, a Síria emergiu como uma potência dominante no país, e Beirute começou a coordenar estreitamente sua posição sobre a ocupação israelense com Damasco.

Autoridades libanesas adotaram a chamada abordagem de “unidade de trilhas”, junto à Síria. Sob essa estrutura, o Líbano pedia um acordo abrangente que incluísse uma retirada simultânea de Israel do sul do Líbano e das Colinas de Golã sírias, que o regime colonial sionista ocupava desde 1967.

Com base nisso, Líbano e Síria participaram da Conferência de Paz de Madrid em outubro de 1991, promovida por Estados Unidos e União Soviética, a fim de abordar o conflito árabe-israelense. Negociações bilaterais entre Líbano e Israel ocorreram em Washington em 1993, mas não produziram resultados tangíveis.

No sul do Líbano, o Hezbollah — formado em 1982 em resposta à invasão israelense — intensificou sua campanha de guerrilha durante a década de 1990, visando posições israelenses e de sua milícia aliada, o chamado Exército do Sul do Líbano (SLA). Em junho de 1999, este enfim se retirou de 36 vilarejos montanhosos na região de Jezzine.

Retirada do sul do Líbano

O exército israelense deixou o sul do Líbano em maio de 2000, encerrando mais de dezoito anos de ocupação. Sob os auspícios da ONU, Líbano e Israel demarcaram os limites da retirada, conhecida como Linha Azul, muito embora sua fronteira internacional jamais tenha sido formalmente demarcada.

Israel continuou a ocupar as Fazendas de Chebaa e as Colinas de Kfar Shouba, enquanto o Hezbollah realizava ataques periódicos contra posições do exército ocupante em ambas as áreas.

A retirada efetivamente quebrou a “unidade” com a Síria, com o seguimento da ocupação israelense nas Colinas de Golã.

Isso se seguiu a uma reunião malsucedida em Genebra, em março, entre o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e o presidente sírio, Hafez al-Assad, com o objetivo de alcançar um acordo de paz junto a Israel.

A guerra do verão de 2006

Em julho de 2006, Israel lançou uma guerra de 33 dias contra o Líbano após o Hezbollah capturar dois soldados israelenses em um ataque transfronteiriço, visando trocá-los pelo prisioneiro libanês de longa data Samir al-Qontar. A guerra, que incluiu uma invasão terrestre israelense, matou cerca de 1.200 libaneses, principalmente civis, e 160 israelenses, a maioria soldados.

Os objetivos declarados de Israel eram a libertação dos dois soldados e o desmantelamento do Hezbollah, nenhum dos quais foi alcançado. A guerra terminou sob a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, que estabeleceu a cessação das hostilidades, expandiu o tamanho da Unifil para monitorar a trégua e pediu o desarmamento de todos os grupos armados não estatais no Líbano.

Israel subsequentemente se retirou da maior parte do território que ocupara durante a guerra, com exceção de parte do vilarejo de Ghajar, e manteve suas posições nas Fazendas de Chebaa e nas Colinas de Kfar Chouba. O Hezbollah manteve suas armas, mas seguiu na clandestinidade.

Em julho de 2008, Israel libertou Qontar em troca dos corpos dos dois soldados.

A invasão terrestre de 2024

Em outubro de 2024, Israel lançou uma invasão terrestre do Líbano e uma campanha aérea em larga escala com o objetivo de minar o poderio do Hezbollah.

A escalada ocorreu após quase um ano de trocas transfronteiriças com o influente movimento libanês, que abriu fogo contra Israel em 8 de outubro de 2023 em apoio aos palestinos de Gaza, diante do início do genocídio ainda em curso no enclave sitiado.

Em 27 de novembro, Israel e Hezbollah consentiram com um cessar-fogo sob acordo mediado por França e Estados Unidos. Esperava-se que Israel se retirasse do território que ocupara dentro de dois meses; no entanto, manteve o controle de cinco posições dentro do Líbano e continuou a atacar civis e membros do Hezbollah em todo o país.

Enquanto isso, o governo libanês alegou desmantelar a infraestrutura do Hezbollah ao sul do Litani, a primeira fase da implementação do acordo de cessar-fogo. O conflito, contudo, persevera, em meio a uma nova escalada na região.

Publicado originalmente em inglês pela rede Middle East Eye, em 22 de abril de 2026

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.