A narrativa contida na Surata Al-Fil (105: 1–5), conhecida como a Surata do “Elefante”, permanece uma das passagens mais simbólicas do Alcorão quando se trata de refletir sobre poder, arrogância e os limites históricos da dominação.
Longe de ser meramente um episódio religioso, a Surata oferece uma poderosa chave interpretativa para a compreensão dos ciclos de ascensão e declínio dos impérios. Sua mensagem central é simples e incisiva: nenhum império é invencível quando se distancia da justiça.
Segundo a tradição islâmica, o governador iemenita Abraha marchou contra a Caaba, em Meca, liderando um exército que incluía elefantes, os imponentes instrumentos de guerra e o símbolo máximo de poder da época.
A campanha visava impor hegemonia religiosa e política sobre a região. O desfecho narrado na Surata é bem conhecido: milhares de pássaros, os ababil, lançaram pequenas pedras que derrotaram o exército invasor, transformando a aparente superioridade militar em humilhação histórica.
A lição é que a arrogância imperial carrega em si as sementes da sua própria ruína. Essa leitura ressoa diretamente com o presente. O mundo testemunha a erosão de uma ordem internacional fundada na supremacia de poucos e na subordinação de muitos.
O imperialismo moderno, especialmente aquele articulado em torno dos Estados Unidos, sustenta uma arquitetura de poder baseada na coerção, na ameaça e na ideia de poder absoluto.
Porta-aviões nucleares, bases militares espalhadas pelo mundo e tecnologias bélicas de ponta desempenham, em nossa época, o mesmo papel simbólico que aqueles elefantes: projetar a imagem de uma força inquestionável.
Líderes que operam sob a lógica da coerção, da ameaça e da submissão, como o narcisista presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornam-se símbolos de um paradigma em crise, de uma supremacia que se considera inquestionável.
Um império que perde legitimidade aos olhos dos povos do mundo inicia um processo de erosão que nenhuma tecnologia bélica é capaz de reverter. O poder sustentado unicamente pela força revela, com o tempo, sua própria fragilidade.
Nesse contexto de erosão da legitimidade imperial, um dos pilares simbólicos que sustentaram por décadas a ordem geopolítica no Oriente Médio também desmorona: a ideia da invencibilidade militar de Israel.
Os eventos recentes, contudo, destroem essa percepção. A persistência da resistência palestina, mesmo em condições extremas, revela que a tão alardeada supremacia militar de Israel não se traduz automaticamente em vitória política ou legitimidade moral duradoura.
Os movimentos de resistência, entre eles o Hamas, demonstram que a história não termina com a assimetria de armas, mas se estende pela resiliência dos povos que se recusam a desaparecer.
Esse processo também está ligado ao surgimento de novos centros de poder que desafiam a lógica unipolar estabelecida após o fim da Guerra Fria, na qual a República Islâmica do Irã ocupa um lugar central nessa transformação.
Herdeira de uma longa tradição civilizacional persa, marcada por milênios de resistência a invasões e dominação externa, a República Islâmica tornou-se um ator regional cuja relevância transcende a esfera militar.
Sua trajetória recente reflete uma capacidade histórica de adaptação estratégica diante de sanções, isolamento e pressão diplomática, demonstrando que a soberania não se sustenta apenas pela força militar, mas pela coesão interna, pela memória histórica e por um projeto político nacional.
Assim como na narrativa evocada pela Surata do Elefante, o que está em jogo não é meramente a capacidade de vencer batalhas, mas a legitimidade para sustentar projetos de poder ao longo do tempo, pois os impérios frequentemente confundem superioridade tecnológica com permanência histórica.
Os “pássaros” da narrativa corânica podem ser entendidos como metáforas das forças históricas que desafiam hegemonias injustas: a consciência internacional, os movimentos populares, o direito dos povos à autodeterminação, a emergência de novas configurações multipolares e a persistência de memórias coletivas que se recusam a ser apagadas.
A Surata do Elefante permanece, portanto, um espelho e um alerta. Ela nos lembra que a história não pertence a impérios nem a figuras repugnantes como Donald Trump e Benjamin Netanyahu, que se consideram eternos, mas sim aos povos que persistem.
Quando a legitimidade se dissolve, o poder descobre seus limites. E é nesse ponto que a memória coletiva recupera sua voz, transformando a resistência em um horizonte e a justiça em um destino possível.
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![Uma faixa gigante representando um porta-aviões americano e a bandeira dos Estados Unidos foi exibida na Praça Enqelab (Revolução) em Teerã, Irã, em meio às crescentes tensões entre os Estados Unidos e o Irã, em 25 de janeiro de 2026. [Fatemeh Bahrami/ Agëncia Anadolu]](https://www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2026/02/AA-20260125-40361079-40361060-ANTIUS_BANNER_DISPLAYED_IN_TEHRAN_AMID_RISING_USIRAN_TENSIONS-1.webp)