A pergunta parece simples, mas vai além de “retaliação militar”. Por que o Irã atacaria os países do Golfo enquanto afirma que seus verdadeiros inimigos são os Estados Unidos e Israel? E essa tática realmente ajuda o Irã, ou o enfraquece politicamente e o deixa isolado na região?
A resposta mais realista é que o Irã não vê o Golfo como território neutro. Teerã vê os estados do Golfo como parte de um ambiente militar e econômico usado contra o Irã. Isso se dá por meio de bases americanas, apoio logístico, funções de inteligência e, principalmente, o sistema energético e os mercados globais. Mas essa escolha é arriscada. Uma vez que o Irã expande sua lista de alvos para incluir países vizinhos, automaticamente expande a lista de inimigos.
O Irã não está atacando o Golfo “por ódio” – ele o vê como uma zona de pressão americana.
Na visão de Teerã, o poder americano na região não se resume a porta-aviões. Trata-se também de uma rede de bases, instalações e cooperação em segurança espalhadas pelos países do Golfo. Portanto, quando o Irã diz que está atacando “interesses americanos”, muitas vezes se refere a sistemas de radar, centros de comando e controle, instalações logísticas ou pontos de operação que ajudam Washington a conduzir o confronto.
Este é o argumento central do Irã: “Não estamos atacando pessoas, estamos atacando a estrutura que permite aos EUA travar guerras ao nosso redor”. Mas esse argumento é difícil de sustentar na prática. Ele desmorona rapidamente se os ataques atingirem instalações civis, áreas residenciais ou infraestrutura econômica sensível.
O Irã quer limitar as opções de seus oponentes, mas está ampliando seu leque de adversários.
Há um princípio básico na gestão de conflitos: quanto mais estreita a frente inimiga, melhor. Atacar os vizinhos faz o oposto. Cria novas hostilidades e força os Estados que tentaram se manter fora do conflito a tomar uma posição ou, pelo menos, aprofundar a cooperação em segurança com Washington.
Esse é o provável erro do Irã. Em vez de manter a guerra limitada ao Irã contra os EUA e Israel, o conflito se torna multifacetado, e o Irã passa a ser visto como uma ameaça regional mais ampla pela população e pelos governos.
Uma história política gratuita para Washington e Tel Aviv.
Quando os países do Golfo são atacados, Washington e Israel ganham uma vantagem política fácil. Eles podem dizer: “O Irã ameaça a estabilidade regional” e alegar que a guerra não se trata apenas de defender Israel ou os interesses dos EUA, mas também os Estados do Golfo.
Em outras palavras, o Irã oferece aos seus oponentes uma narrativa pronta para ampliar a coalizão contra ele e enquadrar o conflito como uma questão de segurança regional coletiva, e não um confronto limitado entre dois atores impopulares (EUA e Israel).
O Irã quer “garantias” para o fim da guerra, mas o Golfo paga o preço.
O Irã afirma não querer uma trégua temporária que leve a uma nova rodada de guerra. Ele quer garantias reais de que a guerra não se repetirá. É por isso que Teerã prefere manter a pressão até que os termos finais sejam definidos. É aqui que o Golfo se torna uma “arena de mensagens”: o Irã exerce pressão política e econômica até que Washington sinta a tensão interna.
Mas essa pressão não ocorre isoladamente. Uma vez que o Golfo se torna um campo de batalha para mensagens, a relação do Irã com seus vizinhos se torna mais frágil após a guerra, mesmo que os combates cessem. A confiança se quebra rapidamente e reconstruí-la pode levar anos.
Será que o Irã conseguirá manter essa estratégia?
O Irã pode aumentar o custo por um curto período, mas enfrenta dois problemas:
1) A narrativa tem curta duração: dizer “estamos atingindo interesses dos EUA” pode não se sustentar se os danos aumentarem ou os ataques se repetirem.
2) Repercussões políticas: cada ataque no Golfo aumenta a pressão sobre esses países para que endureçam sua posição contra o Irã e, possivelmente, deem a Washington mais acesso e apoio.
Assim, nesse ponto, as ferramentas de pressão do Irã começam a se voltar contra ele.
A guerra energética: por que o Irã quer aumentar o custo no Golfo?
Há outro motivo importante: a economia.
O Irã sabe que não pode competir com os EUA e Israel em um equilíbrio clássico de poder militar. Portanto, ele se baseia em uma “estratégia de custo”, pressionando um ponto fraco global: a energia. O Golfo não é apenas uma questão geográfica. É o centro do mercado mundial de petróleo e gás. Qualquer interrupção aumenta os preços, eleva os custos de frete e seguro e espalha a inflação da Ásia para a Europa.
Quando o Irã ataca no Golfo, envia duas mensagens:
Aos Estados Unidos: a guerra não permanecerá “limpa” e distante dos principais interesses econômicos.
Ao mundo: a pressão sobre o Irã fará com que a economia global pague um preço.
Portanto, o Irã ataca o Golfo porque o vê como a porta de entrada dos Estados Unidos, mas corre o risco de se isolar.
O Irã ataca os países do Golfo porque acredita que a guerra está sendo gerenciada através da região: bases, radares, logística e energia. Teerã quer mostrar que o custo da guerra não ficará restrito ao Irã. Mas o perigo estratégico é claro: ampliar os inimigos em vez de reduzi-los e dar a Washington e Tel Aviv mais espaço político para expandir a guerra.
No fim, a questão mais importante não é apenas por que o Irã ataca os países do Golfo. É esta:
Pode o Irã aumentar o custo sem perder seus vizinhos?
E pode pressionar Washington através do Golfo sem se tornar o principal inimigo aos olhos da região?
Esse dilema moldará não apenas o curso da guerra, mas também a região que virá depois dela.
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