França e Brasil tiveram reações distintas ao chamado Conselho de Paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embora apontassem notavelmente à mesma conclusão. Paris rejeitou o convite, ao alertar que aderir ao novo órgão seria em franco detrimento do panorama estabelecido da ONU. O Brasil pediu a Washington para limitar o Conselho de Paz a Gaza e reservar um assento à Palestina. Recentemente, ambos os presidentes, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Emmanuel Macron, da França, pediram o fortalecimento das Nações Unidas. A França, contudo, é um dos membros permanentes do Conselho de Segurança que votaram a favor da Resolução 2803, que avalizou o conselho.
Paris faria bem em explicar por que votou por uma proposta que sabia, ao que parece, ser lesiva às Nações Unidas. O Brasil faria bem em se lembrar que os alicerces do Conselho de Paz repousam sobre os escombros e a impunidade do genocídio em curso na Faixa de Gaza. Ambos exercem um papel na impunidade de Israel. A política contemporânea, em sua vagueza, dificulta determinar alianças, mas ninguém pode negar que as posições de Paris ou de Brasília pouco parecem refletir preocupação pelos palestinos.
Fortalecer a ONU e aderir a seu mandato não se traduz automaticamente em consolidar direitos palestinos. A resolução do Conselho de Segurança, na prática, entregou de mão beijada uma série de poderes das Nações Unidas aos Estados Unidos. Se a ONU de fato servisse a seu propósito, o texto jamais seria deferido. Sequer o Plano de Partilha de 1947 teria sido aprovado caso a ONU respeitasse sua própria carta fundadora. No decorrer das décadas, a ONU se associou erroneamente a legitimidade, direitos humanos e recursos internacionais. Sua trajetória, no entanto, soletra conspiração com violações de direitos, crimes de guerra e genocídio. A essa altura, a ONU não precisa ser robustecida, mas sim requer que descolonizemos suas raízes.
O foco em fortalecer a ONU incide agora apenas porque o regime trumpista arrisca minar uma zona de conforto. Sem o Conselho de Paz, a ONU continuaria a servir aos interesses das antigas potências coloniais que ainda decidem quando deve ocorrer uma intervenção estrangeira e quais Estados recaem sob a alcunha de democracia. No que diz respeito a Israel, as mesmas potências coloniais de outrora seguem afiançando a limpeza étnica e o roubo de terras, seja em âmbito nacional ou sob os auspícios das Nações Unidas.
O que está implícito, portanto, em fortalecer a ONU? Qual tipo de poder que se almeja? Lavar as mãos e manter o status quo? Se os líderes mundiais que declinaram o convite ao Conselho de Paz insistem em ignorar a cumplicidade da ONU na expansão e violência da colonização israelense, então a escolha aqui é apenas entre duas instituições facciosas, que priorizam manter violações da lei internacional.
Por décadas, aos palestinos se exigiu que abordassem suas questões junto à ONU, antes de surgir o Conselho de Paz. Por décadas, as Nações Unidas trataram os palestinos como não mais que bucha de canhão para o colonialismo israelense. O Conselho de Paz surge neste mesmo legado. Se os líderes mundiais que dizem se opor a plano de Trump buscam avigorar a ONU em termos de seu próprio papel em gerenciar a colonização, não cabe aos palestinos escolha alguma, salvo entre a cruz e a espada. A conclusão é que instituições como essas buscam se robustecer somente por sua própria relevância e sobrevivência; e se o Conselho de Paz constitui uma ameaça, resta-nos senão imaginar que os palestinos sofrerão ainda mais com tamanha competição por poder.
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![Sede da ONU, em Manhattan, Nova York [Daniel Slim/AFP via Getty Images]](https://www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2026/01/GettyImages-1233340300.webp)