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Em Jerusalém, Flávio Bolsonaro ataca Lula e reforça laços com Netanyahu

29 de janeiro de 2026, às 04h10

Senador Flávio Bolsonaro durante ato em Brasília pela soltura de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 5 de agosto de 2025 [Senado Federal/Divulgação/Wikimedia] Entre as medidas está a proposta de se votar a anistia “ampla, geral e irrestrita”, o pedido de impeachment de Moraes e o fim do foro privilegiado de parlamentares, entre outros. Os parlamentares também anunciaram que irão obstruir as pautas de votação tanto na Câmara dos Deputados como no Senado. Em destaque, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fala à imprensa. Participam: deputada Bia Kicis (PL-DF); líder da oposição no Senado Federal, senador Rogerio Marinho (PL-RN); líder do PL na Câmara dos Deputados, deputado Sóstenes Cavalcanti (PL-RJ); deputado Nikolas Ferreira (PL-MG); líder da oposição na Câmara dos Deputados, deputado Luciano Zucco (PL-RS); deputado Allan Garcês (PP-MA); deputada Caroline de Toni (PL-SC); deputado Marcos Feliciano (PL-SP); deputado Domingos Sávio (PL-MG); senador Wilder Morais (PL-GO); deputado Marcel van Hattem (Novo-RS); deputado Zé Trovao (PL-SC). Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, manteve sua turnê pelo território designado Israel, como parte de sua pré-campanha às eleições brasileiras em novembro.

Em passagem por Jerusalém ocupada, Flávio se reuniu com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — foragido em mais de cem países sob mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, por crimes de guerra e lesa-humanidade.

Flávio e Netanyahu se encontraram em jantar de gala, durante um evento da 2ª edição da chamada Conferência Internacional para o Combate ao Antissemitismo, organizada pela chancelaria israelense, a fim de promover sua narrativa entre lobistas e políticos globais, sobretudo de extrema-direita.

Na solenidade, o premiê citou Flávio e seu irmão Eduardo, também presente: “Nós temos aqui membros do parlamento, incluindo dois irmãos, Eduardo e Flávio Bolsonaro. É muito bom ver vocês do Brasil … Quero dar as boas-vindas a todos vocês”.

Eduardo, porém, perdeu seu mandato em dezembro, ao se ausentar da Câmara por nove meses, após fugir do Brasil aos Estados Unidos sob inquérito judicial. Na Flórida, Eduardo agiu como lobista por tarifas do presidente americano Donald Trump, no intuito de coagir o Supremo Tribunal Federal (STF) a libertar seu pai, condenado em setembro.

Ambos os irmãos conduzem uma turnê pelos territórios ocupados desde 19 de dezembro, com uma série de compromissos com políticos e ativistas coloniais.

Eduardo discursou no primeiro dia da conferência, na segunda-feira (26), ao defender os ataques indiscriminados de Israel a Gaza e criminalizar a resistência palestina — legítima sob a lei internacional — como “antissemitismo genocida”.

Em sua passagem, defenderam a difamação de “antissemitismo” contra críticos de Israel, ao rechaçarem o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, por declinar a definição da pauta da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), contestada mesmo por especialistas judeus e usada para perseguir manifestantes pró-Palestina.

Flávio, como pré-candidato, prometeu “varrer o antissemitismo” do Brasil e restabelecer, integralmente, relações comerciais com o Estado israelense. O senador também afirmou, em entrevista, que o grupo libanês Hezbollah, o qual classificou como “terrorista”, estaria infiltrado na Tríplice Fronteira — contudo, sem provas.

Ao discursar, Flávio acusou Celso Amorim, assessor especial da presidência para política externa, de prefaciar um livro “pró-Hamas”. A obra em questão, cujo título não foi citado, parece ser A construção da política externa do Hamas, de Daud Abdullah, traduzida ao português pela editora MEMO.

Em sua agenda, Flávio voltou a se batizar no Rio Jordão e foi gravado orando no Muro das Lamentações. “Já somos batizados, mas mesmo com a água congelante não poderíamos perder a oportunidade de renovar a aliança com Deus, descendo às águas do Rio Jordão, em Israel [sic], no mesmo local onde Jesus foi batizado”, escreveu no Instagram.

“Mais uma vez sigo os passos do meu pai. Para salvar o Brasil [sic], não há caminho longe de Deus. Que Deus abençoe todos aqueles que estão caminhando com enorme sacrifício pela libertação do nosso Brasil”, acrescentou, em aparente alusão à marcha pró-golpe do deputado extremista Nikolas Ferreira (PL-MG).

A caminhada, pela soltura do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão, partiu de Paracatu, em Minas Gerais, rumo a Brasília, em meio a denúncias de descaso na organização, disseminação de notícias falsas e ataques às instituições.

Na chegada, na Praça do Cruzeiro, Distrito Federal, os militantes se viram sob forte chuva, incluindo um raio que feriu cerca de 30 pessoas.

Israel é o terceiro país visitado por Flávio após Estados Unidos e El Salvador, na tentativa de robustecer sua candidatura, escolhida pelo pai, inelegível. O nome carece, entretanto, de unanimidade na direita, que especula figuras como os governadores Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Júnior (PA), Eduardo Leite (RS) e Tarcísio de Freitas (SP).

Em Washington, Flávio tentou se reunir com o secretário de Estado, Marco Rubio; todavia, sem sucesso. Em novembro, outro encontro fracassou, desta vez com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

Neste entremeio, pesquisas sugerem a reeleição de Lula em todos os cenários, incluindo possibilidade de vitória ainda no primeiro turno, em 4 de outubro. O segundo turno, caso necessário, está previsto para o dia 25 do mesmo mês.

Em Gaza, Israel mantém ataques apesar do anúncio da segunda fase do suposto cessar-fogo, firmado junto ao grupo palestino Hamas há quatro meses. Somam-se 71 mil mortos e 171 mil feridos no enclave palestino, em dois anos de campanha, indiciada como crime de genocídio no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), também em Haia.

Lula seguiu crítico às ações de Israel, embora sem ações incisivas à véspera do pleito, no qual sua oposição busca reforçar laços com o neopentecostalismo brasileiro, associado ao lobby sionista.

Convidado ao chamado Conselho de Paz presidido por Trump, lançado em Davos, Suíça, na última quinzena, Lula condicionou a adesão a dois termos: que se limite a Gaza e que possua um assento ao Estado palestino. As condições foram postas em telefonema nesta segunda-feira, que durou 50 minutos.

Trump, a princípio, assentiu ao lobby de Eduardo Bolsonaro, mas recuou de tarifas desde então, ao se aproximar de Lula. Ambos os presidentes exaltaram a melhora nas relações durante a conversa e combinaram uma visita do mandatário brasileiro a Washington, com data a ser marcada no próximo mês.

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