A linguagem da mídia como arma de guerra

Sayid Marcos Tenório
2 dias ago

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Manifestantes anti-guerra protestam perto da Casa Branca contra o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em Washington DC, Estados Unidos, em 7 de abril de 2026. [Celal Güneş – Agência Anadolu]

A linguagem da mídia hegemônica não apenas descreve o mundo. Ela o organiza, o hierarquiza e, sobretudo, o disciplina. No vocabulário dominante das relações internacionais, certas palavras são mobilizadas de forma sistemática para legitimar aliados e deslegitimar adversários.

Não se trata de um detalhe semântico, mas de uma engrenagem central na produção de consenso em torno da ordem global.

Basta observar o padrão adotado, no qual países como os Estados Unidos, seus aliados europeus e “Israel” são governados por “governos”. Já nações que desafiam a ordem imperial, como o Irã, Cuba, Venezuela e a Coreia do Norte, são frequentemente descritas como “regimes”.

A diferença não é neutra. “Governo” sugere legitimidade institucional. Já “regime”, no uso corrente da mídia, carrega a marca da suspeita, da ilegitimidade e da ameaça.

Essa distorção é reveladora. No campo da ciência política, “regime” é um conceito técnico e neutro. No discurso midiático, porém, ele se transforma em rótulo político. Ao chamar um país de “regime”, não se descreve, julga-se. E esse julgamento antecede qualquer análise, condicionando a percepção do público.

O mesmo mecanismo opera na classificação de atores não estatais. Movimentos como o Hamas e o Hezbollah são rotulados automaticamente como “grupos terroristas”, anulando o fato de que o Hezbollah é um ator político institucional, com representação parlamentar e serviços sociais amplos no Líbano.

A complexidade histórica, social e política dessas organizações é reduzida a uma categoria que as exclui do campo da legitimidade.

Desaparece, assim, o fato de que tais movimentos emergem em contextos de ocupação, guerra e negação de direitos nacionais. O direito internacional, especialmente no marco das lutas de descolonização, reconhece o direito dos povos à autodeterminação e à resistência e à legítima defesa contra ocupação estrangeira.

Esse princípio foi afirmado no Art. 51 da Carta das Nações Unidas e em diversas resoluções da ONU ao longo do século XX. Ainda assim, a mídia dominante raramente adota esse enquadramento. Ao contrário, prefere um vocabulário que criminaliza a resistência e despolitiza o conflito.

Essa assimetria atinge seu ponto mais evidente no caso de “Israel”. Apesar de um amplo corpo jurídico internacional reconhecer a existência de territórios palestinos ocupados e a ilegalidade dos assentamentos, a mídia raramente utiliza o termo “potência ocupante”. Em seu lugar, prevalece a narrativa da “autodefesa”.

Assim, mesmo diante de operações militares de larga escala contra populações civis e do genocídio praticado em Gaza, o enquadramento dominante permanece sendo o de que “Israel tem o direito de se defender”.

Ao mesmo tempo, qualquer ação de resistência palestina é imediatamente classificada como “terrorismo”. O resultado é uma inversão semântica que distorce a realidade jurídica e política. A ocupação desaparece do discurso, enquanto a resistência é criminalizada.

Esse padrão discursivo não surgiu por acaso. Ele se consolidou ao longo de processos históricos como a Guerra Fria e a chamada Guerra ao Terror, períodos em que a linguagem foi mobilizada como instrumento central de disputa geopolítica.

Desde então, a mídia hegemônica atua como um vetor de legitimação de uma ordem internacional centrada no poder ocidental.

Ao definir quem é “governo” e quem é “regime”, quem exerce “autodefesa” e quem pratica “terrorismo”, a mídia delimita o campo do possível. Ela molda a opinião pública, prepara o terreno para sanções, bloqueios e intervenções e naturaliza a desigualdade entre nações.

As consequências são concretas. O uso reiterado desses termos legitima políticas de isolamento econômico que afetam populações inteiras, justifica intervenções militares sob o pretexto de segurança internacional e desumaniza povos ao associá-los permanentemente à ameaça.

Mais do que isso, constrói um sistema simbólico no qual algumas vidas são plenamente reconhecidas, enquanto outras permanecem sob suspeita.

Diante desse cenário, torna-se evidente que a disputa política contemporânea passa, necessariamente, pela disputa da linguagem. Questionar o uso de termos como “regime” e “terrorismo” não é um exercício meramente acadêmico, mas um ato político.

Romper com essa gramática exige rigor conceitual, mas também coragem crítica. Exige reconhecer que a linguagem é parte do campo de batalha e que as palavras podem ser tão decisivas quanto os fatos que pretendem descrever.

Porque, no fim, não se trata apenas de como o mundo é narrado, mas de quem tem o poder de narrá-lo.

E enquanto esse poder permanecer concentrado, a linguagem continuará sendo usada não para esclarecer, mas para justificar. Não para compreender, mas para enquadrar. Não para libertar, mas para dominar.

Desconstruir esse vocabulário é, portanto, parte inseparável de qualquer projeto comprometido com a soberania dos povos e com a justiça internacional. É afirmar que nenhum país deve ser reduzido a um rótulo que sirva de pretexto para sua punição. É reivindicar o direito de nomear, e de existir, fora das categorias impostas pelo poder.

Porque, muitas vezes, a primeira batalha não começa com armas.

Começa com as palavras.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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