Uma ex-integrante da unidade de porta-vozes do Exército israelense afirmou na segunda-feira que os militares manipularam a verdade sobre suas operações em Gaza e na Cisjordânia ocupada. Ela descreveu seu próprio papel na elaboração das informações divulgadas à imprensa, informa a Agência Anadolu.
Ayelet Kroizer disse que palestinos inocentes eram rotulados como “terroristas” e que as declarações militares eram adaptadas para fortalecer o apoio público e garantir legitimidade internacional às operações do Exército.
Ela fez as declarações em uma publicação na rede social americana X, na qual anunciou sua nomeação como porta-voz do Breaking the Silence, uma organização israelense que divulga depoimentos de ex-soldados sobre abusos militares nos territórios palestinos ocupados.
“Durante meu serviço, manipulei os detalhes divulgados à imprensa. Vi como a palavra ‘terrorista’ era atribuída até mesmo a palestinos inocentes e como as declarações eram adaptadas ao público-alvo e ao objetivo estabelecido”, escreveu.
Kroizer afirmou que seu trabalho a expôs não apenas às condições na Cisjordânia e em Gaza, mas também à maneira como o Exército escolhia apresentá-las ao público.
Ela descreveu o amplo controle da assessoria de imprensa militar sobre a compreensão dos acontecimentos pela população, afirmando que a unidade tratava a verdade como uma agência de relações públicas, e não como uma instituição responsável perante o público.
Segundo ela, o objetivo declarado da unidade ao se dirigir aos israelenses era fortalecer a confiança da população no Exército. Ela acrescentou que “o direito do público de saber ficava, na melhor das hipóteses, em segundo plano”.
Para o público internacional, o objetivo era fortalecer e ampliar a legitimidade das operações militares.
“Também aqui, o preço foi a verdade”, escreveu.
Kroizer também descreveu como declarações que relatavam um grande número de vítimas eram seguidas por manifestações rotineiras de pesar.
“Aprendi a informar sobre dezenas de mortes em um único ataque e acrescentar automaticamente que lamentamos qualquer dano causado a pessoas que não estavam envolvidas. Essa era a rotina do meu serviço”, afirmou.
“Eu nunca fui boa em ficar calada diante da injustiça, mas aqui me pediam para fazer relações públicas em favor dela.”
Kroizer disse que cresceu na comunidade ultraortodoxa e renunciou à sua isenção do serviço militar há três anos para se alistar durante a guerra.
“Eu me alistei para participar do que, na época, acreditava ser a defesa do país”, escreveu.
Ela afirmou que nunca imaginou que, após concluir seu serviço, se juntaria ao Breaking the Silence em vez de viajar ou iniciar seus estudos.
A organização saudou sua nomeação em uma publicação no X, afirmando que era hora de levar a verdade sobre a ocupação ao público.
Kroizer encerrou sua publicação convocando outras pessoas que serviram durante a guerra a se manifestarem.
“Portanto, não ficarei em silêncio. Se você serviu durante a guerra, também não fique em silêncio.”
Desde outubro de 2023, a guerra de Israel em Gaza matou mais de 74 mil palestinos e feriu mais de 175 mil, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza. A guerra também destruiu cerca de 90% da infraestrutura civil do território.







