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E se Jeremy Bowen estivesse em Gaza?

23 de fevereiro de 2026, às 18h13

Jeremy Bowen, editor internacional da BBC em Jenin, em 6 de julho de 2023 [Yusuf Shomali/BowenBBC/X]

Jeremy Bowen, o veterano editor da BBC para o Oriente Médio, certa vez ofereceu uma fórmula enganosamente simples para sobreviver aos desafios morais da cobertura de conflitos. Um jornalista, disse ele, pode ser neutro e sincero ao mesmo tempo. Em uma região onde a verdade muitas vezes é mantida como refém por governos, milícias e exércitos de jornalistas cidadãos, a fórmula de Bowen soa menos como um conselho profissional e mais como um código de honra.

Bowen não é um mero correspondente. O público em todo o mundo árabe o viu cobrir as guerras libanesas, a invasão israelense de Beirute, o conflito no Golfo, a guerra na Bósnia e o conflito em Gaza. Ele foi banido por Israel e teve sua entrada negada no Irã — um endosso involuntário à sua insistência em ver as coisas com os próprios olhos. Quando afirma que neutralidade e franqueza não são luxos, mas compromissos custosos, ele fala com base em décadas de experiência.

Em uma entrevista ao Financial Times, Bowen refletiu sobre as restrições que enfrentou na antiga Iugoslávia. Comparadas com Gaza, disse ele, essas restrições “pareciam um paraíso”. Então veio a frase que resume toda a sua carreira: “Se você não está tentando dizer a verdade, qual é o sentido?”

Em grande parte do mundo árabe, a ideia de neutralidade é um mito, não um padrão profissional. A mídia estatal prioriza a lealdade em detrimento da precisão. A mídia partidária exige alinhamento em vez de fatos. A mídia privada exige silêncio acima de tudo. Um jornalista que navega por esse terreno não é recompensado pela neutralidade ou pela franqueza; ele é punido por ambas. A rendição da BBC ao lobby pró-Israel: uma história de censura e parcialidade

Nesse contexto, a equação de Bowen torna-se um luxo ético, até mesmo um ato de risco pessoal. No entanto, ela permanece valiosa justamente porque lembra aos jornalistas árabes que a verdade não pertence a governos, partidos políticos ou financiadores. A franqueza não é uma traição à neutralidade; é a neutralidade em um mundo afogado em propaganda.

A tragédia mais profunda é que muitas redações árabes não pedem que seus jornalistas sejam neutros; pedem que sejam obedientes. Não querem testemunhas; querem pessoas que atuem como promotores. A verdade se torna o que a autoridade do momento declara que seja. Portanto, a crise não é a ausência de neutralidade, mas a criminalização da franqueza.

O jornalismo árabe não fracassou por ser fraco. Fracassou porque abandonou seu propósito original de responsabilizar o poder. Uma imprensa que não questiona torna-se um apêndice administrativo. Um jornalista que não consegue dizer a verdade torna-se cúmplice do engano.

A fórmula de Bowen expõe a fragilidade moral do panorama midiático da região. Ela levanta uma questão assustadoramente simples: é possível dizer a verdade sem tremer? E é possível manter a neutralidade sem trair a própria consciência? Muitas máscaras caem nesse limiar.

No início da guerra em Gaza, diplomatas de alto escalão disseram a Bowen que permitir a entrada dele — ou de Christiane Amanpour — na Faixa poderia amenizar a crise diplomática. A implicação é arrepiante: a presença de dois jornalistas intransigentes poderia alterar os resultados políticos. No mundo árabe, porém, a presença de um jornalista desse tipo geralmente altera apenas uma coisa: sua trajetória profissional, e não para melhor.

Bowen costuma dizer que o verdadeiro perigo não reside no risco físico, mas em “aquilo que eles não querem que você veja”. Isso poderia servir como subtítulo para toda a história da mídia árabe.

Em última análise, esta não é uma comparação entre um correspondente britânico e seus colegas árabes. É, antes, um lembrete de que, em sua essência, o jornalismo não é uma profissão, mas uma consciência. A consciência não opera com base em orçamentos governamentais ou contratos de doadores. Ela não negocia. Sem franqueza, a imprensa se torna um boletim partidário. Sem neutralidade, a imprensa se torna um panfleto de propaganda. A estreita faixa entre os dois é onde Bowen se encontra — onde o jornalismo ainda se assemelha ao que deveria ser.

Bowen não é nenhum santo, e a BBC não é nenhum templo de pureza. A emissora há muito tempo é criticada por sua proximidade com o poder político, do Iraque a Gaza. Mas Bowen continua sendo um exemplo útil em uma era carente deles.

A verdade se torna o que a autoridade do momento declara que seja. Portanto, a crise não é a ausência de neutralidade, mas a criminalização da franqueza.

Hoje, jornalistas árabes enfrentam três paredes: o Estado, o partido e o financiador. Mas a barreira mais sufocante é interna: o medo. Temem perder o emprego, irritar ministros, desagradar financiadores e serem arrastados por campanhas difamatórias orquestradas. Esse medo faz com que a fórmula de Bowen pareça impossível. No entanto, seu valor reside em lembrar aos jornalistas que a rendição não é o destino e que a verdade só morre quando eles param de tentar contá-la.

Neutralidade e franqueza não são escolhas opostas. São duas faces da mesma moeda — a moeda do jornalismo que ainda não foi falsificada. Em uma região onde a verdade foi pisoteada por aqueles no poder, o jornalista que insiste em se manifestar realiza um ato de resistência. Essa é uma forma de resistência que não exige armas, apenas uma consciência que se recusa a ser comprada.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.