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Vitória de Lula, por si só, não basta para enfraquecer o domínio dos EUA e de Israel sobre a América Latina

2 de novembro de 2026, às 12h14

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva [Marcelo Camargo/Agência Brasil]

“Lula venceu! Lula venceu!”, gritou um estudante brasileiro em uma escola de idiomas no Cairo, no Egito. Uma ativista argentina enviou uma mensagem semelhante. Um canal de notícias pan-árabe exibiu imagens de ruas lotadas em São Paulo.

A euforia em torno do quarto mandato do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é real e compartilhada por seus apoiadores no país e por setores progressistas dos países vizinhos. Mas também é exagerada, especialmente quando acompanhada de expectativas de uma guinada regional à esquerda e de um distanciamento dos Estados Unidos e de Israel.

A Argentina, pátria do exagero, oferece um exemplo rápido.

Depois que Alberto Fernández derrotou o então presidente Mauricio Macri em 2019, um movimento peronista eufórico começou a imaginar uma reconfiguração política regional.

Um ativista trotskista dos subúrbios ao sul de Buenos Aires resumiu o clima: “Já temos AMLO [Andrés Manuel López Obrador] no México, e agora precisamos conquistar o Brasil. Imaginem se Lula for reeleito! A América Latina voltaria a ser de esquerda!”

O otimismo era compreensível. Lula deixou a prisão duas semanas depois da votação argentina, e um candidato apoiado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, havia perdido pela primeira vez.

Fernández tomou posse em dezembro de 2019 e não correspondeu às expectativas. Um mês depois, fez sua primeira viagem internacional como presidente a Israel, um gesto que um experiente analista argentino-israelense de política externa interpretou como uma tentativa de conquistar a boa vontade de Washington antes das negociações sobre uma dívida de US$ 44 bilhões com o Fundo Monetário Internacional.

Fernández também herdou uma vizinhança politicamente hostil. Jair Bolsonaro havia assumido a Presidência em Brasília em janeiro de 2019, e Jeanine Áñez chegou ao poder em La Paz naquele novembro, consolidando a chamada Onda Azul conservadora na região.

Mais importante ainda, Trump havia chegado à Casa Branca em janeiro de 2017, com maiorias republicanas nas duas casas do Congresso. Em setembro daquele ano, Benjamin Netanyahu tornou-se o primeiro primeiro-ministro israelense em exercício a visitar a América Latina, passando por Argentina, Colômbia e México. Mais tarde, retornou à região para a posse de Bolsonaro.

Em resumo, a vitória de Fernández não produziu a reconfiguração regional imaginada pelos otimistas. No curto período que teve antes da pandemia de Covid-19, ele recorreu a Israel para se aproximar dos Estados Unidos.

Isso não significa que Lula seguirá os mesmos passos. O objetivo é apontar os limites impostos pela política interna, regional e global e, assim, moderar as expectativas.

Um eleitorado dividido

A mais recente vitória de Lula não é pouca coisa. Ele é o primeiro presidente democraticamente eleito do Brasil a conquistar um terceiro e agora um quarto mandato, além de ser o primeiro desde 1985 a vencer um segundo turno depois de terminar em segundo lugar na primeira rodada.

Por mais notáveis que sejam, essas conquistas revelam a dificuldade que seu partido enfrenta para renovar suas lideranças, apesar das tentativas nesse sentido.

O Partido dos Trabalhadores (PT) fez sua primeira tentativa de renovação em 2010, elegendo Dilma Rousseff para suceder Lula na Presidência. Ela foi reeleita em 2014, sofreu impeachment em 2016 e não conseguiu conquistar uma cadeira no Senado em 2018. Seu retorno à política nacional parece ainda mais distante agora que preside o Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelos Brics.

Em seguida, o partido passou o bastão a Fernando Haddad, que se tornou seu candidato à Presidência em 2018, depois que a Justiça Eleitoral impediu Lula, então preso, de concorrer. Haddad perdeu para Bolsonaro.

Lula retornou como candidato do PT e derrotou Bolsonaro em 2022 e, quatro anos depois, seu filho, o senador Flávio Bolsonaro. Nos dois casos, as margens foram estreitas: menos de dois pontos percentuais na primeira ocasião e menos de quatro na segunda.

Três dias antes da votação final, o Datafolha apontava empate entre os dois candidatos, com 50% dos votos válidos para cada um. Mais reveladores ainda eram os índices de rejeição: 46% para Flávio Bolsonaro e 45% para Lula. Esses números evidenciam a frustração e a polarização por trás da vitória de Lula.

A polarização também está expressa no mapa, seguindo a divisão histórica entre o Sul rico e o Norte pobre. Flávio Bolsonaro venceu nos três estados do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Centro-Oeste, enquanto Lula conquistou os nove estados do Nordeste. Em comparação com 2022, apenas dois estados mudaram de lado.

A vitória de Lula deixa sem solução o problema de sucessão no PT e mantém o eleitorado brasileiro profundamente dividido, ao mesmo tempo que oferece poucos indícios da guinada mais ampla à esquerda que seus apoiadores esperam ver na América Latina. O segundo mandato de Trump serve de lembrete do que líderes consolidados e eleitorados polarizados podem fazer com uma democracia.

A internacional reacionária

A vitória de Lula é uma exceção na América Latina. Ela ocorre após uma onda de vitórias eleitorais da direita em todo o continente desde que Trump retornou à Casa Branca, em janeiro de 2025. A direita venceu eleições no Chile, na Bolívia, na Colômbia, em Honduras, no Peru e no Equador.

O acadêmico argentino Juan Gabriel Tokatlian descreveu a ascensão de uma “internacional reacionária”: uma invenção anglo-saxã com filiais na periferia do mundo, impulsionada pela indignação contra a história, a política e a moralidade, e sempre em busca de um bode expiatório.

Trump, o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson e Nigel Farage, líder do Reform UK, encontraram seus equivalentes em Jair Bolsonaro, no presidente argentino Javier Milei e no presidente colombiano Abelardo de la Espriella.

Essa rede de líderes populistas, socialmente conservadores e economicamente liberais revitalizou as relações entre a América Latina e os Estados Unidos.

Trump declarou apoio a candidatos presidenciais como Nasry Asfura, em Honduras, e de la Espriella, na Colômbia, além de Flávio Bolsonaro. Também demonstrou proximidade com os presidentes José Antonio Kast, do Chile, Nayib Bukele, de El Salvador, e Daniel Noboa, do Equador.

Antes das eleições legislativas de meio de mandato na Argentina, em outubro de 2025, o governo Trump organizou um pacote de apoio financeiro de US$ 20 bilhões para sustentar o peso argentino e a coalizão de Milei. Em setembro de 2026, desviou US$ 52 milhões em ajuda militar destinada ao Iraque, à Tunísia e a dois países membros da Otan para governos de direita na Colômbia, no Equador, no Panamá e no Peru.

De fato, o governo Trump investiu pesadamente na internacional reacionária, sobretudo na América Latina. Essa interferência, tanto eleitoral quanto financeira, é por si só uma característica dessa rede: uma solidariedade transnacional que atropela a soberania dos Estados e o direito internacional.

O mais preocupante é a chamada “Doutrina Donroe”, mensagem de Trump de que todos os meios necessários serão utilizados para apoiar e expandir essa rede pela América Latina.

Em nome dessa doutrina, forças dos Estados Unidos vêm bombardeando embarcações no Caribe desde setembro de 2025, matando mais de 100 pessoas em ataques extrajudiciais. Em janeiro, sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, matando 100 soldados durante a operação. Desde fevereiro, impõem um bloqueio de combustível a Cuba, que especialistas da ONU classificaram como “privação energética”.

Washington quer dominar o hemisfério e liderar sua ala da internacional reacionária por meios políticos, econômicos e militares. Os governos da região agora enfrentam custos crescentes, por vezes fatais, quando se recusam a ceder às exigências dos Estados Unidos.

Lula já desafiou Trump, e os resultados e as consequências desse confronto são evidentes. Quando Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil em 2025, como punição pelo processo judicial contra Jair Bolsonaro, Lula se recusou a ceder. A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou essas tarifas emergenciais em fevereiro, mas Washington as substituiu por uma taxa de 25% em julho.

Lula levou o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC) e, em menos de um mês, Trump telefonou para o presidente brasileiro, e as negociações bilaterais foram retomadas.

Impressionante, sim. Sem custos, não. Lula não conseguiu restabelecer as tarifas norte-americanas nos níveis anteriores e foi obrigado a buscar novos mercados.

A presença de Israel na região

Se Lula tem enfrentado dificuldades para resistir à pressão de Washington, as forças progressistas em outras partes da região tiveram resultados ainda piores, sem conseguir reagir à Onda Azul e à internacional reacionária. Esse fracasso mantém abertas as portas para a continuidade da presença israelense na América Latina.

As relações entre a América Latina e Israel tiveram altos e baixos, refletindo o cenário mais amplo da política internacional. As missões diplomáticas foram abertas na década de 1950. Na década seguinte, o sequestro de Adolf Eichmann na Argentina, em 1960, e a expansão de governos de esquerda geraram atritos.

Ainda assim, quando a Assembleia Geral da ONU declarou o sionismo uma forma de racismo, em 1975, a maioria dos governos da América Latina e do Caribe votou contra a resolução ou se absteve. Apenas Brasil, México, Cuba, Guiana e Granada apoiaram a medida.

Ao mesmo tempo, Israel encontrava compradores para suas armas. A partir da década de 1970, forneceu armamentos a alguns dos regimes mais brutais da região, entre eles a junta militar argentina, o governo de Augusto Pinochet no Chile, os governos salvadorenhos responsáveis por esquadrões da morte e o regime de Anastasio Somoza na Nicarágua.

A onda progressista conhecida como Maré Rosa, nos anos 2000, tentou então estabelecer um equilíbrio. Um após o outro, países como Brasil e Honduras reconheceram o Estado da Palestina em 2010 e 2011, enquanto um número crescente de líderes criticou a conduta de Israel durante suas ofensivas contra Gaza em 2009 e 2014. Em 2014, Brasil, Chile, Equador, Peru e El Salvador convocaram seus embaixadores de volta.

Depois veio Trump, eleito quando a Maré Rosa perdia força, seguido pela viagem de Netanyahu à região. A Guatemala transferiu sua embaixada para Jerusalém em 2018, e Honduras fez o mesmo em 2021. Em 2019 e 2020, Argentina, Paraguai, Guatemala, Honduras e Colômbia declararam o Hezbollah uma organização terrorista, por pressão de Washington. Em 2019, Jair Bolsonaro e o então presidente chileno, Sebastián Piñera, também visitaram Israel.

Por trás de tudo isso estão, mais uma vez, as vendas de armas e a tecnologia de vigilância. A Argentina comprou embarcações de patrulha israelenses, a Colômbia adquiriu um sistema de defesa aérea e o México comprou o programa espião Pegasus, do NSO Group. Flávio Bolsonaro fez campanha prometendo transferir a embaixada brasileira para Jerusalém, e Netanyahu discursou por vídeo no lançamento de sua campanha.

Os limites de Lula

Lula pode estar disposto a enfrentar Israel e os Estados Unidos. Ele já demonstrou isso ao confrontar Trump por causa das tarifas, retirar o embaixador brasileiro de Tel Aviv, classificar como genocídio a guerra de Israel contra Gaza, que matou mais de 74 mil palestinos, e aderir ao processo movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

Ele está praticamente sozinho na América Latina ao reunir disposição e capacidade para tomar essas medidas. Israel sabe que os laços comerciais mantêm abertas as portas para sua influência política, especialmente enquanto Trump estiver na Casa Branca.

A euforia com a vitória de Lula, vista como uma conquista dos valores democráticos e progressistas, é justificada, mesmo diante das dificuldades do partido para renovar suas lideranças.

Já a expectativa de que essa vitória desencadeará um efeito dominó regional, revitalizando o movimento progressista e afastando a região de Washington e Tel Aviv, não se justifica. Lula, sozinho, não pode reverter a influência dos Estados Unidos e de Israel na região.

Nem tudo são más notícias. A eleição presidencial argentina de 2027 oferece a Lula uma oportunidade de conquistar um aliado. Quando Brasília e Buenos Aires estão alinhadas, a região se movimenta.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.