A guerra sendo reescrita e a lição que ninguem quer aprender

Karam Nama
15 horas ago

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Uma vista dos grandes danos ao redor da Praça Ferdowsi, no centro de Teerã, após os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, com destroços espalhados por prédios próximos, incluindo danos relatados perto de um posto da Polícia Diplomática, em 3 de março de 2026. [Fatemeh Bahrami – Agência Anadolu]

Opor-se a uma guerra contra o Irã não é uma posição emocional, nem um alinhamento com o regime teocrático de Teerã — um regime que foi cruel o suficiente para prejudicar primeiro seu próprio povo e, em segundo lugar, exportar uma ideologia de dominação para seus vizinhos. Os governantes do Irã, com todas as suas camadas ideológicas e de segurança, não precisam de ninguém para defendê-los. A verdadeira objeção vem de outro lugar: de uma memória que não cicatrizou, de uma ferida iraquiana que se tornou uma lição política global sobre como o fracasso é fabricado.

Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, fizeram-no sob as bandeiras da “libertação” e das “armas de destruição em massa”. Duas décadas depois, nada resta desses slogans, exceto admissões tardias.

Até Donald Trump descreveu a invasão como o maior fracasso moderno dos Estados Unidos, como se a superpotência mundial precisasse de vinte anos para descobrir o que os iraquianos entenderam na primeira semana: a ocupação não traz liberdade e não constrói um Estado.

Ela abre portas que não podem ser fechadas.

O Iraque pós-invasão tornou-se um laboratório do caos: um Estado em colapso, uma classe política corrupta, milícias sectárias multiplicando-se como fungos, uma economia capturada e uma sociedade vivendo em uma panela de pressão prestes a explodir.

Só esse legado já basta para fazer com que qualquer nova guerra na região pareça uma repetição do mesmo erro — só que em uma escala maior.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, não estava oferecendo uma reflexão histórica quando falou sobre a Guerra do Iraque; ele estava emitindo um alerta político. Ele afirmou que a invasão dos EUA não apenas destruiu o Iraque, como também desencadeou uma onda de terrorismo extremista, elevou os preços globais da energia e alterou o equilíbrio de poder mundial de maneiras que ninguém poderia controlar. Acrescentou que um ataque ao Irã carrega a mesma névoa de incerteza e que suas consequências não produzirão uma ordem internacional mais justa, mas sim uma nova onda de desordem.

Essa visão não é isolada. Ministros das Relações Exteriores europeus, think tanks ocidentais e até generais aposentados têm lembrado o mundo de que a Guerra do Iraque foi o ponto de inflexão que expôs os limites do poder militar — e que qualquer nova guerra no Oriente Médio reproduzirá o mesmo cenário: Estados em colapso, milícias em ascensão e uma região transformada em uma arena aberta para conflitos por procuração.

Por que o mundo parece ter mais medo da guerra hoje? Porque todos sabem que o Oriente Médio não suportaria outra. Porque a experiência iraquiana provou que a guerra é mais fácil do que construir a paz, que derrubar regimes não significa derrubar crises e que são sempre as pessoas que pagam o preço.

E porque o regime iraniano — apesar de toda a sua brutalidade — não é meramente um “alvo militar”, mas um nó geopolítico que se estende do Golfo ao Mediterrâneo. Qualquer guerra contra ele não será uma “operação cirúrgica precisa”, mas um terremoto que remodelará rotas de energia, alianças e a economia global.

Esse regime foi, de fato, cruel o suficiente para prejudicar seus próprios cidadãos e exportar sua ideologia de dominação. Mas sua queda — e isso precisa ser enfatizado — é uma demanda popular dentro do próprio Irã, antes mesmo de ser um desejo regional. Os milhões de iranianos que foram às ruas nas últimas duas décadas não pediam reformas superficiais; exigiam o fim de um sistema que confiscou suas vidas e liberdades e transformou seu país em um campo de batalha.

Ainda assim, rejeitar a guerra não contradiz o desejo de ver o regime cair. Isso deriva da lição iraquiana que ainda paira como um aviso sobre a cabeça de todos.

Contudo, a própria região não é inocente em alimentar as ansiedades atuais.

Os estados árabes do Golfo se viram em uma guerra que nunca declararam quando o Irã e suas milícias iraquianas aliadas atacaram instalações vitais de petróleo e infraestrutura — como se quisessem enviar uma mensagem de que o alcance de Teerã não se limita às suas fronteiras.

Esses ataques não foram meras operações militares; foram declarações de que toda a região se tornou refém dos cálculos do Irã e de seus aliados armados.

A questão agora é se o mundo pode aprender com a lição iraquiana antes de se deparar com uma nova versão dessa guerra.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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