Guerras não se vencem apenas por bravura. Demandam dinheiro. Exclua a retórica, as bandeiras, o heroísmo televisionado e todo conflito prolongado se resume a três elementos básicos: soldados que lutam, armas que matam e dinheiro que mantém a roda girando. Quando secam os bolsos, vem a derrota — às vezes discreta, às vezes catastrófica.
“No caso da Ucrânia, o mantra que circula no Pentágono é que a América dá armas que não tem e a Europa dá dinheiro que não tem, a soldados ucranianos que sequer existem’”, comentou o coronel Lawrence Wilkerson, ex-chefe do Estado-maior do ex-secretário de Estado americano Colin Powell.
A Ucrânia, agora, está no fio da navalha.
Por quase três anos, Kiev sobreviveu não porque sua economia é capaz de sustentar uma guerra industrial moderna, mas porque as capitais ocidentais inundaram seus cofres com bilhões e bilhões de dólares, para mantê-los flutuantes. Sem essa corda de salvação, o exército ucraniano e o país como um todo implodiriam em meses. A guerra, portanto, jamais foi passível de vencer apenas pelo tesouro nacional; então, foi passada no crédito.
Desde fevereiro de 2022, governos ocidentais se comprometeram com cerca de US$ 350 bilhões em recursos financeiros, militares e assistenciais combinados à Ucrânia. Os Estados Unidos, de sua parte, são responsáveis por aproximadamente US$ 175 bilhões, com US$ 106 bilhões emitidos diretamente a Kiev. A Europa, seja por seus governos nacionais ou via União Europeia, investiu mais de €170 bilhões, boa parte dos quais a armas, refugiados e apoio orçamentário.
Esses números não são triviais. Refletem uma das maiores transações em recursos públicos em tempos de guerra, ao menos desde a Segunda Guerra Mundial, em um contexto, entretanto, em que tanto as economias da Europa e dos Estados Unidos se mostram em frangalhos. Como se não bastasse, escondem uma verdade ainda mais profunda: tamanho gasto jamais foi politicamente sustentável e a torneira deve, em breve, se secar, senão subitamente.
Líderes ocidentais adentraram no conflito convencidos de que a Rússia logo vacilaria e que suas sanções bastariam para dissuadir Moscou; ou ainda, que a resistência na Ucrânia forçaria um acordo negociado, em questão de poucos meses. As economias europeias capitularam a essa percepção. Os Estados Unidos jamais negaram que sua ajuda seria finita, muito embora administrável e decisiva estrategicamente. Nenhum dos casos, contudo, se manteve verossímil.
Todas as previsões e cálculos estavam errados. A guerra não durou seis meses, mas entrou em metástase, a um conflito de atrito que consome cada vez mais munição, infraestrutura e dinheiro em escala industrial. Quanto mais se arrasta, mais se torna claro o desequilíbrio fiscal. A Ucrânia queima dinheiro. A Rússia continua a imprimi-lo. Além disso, Moscou resguardou alianças de bolsos generosos — certamente, a China e, por vezes, a Índia.
A tirania da geografia: a aposta fatal da Ucrânia
Em Washington, a fadiga endureceu a política. Cresceu a resistência no Congresso. Um novo governo federal, herdando uma guerra que não começou e tampouco crê poder vencer, logo ajustou a rota. A assistência militar se desacelerou e seus pacotes foram, pouco a pouco, represados. A mensagem igualmente mudou: se Kiev deseja armas americanas de última geração, é a Europa quem deve pagar. Não se trata de um apoio em nova roupagem; é meramente aritmética.
A Europa, neste entremeio, redescobriu limites morais, confrontada pela realidade nua e crua das planilhas. A inflação, a falta de crescimento e a erosão social acabou com a paciência. Governos que certa vez se vestiram nas cores da Ucrânia deparam-se com eleitores que questionam por que bilhões vão ao leste, enquanto os salários seguem estagnados e os serviços públicos minguam. Em todo o continente, parece surgir um grito popular: Basta!
Nenhum dos três principais líderes europeus — Emmanuel Macron, na França, Keir Starmer, no Reino Unido, e Friedrich Merz, na Alemanha — possui apoio da maioria de seu próprio eleitorado.
A contradição é gritante. Somente no ano de 2024, a União Europeia gastou mais na importação de petróleo e gás natural russos — em torno de € 22 bilhões — do que, de fato, investiu diretamente na Ucrânia. A Europa dá com uma mão a Kiev e com a outra a Moscou; sustenta os dois lados de uma guerra que alega se opor — o sonho molhado de qualquer empreiteiro militar, sendo o maior deles a Lockheed Martin, dos Estados Unidos, cujo pico nas ações em 2025 não deixa dúvidas.
A Rússia, em contraste, estruturou sua economia de guerra para perdurar. Apesar de sanções, continua a lucrar centenas de bilhões de dólares anualmente na venda de bens energéticos. A China substituiu a Europa como maior compradora, ao absorver petróleo e gás e garantir a Moscou um fluxo constante de capital. Em 2024, a China contabilizou quase um terço dos recursos de exportação energética russos — rede financeira de que a União Soviética jamais pode usufruir.
Tamanha distinção importa. Quando Moscou invadiu o Afeganistão, em 1979, sofreu com uma guerra de atrito projetada desde Washington sem nenhuma sustentação econômica. Os recursos de petróleo eram então insuficientes. Pequim era, na época, hostil e não estava disposto a alienar o Ocidente. Washington explorou a fraqueza. Quando as tropas soviéticas enfim se retiraram, o próprio Estado já colapsava. Doze anos depois, deixou de existir.
A Rússia não repete seus erros. Tem soldados, armas e — sobretudo — dinheiro. A Ucrânia, não. Sua economia está em ruínas; sua base tributária foi esvaziada e uma nova forma de corrupção come o Estado de dentro. Seu esforço de guerra sobrevive via transferências estrangeiras cada vez mais duvidosas, senão atrasadas ou mesmo condicionais. Não se trata de um juízo moral, mas prático, estrutural. Guerras assim favorecem o lado que pode pagar pelo tempo perdido — seja em tempo ou capital. Tempo é caro e pode se esvair pelos dedos, dando a Moscou a vitória.
O que os líderes ocidentais se negam a admitir em público já se nota no orçamento. Esta guerra entrou em uma fase na qual financiá-la indefinidamente é impossível no âmbito político e, quem sabe, mesmo suicida; ainda assim, abandonar o barco traz consequências morais e estratégicas. A Ucrânia, pouco a pouco, se vê encurralada pela matemática, não pela ideologia.
“É a falsa escolha que enfrenta o Ocidente. Recue em seus gastos e veja se evaporar a capacidade ucraniana de manter a Guerra; mantenha-os e veja programas sociais na Europa desaparecerem e governos caírem um a um”, ressaltou Mark Kimmitt, ex-secretário de Estado assistente americano para Assuntos Político-Militares.
Dinheiro não é vitória garantida; sua falta, no entanto, assevera derrota. A tragédia que se desenrola na Ucrânia não é apenas de invasão e resistência, é a tragédia de uma guerra fundada sobre pressupostos que desabaram sob o peso da realidade. O velho front silencioso — financeiro — agora grita qual será o resultado.
Guerras não terminam quando acaba a coragem, mas sim quando a conta zera.
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