EUA dizem querer acordo — suas ações apontam para uma invasão por terra

Alice Johnson
3 dias ago

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Porta-avião USS Gerald R. Ford, ancorado em Creta após ataques iranianos, na Grécia, em 23 de março de 2026 [Stefanos Rapanis/Agência Anadolu]

Os americanos conhecem bem este roteiro. Um presidente diz que quer um acordo, insiste que não deseja uma guerra mais ampla e, silenciosamente, constrói a arquitetura militar para consolidar uma. É precisamente onde os Estados Unidos se encontram hoje, em sua guerra contra o Irã. Enquanto Donald Trump fala sobre um possível acordo e alega que existem “grandes pontos de concordância”, o Pentágono se prepara para enviar milhares de soldados adicionais da 82ª Divisão Aerotransportada ao Oriente Médio, somando-se a um montante militar que já parece menos uma tática de pressão e mais uma preparação para uma fase mais profunda do conflito. Um governo sério em encerrar as hostilidades não continuaria expandindo o contingente por trás delas.

A distância entre as palavras de Washington e suas ações já não é diminuta o suficiente para ser descartada como mero teatro diplomático. Trump diz que os contatos com o Irã seguem promissores. Teerã, no entanto, desmentiu publicamente negociações diretas. Como se não bastasse, segundo a agência Reuters, o Irã enrijeceu sua postura de negociação e robusteceu suas demandas frente à guerra, com exigências de garantias contra futuros ataques e recusa em impor novos limites a seu programa de mísseis. Certamente, não parece um iminente avanço diplomático. Parece, sim, uma administração recorrendo à linguagem da negociação para ganhar tempo enquanto mantém as opções armadas sobre a mesa. A questão não é mais se Washington prefere um acordo hipotético. A questão é se as “negociações” estão se tornando um disfarce político para uma escalada contínua.

Há outro sinal de que a guerra está se movendo em uma direção ainda mais perigosa: os Estados Unidos seguem em dificuldade em convencer aliados a compartirem da responsabilidade. Quando Trump pediu ajuda para manter aberto o Estreito de Hormuz, vários países prontamente se recusaram a enviar navios. Japão e Austrália disseram publicamente que não tinham planos imediatos de intervir, e hesitação semelhante veio à tona por parte de outros parceiros. Isso importa porque a relutância da coalizão geralmente não abarca Washington. Mais frequentemente, faz com que o Pentágono compense a eventual ausência com mais e mais recursos americanos, mais risco e, eventualmente, mais propriedade próprio de uma guerra vendida como razoavelmente limitada. Um conflito que começa como um projeto conjunto pode então ter se tornado um fardo esmagadoramente americano pelo simples fato de que ninguém mais quer ser arrastado a algo muito mais profundo.

É assim que a escalada da missão realmente acontece. Dificilmente chegará com uma declaração formal de que os Estados Unidos decidiram entrar em uma aventura terrestre. Vem em partes: reforços para proteger bases, tropas para garantir rotas de navegação, contingentes de operações especiais a locais sensíveis e insistência constante de que “todas as opções permanecem sobre a mesa”. Segundo reportagem da Reuters, da última semana, autoridades americanas avaliavam reforços às operações ligadas a Hormuz e outros possíveis passos. Especialistas colaboracionistas, entretanto, alertavam que garantir os estoques de urânio do Irã seria altamente complexo e arriscado até mesmo para forças de operações especiais. Não se trata, de modo algum, de linguagem de um conflito que permanece perfeitamente contido. É a linguagem de uma guerra em busca de seu próximo pretexto.

O público americano, é importante notar, não está pedindo por isso. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos publicada na semana passada revelou que 65% dos americanos acreditam que Trump ordenará que tropas entrem em uma guerra terrestre em larga escala no Irã, mas apenas 7% apoiam a ideia. Uma pesquisa da AP-NORC corroborou, por sua vez, que a maioria dos americanos acredita que a recente ação militar contra o Irã foi longe demais, e cerca de seis em cada dez se opõem ao envio de tropas terrestres para combater no país. Os números importam porque expõem a ficção de que uma guerra mais profunda se basearia em qualquer consenso ou apoio popular. Washington não está caminhando a um conflito mais amplo porque o público o abraçou, mas sim a despeito de seus alertas e contestações.

Tudo isso deveria preocupar os cidadãos americanos mesmo que não tenham nenhuma simpatia pelo governo iraniano. Não é necessário romantizar Teerã para ver o perigo representado pelas ações de Washington. Estados Unidos e Israel podem compartilhar o esforço de guerra atual, mas qualquer fase terrestre seria sobretudo paga por americanos, travada por eles e politicamente assumida em Washington muito depois que a retórica atual sobre resultados rápidos tiver desaparecido. Essa é a parte de “apoiar um aliado” que a Casa Branca prefere deixar omissa. Campanhas aéreas podem ser vendidas como controladas e temporárias. Compromissos por terra são diferentes; criam sua própria lógica, seu próprio impulso e suas próprias desculpas para permanecer muito mais tempo do que o prometido.

Nem há razão para pensar que uma fase terrestre resolveria o problema político que o poder aéreo jamais conseguiu. O Irã não é um alvo que pode simplesmente ser intimidado até a rendição estratégica com a adição de mais e mais soldados americanos por toda a região. Mesmo agora, após semanas de ataques, Hormuz segue como um problema estratégico real, negociações permanecem incertas, e estrategistas militares ainda falam em termos de opções em vez de resultados. Em geral, tudo isso é um sinal de que as táticas anunciadas simplesmente estagnaram. Quando isso acontece, Washington tem o hábito arraigado de tratar a escalada não como prova de fracasso, mas como o remédio para este. É assim que guerras ruins se tornam guerras ainda piores.

O que torna este momento especialmente perigoso é que a administração ainda quer os benefícios políticos de parecer contida enquanto se prepara para as benesses militares de ir além. Quer falar de um “acordo” e movimentar soldados simultaneamente. Quer afirmar que esta não é outra guerra americana sem fim enquanto cria condições das quais emergem tais guerras perpétuas. Está claro a todos os leitores mais atentos: Washington não está fora deste conflito, muito menos tentando acalmá-lo; está profundamente imerso, ajudando a moldar a próxima fase enquanto finge que esta pode nunca chegar. Se a Casa Branca realmente quisesse prevenir uma invasão por terra, deixaria de construir uma. Até lá, os americanos deveriam chamar isso pelo que é — não prudência, não dissuasão, mas um deslize familiar e perigoso em direção a uma guerra que o país não escolheu, tampouco quer.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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