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Eleições presidenciais no Brasil, um balanço do primeiro turno

11 de outubro de 2026, às 05h00

O primeiro turno das eleições presidenciais do Brasil ocorreu no domingo 04 de outubro de 2026 e resultou em vitória parcial do candidato da extrema-direita, aliado de Trump, Rubio e Netanyahu, o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ).

Se levarmos em conta os institutos de pesquisa mais prestigiados do Brasil, o erro foi quase que generalizado, pois não se percebeu o voto discreto na extrema-direita e menos ainda a difusão dos empresários de mídia com conteúdos neopentecostais e aliados do sionismo. Tampouco o efeito do orçamento secreto e das emendas discricionárias formando as lealdades em verdadeiros currais eleitorais. Vejamos o desempenho dos competidores.

O filho mais velho do ex-presidente preso e condenado por intento de golpe de Estado obteve 47,03%, com 56.104.503 votos. O candidato conseguiu superar o pai no primeiro turno em 2022 avançando em 5 milhões de votos a mais.

Já Lula chegou a 45,16%, recebendo 53.879.538 votos, mas totalizando cerca de 3,5 milhões de votos menos do que em seu desempenho no primeiro turno de 2022. O cientista político Marco Faganello aponta onde o presidente foi menos votado.  Vejamos uma parte do estudo:

“ Lula perdeu votos (em % dos válidos) em 98% dos municípios do Brasil entre o 1º turno de 2022 e o de 2026. No país, a queda foi de 3,3 p.p., mas pesou mais nas cidades pequenas: −7,2 p.p. nos municípios com até 5 mil habitantes e só −1,1 p.p. nos com mais de 500 mil.

A derrota veio do interior. Nas capitais, Lula praticamente manteve o voto de 2022 (−0,6 p.p.) e cresceu em Macapá, Belém, Aracaju, Recife e Brasília. No interior, caiu 4,1 p.p. E não é só tamanho: mesmo comparadas a cidades de porte parecido, as capitais perderam menos.

Por região, a perda se concentra no Sul (−5,5 p.p.) e no Centro-Oeste (−5,2), onde Lula já era mais fraco. No Nordeste, caiu 3,0. Resultado: a distância entre Nordeste e Sul no voto em Lula, que era de 30 p.p. em 2022, subiu para 32,5. O país ficou mais dividido regionalmente.

Em intensidade, a perda de Lula foi maior no Sul (−5,5 p.p.) e no Centro-Oeste (−5,2). Em volume, não: metade da queda nacional veio do Sudeste, que caiu menos (−2,9) mas concentra 41% dos votos válidos. O Sul responde por 26%; Nordeste, 12%; Centro-Oeste, 10%; Norte, 1%.”

Não por acaso, Lula ganhou em todos os estados do Nordeste, e na maior parte dos estados da Região Norte (Amazonas, Pará e Amapá). O importante colégio eleitoral de Minas Gerais, onde saiu vitorioso em 2022, terminou em derrota para o presidente neste ano, assim como no Tocantins. A margem de perda de votos em São Paulo e no Rio Grande do Sul, assim como a absurda vitória do aliado de Flávio no Rio de Janeiro marcaram a surpresa do primeiro turno.

Erros da social-democracia e acertos da extrema-direita

Podemos apontar uma dura conclusão. O Partido do Trabalhadores, a maior força política de centro-esquerda da América Latina, com orientação majoritária social-democrata, realizou um bom governo se comparado com o antecessor Jair Bolsonaro (2019-2022) e o mandato tampão e ilegítimo de Michel Temer (2016-2018). Ainda assim, a administração Lula 3 foi muito aquém dos governos Lula 1, Lula 2 e Dilma 1, quando chegamos a bater recorde de crescimento e o país assistiu boquiaberto a mobilidade social de mais de 40 milhões de pessoas. Na margem ampliada, entre mobilidade, benefícios e ampliação de direitos de reconhecimento, o Brasil viu o atendimento de demandas reprimidas de mais de 60 milhões. Ou seja, em tese, o voto cativo poderia ser da ordem de uma Colômbia inteira, se fosse minimamente mobilizado.

Já o conjunto de benefícios para a extrema-direita diante dessa competição eleitoral são vários. Podemos ressaltar o aproveitamento superior no uso das redes sociais, com o emprego do algoritmo e das grandes plataformas de Big Techs atuando a favor de Flávio Bolsonaro. Diante do escândalo do Banco Master, o filho mais velho do ex-presidente preso por intento de golpe de Estado foi bastante poupado na mídia tradicional. A “crise no STF” acaba caindo na conta do presidente Luiz Inácio, após evidente manipulação jornalística. No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a presidência do ministro Kassio Nunes Marques foi no mínimo controversa, protelando qualquer punição ou em dobradinha com André Mendonça, sendo acusado de censura prévia contra publicações a favor do governo ou de críticas ácidas ao bolsonarismo.

Em termos de acerto político, a campanha de Flávio Bolsonaro bateu duro no custo de vida e no endividamento da população mais pobre. Sim, é verdade, o custo de vida incide diretamente no salário da classe trabalhadora e, mesmo com o aumento do consumo, números recordes de emprego e baixo desemprego, não se percebe um ciclo virtuoso na economia popular.

O tema das dívidas é pesado, não apenas pelos juros absurdos impostos pelos bancos e financeiras tendo em base a Taxa Básica Selic, mas também pelo endividamento através dos aplicativos de apostas eletrônicas, as bets. Lula acerta ao proibir as bets, mas fica a dúvida: se era previsível a ludopatia como epidemia social, porque o governo fez a composição para regularizar os sistemas de apostas? Pela pressão dos grupos de mídia? Mas, e a conta política?

Outro tema, é o endividamento generalizado. A alta de juros é uma espécie de extorsão institucional, onde o sistema financeiro na prática se autogoverna através da pressão sobre o Conselho de Política Monetária (Copom) e a condição absurda de um Banco Central “independente”. Flávio Bolsonaro associa a alta de juros ao gasto público, o que conceitualmente é um absurdo, porque justamente a maior despesa corrente líquida da União, do Poder Executivo da 8a economia do mundo é a remuneração para os financistas que comandam a parasitagem rentista com privilégios de compra e recompra dos papeis do Tesouro Brasileiro.

Flávio Bolsonaro e sua equipe indicam cortar ao menos 1,5% do PIB brasileiro no “gasto público” e assim baixar juros. Ou seja, vai retirar o financiamento de políticas públicas e transferir para iniciativa privada tudo o que puder no menor prazo de tempo possível. Se esse compromisso do senador pelo PL do estado do Rio de Janeiro for compreendido pela população, pode gerar o medo da perda direitos – correto por sinal – e mobilizar o eleitorado que falta para a reeleição do presidente Lula.

Caso os temas estruturais não entrem na campanha, o pântano das redes sociais e da dissonância cognitiva levará à vitória os neofascistas, aliados de oligarcas e subalternos ao sionismo e ao Império dos EUA.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.