O sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos, no início de janeiro, é apenas a última de um série de investidas americanas voltadas a impor mudanças de regime em solo estrangeiro.
Métodos variam: propaganda, assassinatos, golpes militares com financiamento direto, invasões e ocupações. Justificativas incluem interesses econômicos, ameaças securitárias e mesmo levar indivíduos aos tribunais americanos.
Em 1823, o então presidente James Monroe emitiu sua Doutrina Monroe, que considerava qualquer interferência de potências terceiras no Hemisfério Ocidental como risco à segurança e aos interesses dos Estados Unidos. Daí cresceu a ideia de intervir no exterior, sob quaisquer prerrogativas que se encaixassem em seus critérios.
No século XIX, a força militar foi empregue para anexar terras ao então território existente dos Estados Unidos, incluindo o Texas, do México, na década de 1840, e o Havaí, cinquenta anos depois.
Desde 1945, os Estados Unidos, com sua recém-conquistada hegemonia global, assumiu poderes para criar mudanças de regime ou moldar o curso de acontecimentos geopolíticos a seu bel-prazer. Em algumas instâncias, o Pentágono chegou a intervir em conflitos internos para alcançar seus objetivos, como no Vietnã e Somália, nas décadas de 1960 e 1970, e a Líbia, em 2011.
Ainda assim, nem sempre com sucesso. Fidel Castro, por exemplo, governou Cuba de 1959 até 2008, apesar de sucessivas ações para destituí-lo, incluindo invasões e tentativas de assassinato. Mudar um regime é também notavelmente mais fácil do que gerenciar o que se segue, como demonstrado no Iraque, no Afeganistão e além.
Veja a seguir alguns episódios de ingerência americana, desde a década de 1950.
1953: Irã
Em agosto de 1953, Mohammad Mosaddegh, o primeiro-ministro eleito do Irã, foi deposto em um golpe encomendado, segundo evidências, por Washington e Londres. A intervenção se deu após Mosaddegh nacionalizar recursos da Companhia de Petróleo Anglo-Iraniana — hoje, a British Petroleum (BP) —, controlados pela metrópole britânica, em acordo com o monarca persa, Mohammad Reza Pahlavi.
Primeiro-ministro do Irã, Mohammad Mosaddegh, visita o Sino da Liberdade, na Filadélfia, Estados Unidos, em 1951 [Creative Commons via Middle East Eye]
Mosaddegh foi condenado por lesa-pátria e posto sob prisão domiciliar até sua morte, em 1967. Muitos de seus apoiadores foram executados.
Após o golpe, a nacionalização foi anulada e o xá assumiu poderes virtualmente absolutos em um Estado pró-Ocidente, unipartidário, até ser ele próprio derrubado, pela Revolução de 1979. A Agência Central de Informações dos Estados Unidos (CIA) admitiu seu papel no golpe em 2013 — o Reino Unido, ainda não.
1954: Guatemala
Em 1944, na Guatemala, o ditador pró-Washigton Jorge Ubico foi destituído por um levante democrático. A década que se seguiu foi apelidada de os Dez Anos de Primavera.
Em 1954, o presidente Jacobo Arbenz introduziu um programa progressista de reformas sociais, incluindo reforma agrária em reparação histórica ao campesinato indígena guatemalteca, contra a elite nacional e a United Fruit Company — empresa americana, conhecida hoje como Chiquita.
Washington temia o surgimento de um regime comunista à sua porta. Ao ver seus interesses comerciais sob ameaça, autorizou uma operação pela qual a CIA embarcou no treinamento de forças paramilitares antigoverno. A agência também deflagrou uma campanha de “guerra psicológica”, segundo documentos que, mais tarde, vieram à público.
Em junho de 1954, Arbenz caiu para um golpe com apoio americano, levado ao exílio. Carlos Castillo Armas, general colaboracionista, assumiu seu lugar, ao restaurar a posse de terras e concessões a investidores estrangeiros.
Para a Guatemala, Armas foi somente o primeiro de uma série de ditadores alinhados com Washington que, até a década de 1990, mobilizaram um duradouro genocídio contra centenas de milhares de indígenas maias — torturados, estuprados e mortos.
1960: Congo
O Congo — hoje, República Democrática do Congo — ganhou sua independência da Bélgica em junho de 1960, após violentíssimo genocídio, ao eleger Patrice Lumumba, líder panafricano, como seu primeiro premiê.
Documentos da CIA revelaram, mais tarde, que a Casa Branca queria um regime pró-Ocidente no país, dado suas dimensões territórios e seus recursos naturais, mas receava que a nova liderança pudesse acabar alinhada à União Soviética. Lumumba queria permanecer neutro, no entanto, viu-se forçado a buscar assistência de Moscou durante a crise que sucedeu a independência.
O tabuleiro alardeou Washington, ao ponto de o presidente Dwight Eisenhower ordenar o assassinato do mandatário congolês. A CIA passou a financiar uma campanha de propaganda contra Lumumba, além de protestos e séquitos militares.
Em setembro de 1960, Lumumba foi destituído em um golpe comandado por um desses oficiais colaboracionistas, o chefe do exército Joseph Mobutu — posteriormente conhecido como Mobuto Sese Seko. Se a CIA interveio diretamente ou apenas incitou as ações de Mobutu permanece vago.
Em janeiro de 1961, Lumumba foi executado por um esquadrão de fuzilamento, sob supervisão militar belga, com aquiescência tácita dos Estados Unidos e envolvimento do Reino Unido.
Depois disso, Washington manteve apoio ao exército, incluindo Mobutu, que assumiu plenos poderes em um autogolpe perpetrado em novembro de 1965. Mobutu tomou a incumbência de ditador anticomunista até sua morte, em 1997, ao encabeçar um regime marcado por corrupção e violações de direitos humanos.
1963: Vietnã
Os Estados Unidos intensificaram seu envolvimento no atual Vietnã no fim da década de 1950, ao apoiar o governo sul-vietnamita de Ngo Dinh Diem contra a insurgência comunista dos vietcongues, alinhada ao norte.
Todavia, conforme avançou a guerra, Ngo — católico — lançou uma perseguição repressiva contra o budismo no país, tornando-se cada vez mais impopular no Vietnã do Sul. Neste entremeio, diversos monges atearam fogo em seu próprio corpo, como forma de protesto que engendrou imagens históricas.
Soldados americanos hasteiam bandeira nas montanhas de Quang Ngai, no Vietnã, em setembro de 1967 [Arquivo Nacional dos EUA/Divulgação via Middle East Eye]
Com a mudança de regime, Washington expandiu sua presença no Sudeste Asiático pelo restante da década, durante a qual se fermentou a Guerra do Vietnã. Dentre as fatalidades, estima-se ao menos 58 mil soldados americanos e três milhões de vietnamitas, até a derrota e retirada dos Estados Unidos em 1975.
1964: Brasil
Em março de 1964, o Brasil era governado pelo presidente eleito João Goulart, ou popularmente Jango, um nacionalista e desenvolvimentista de esquerda que apoiava uma modesta reforma agrária, e tolerava a participação comunista em sindicatos e no governo.
Apreensivo sob a possibilidade de o Brasil cair sob eventual influência comunista, Washington estabeleceu sua Operação Tio Sam, igualmente clandestina, ao encorajar as Forças Armadas nacionais a realizar um golpe com apoio da Marinha americana. Juntamente de Londres, a Casa Branca apoiou uma campanha anticomunista nos meios midiáticos, no sentido de minar o governo de Jango.
Tanques de guerra em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, em 1964 [Arquivo Público do Distrito Federal/Creative Commons via Wikimedia]
Tanques em frente ao Congresso Nacional (1964).
Foto: Arquivo Público do DF
A economia passou por suposto crescimento no início da década de 1970 — cuja cobrança, no entanto, deu-se pelo colapso fiscal do final da década seguinte e começo dos anos 1990. Como se não bastasse, o Estado assumiu o encargo de assassinar centenas, se não milhares, de dissidentes, com ao menos 20 mil torturados.
Documentos da CIA enfim divulgados em 2018 revelaram que Washington tinha ciência dos abusos no período, mas não vacilou em seu apoio. Em 1976, Goulart morreu subitamente, em um episódio cuja suspeita de envenenamento ainda prevalece.
1965: Indonésia
O Estados Unidos igualmente trabalharam para desalojar o presidente da Indonésia, Sukarno, durante a sangrenta transição ao governo da “Nova Ordem” de Suharto. Sukarno foi pai-fundador do nacionalismo indonésio; liderou o país durante a guerra de independência contra a colonização holandesa, entre 1945 e 1949.
Sukarno governou o país como uma democracia liberal até 1959, quando declarou lei marcial e suspendeu as eleições.
No cenário internacional, tornou-se uma das principais vozes do Movimento Não-Alinhado, constituído por 29 Estados recém-independentes, que buscaram seguir neutros em meio à polarização da Guerra Fria, com encontro inaugural na Conferência de Bandung, em 1955.
Washington, no entanto, desaprovava a tolerância de longa data de Sukarno sobre o Partido Comunista da Indonésia (PKI), assim como sua aliança, embora cautelosa, com a China maoísta. De mesmo modo, viu seus interesses contrapostos por ações da Indonésia no sentido de nacionalizar antigos negócios coloniais.
As primeiras tentativas americanas de minar o governo de Sukarno incluíram armar rebeldes e mesmo bombardear navios comerciais com aeronaves da Civil Air Transport, companhia aérea chinesa controlada pela CIA. Junto do Reino Unido, Washington amparou uma campanha para desacreditar Sukarno, incluindo até mesmo um vídeo sexual falsificado, de acordo com análises posteriores de historiadores.
O fim de Sukarno começou após seis generais indonésios serem assassinados em 30 de setembro de 1965, em atentados atribuídos ao PKI, embora sem provas.
Suharto, então chefe do exército, explorou o caso como pretexto para conduzir expurgos generalizados contra partidários comunistas, além de minorias étnicas, como os chineses. O resultado está na casa de 500 mil a um milhão de mortes no período, marcado pelo que ficou conhecido como o Genocídio Indonésio.
Documentos divulgados décadas depois pela CIA comprovaram apoio a agência aos assassinatos, ao fornecer listas de alvos a esquadrões da morte.
Nos dois anos seguintes, Suharto gradualmente se tornou líder efetivo do país, ao tomar o poder de um Sukarno enfraquecido em 1967, então preso em sua casa. Suharto permaneceu no poder como ditadura pró-Ocidente até sua queda, em 1998. Durante seu governo, atrocidades não minguaram, incluindo assassinatos em massa durante a ocupação do Timor Leste.
1973: Chile
Salvador Allende, político moderado do Partido Socialista, chegou à presidência chilena em novembro de 1970 e logo nacionalizou a indústria nacional de cobre, então comandada por conglomerados americanos. A ação enfureceu Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos, que instruiu a CIA “fazer sofrer a economia [chilena]”.
Em memorando secreto, escreveu um oficial da CIA: “É uma política firme e contínua que Allende deve ser deposto via golpe … É imperativo que tais ações sejam adotadas clandestina e seguramente, para que a mão do governo americano siga bem escondida”.
Bombardeio ao Palácio Presidencial de La Moneda em Santiago do Chile, em 11 de setembro de 1973 [Biblioteca do Congresso Nacional do Chile/Creative Commons via Wikimedia]
Em 11 de setembro de 1973, generais de direita, com apoio da CIA, comandaram tropas que atacaram o governo, ao sitiar a cidade de Valparaíso e bombardear o Palácio Presidencial, onde Allende se refugiou. Nixon tinha plena ciência das ações. Comandantes que assumiram o poder chegaram a dizer que Allende se suicidou sob cerco, embora sua versão dos fatos permaneça contestadas.
O que se seguiu foi 16 anos de ditadura militar sob Augusto Pinochet, que dissolveu o congresso, declarou estado de emergência e supervisionou uma campanha em massa de assassinato e tortura.
Sob a influência dos chamados Chicago Boys, economistas sul-americanos formados nos Estados Unidos, Pinochet liderou também reformas neoliberais, incluindo austeridade, desregulamentação e privatização sem precedentes.
O Chile se tornou uma plataforma da Operação Condor a partir de 1975, pela qual regimes repressivos por todo o continente coordenavam abusos de direitos humanos e perseguição de dissidentes, com aval da Europa e dos Estados Unidos.
1983: Granada
Granada foi uma colônia britânica até sua independência em 1974, mas se manteve parte da Comunidade das Nações.
Em 1979, no entanto, Maurice Bishop, comunista revolucionário e ativista pela libertação dos povos negros, tomou o poder via revolução, com amplo apoio popular. Bishop robusteceu laços com Cuba e União Soviética, incluindo ao desenvolver uma faixa aérea que Washington temia ser usada por aviões de Moscou.
Em 1983, Bishop foi deposto e executado em um golpe liderado por seu próprio vice, Bernard Coard. Paul Scoon, governador-geral e representante britânico na ilha, solicitou então, via canais diplomáticos, uma “ação militar de Estados amistosos”, no pretexto de restaurar a paz em Granada.
O presidente Ronald Reagan respondeu ao enviar oito mil soldados, com apoio de tropas de diversas nações caribenhas. A força-tarefa tomou controle em quatro dias, ao assassinar ao menos 300 soldados granadinos e 24 civis, entre os quais 18 mortos em um hospital bombardeado pelos Estados Unidos.
A invasão indignou a primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, que não fora informada de antemão dos planos americanos, apesar da ilha ainda integrar a Comunidade das Nações. Reagan, mais tarde, desculpou-se com Thatcher — não com Granada —, por telefonema.
1989: Panamá
Em 1989, os Estados Unidos acusaram seu ex-aliado, o presidente panamenho Manuel Noriega, de envolvimento em atividades criminosas, como tráfico de drogas. Para Washington, o país era — e continua a ser — estratégico, por sediar o Canal do Panamá.
Em dezembro de 1989, forças americanas invadiram e sitiaram a Cidade do Panamá, com ao menos 514 mortos, sobretudo civis, segundo números conservadores do Departamento de Estado. Fontes locais apontam, contudo, para enorme subnotificação.
Guillermo Endara foi empossado presidente ainda em uma base militar dos Estados Unidos, logo na primeira noite da operação.
Noriega buscou asilo na missão diplomática do Vaticano na capital panamenha, cercado por tropas americanas que se utilizaram de sons altos para compeli-lo a sair. Eventualmente, em 3 de janeiro de 1990, Noriega se rendeu, após 11 dias de sítio. A data curiosamente coincide com o sequestro pelos Estados Unidos do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, trinta e cinco anos depois.
Em solo americano, Noriega foi considerado culpado por tráfico de drogas, extorsão e lavagem de dinheiro, encarcerado até sua morte em 2017.
Em seu discurso inaugural do segundo mandato, em janeiro do ano passado, o atual incumbente americano Donald Trump ressaltou: “A China é quem está operando o Canal do Panamá, mas nós não demos ele à China [sic], nós demos ao Panamá, e vamos tomar de volta”.
2001: Afeganistão
Após os atentados da al-Qaeda contra os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, o presidente George W. Bush exigiu do Talibã, que governava o Afeganistão, a fechar todos os campos do grupo no país, bem como a extraditar seu líder, Osama bin Laden.
Washington tinha um relacionamento com o Talibã: duas décadas antes, junto do MI6 britânico, efetivamente armou o movimento para combater os soviéticos, que invadiram o país em 1979.
Todavia, quando o Talibã recusou o pedido de Bush, este ordenou sua invasão ao país, em outubro de 2001, ao depor o governo e instaurar um regime interino sob o colaboracionista Hamid Karzai, que permaneceu no poder entre 2002 e 2014. Bush igualmente manteve tropas em todo o país.
Em 2003, o Talibã se reagrupou e lançou uma insurgência bem-sucedida. Na década seguinte, o envolvimento do exército americano e aliados no Afeganistão se entrincheirou cada vez mais; no entanto, sem grandes resultados.
Um acordo de paz foi assinado em fevereiro de 2020 e a retirada de forças ocupantes enfim ocorreu no ano seguinte. Neste entremeio, em um intervalo de duas décadas, cerca de 200 mil afegãos e 2.600 membros da coalizão americana morreram.
Na ausência dos Estados Unidos, o Talibã logo retomou as partes remanescentes do país, incluindo Cabul, a capital, onde restabeleceu poder.
2003: Iraque
Em 1991, uma coligação encabeçada pelo Pentágono derrotou o Iraque, sob seu ex-aliado Saddam Hussein, após este invadir o Kuwait. Saddam, porém, seguiu no poder. No decorrer da década seguinte, Washington e Londres não cessaram em alegar apreensões sobre os objetivos militares do regime em Bagdá.
Após o 11 de setembro, o Iraque foi acusado de manter laços com a al-Qaeda, bem como posse de armas de destruição em massa. Uma inspeção das Nações Unidas não encontrou qualquer evidência de tais armamentos.
Ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein, durante julgamento em Bagdá, em 1º de julho de 2004 [Força Aérea dos Estados Unidos/Creative Commons via Wikimedia]
Ainda assim, o Pentágono e sua “coalizão da boa-vontade” invadiu o Iraque, em 20 de março de 2003, e destituiu Saddam no período de um mês. O ex-presidente foi capturado meses depois, no fim do ano, e executado em 2006. Contudo, assim como no Afeganistão, uma insurgência generalizada se seguiu, incluindo o advento da organização terrorista Estado Islâmico — conhecida em árabe pelo acrônimo Daesh.
Os Estados Unidos deixaram oficialmente o Iraque em 2011, embora tenha aumentado suas tropas no fim de 2014 sob o pretexto do Daesh. Washington ainda mantém batalhões e bases no país, em suposto apoio ao governo iraquiano.
2004: Haiti
O Haiti foi submetido a mudanças de regime por ações americanas em diversas ocasiões, como na ocupação do país entre 1915 e 1934.
Em 2004, a CIA novamente se envolveu em um golpe: desta vez, ao remover da presidência Jean-Bertrand Aristide, padre de esquerda filiado ao grupo conhecido como Teologia da Libertação, que convocou eleições livres e desmantelou o exército, comprometido há décadas com violações de direitos humanos.
Arisitide, democrata, fora presidente na década de 1990, quando a CIA financiou secretamente esquadrões da morte, com centenas de mortos dentre seus apoiadores.
Em 2004, Aristide assumiu medidas para investir em educação e saúde pública e aumentar o salário-mínimo, contrariamente a apelos por austeridade do Banco Mundial. Aristide também reivindicou US$21 bilhões em indenização da França, antiga metrópole colonial que devastou o país.
O golpe contra Aristide foi encomendado por Washington e Paris, de acordo com o embaixador francês na época, Theirry Burkard. Apesar da negativa americana, evidências sugeriram que os perpetradores do golpe receberam treinamento de Forças Especiais dos Estados Unidos na vizinha República Dominicana.
Após semanas de violência, Aristide foi deposto, em 29 de fevereiro de 2004; segundo ele, obrigado a renunciar sob a mira de um fuzil, antes de ser sequestrado pelo exército americano e transferido à República Centro Africana, onde seguiu exilado até 2011.
Desde o golpe de 2004, o Haiti jamais se estabilizou — até hoje, o país mais pobre do Hemisfério Ocidental.
2026: Venezuela
A Venezuela possui a maior reserva de petróleo conhecida do mundo. Washington investiu pesadamente em sua extração nos anos de 1960. Desde a nacionalização dos recursos, na década seguinte, não vacilou em pressionar lideranças venezuelanas por maior acesso e exploração.
Relações entre as partes permaneceram tensas. Washington se viu principal suspeito de arquitetar uma tentativa fracassada de golpe contra Hugo Chávez, predecessor de Maduro, em abril de 2002. Em 2019, tentou instaurar o oposicionista Juan Guaidó — não-eleito — no lugar de Maduro, mas a operação novamente fracassou, bem como um complô de 2020 mediante mercenários, incumbidos de levá-lo aos Estados Unidos.
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cília Flores, escoltados por soldados americanos no heliporto de Wall Street em Manhattan, Nova York, nos Estados Unidos, em 5 de janeiro de 2026 [Stringer/Agência Anadolu]
Em 2024, o Departamento de Estado concedeu reconhecimento diplomático ao ex-presidenciável Edmundo Gonzalez, no exílio, ao citar indícios de que a eleição de Maduro fora fraudulenta.
Em 3 de janeiro de 2026, forças americanas finalmente invadiram Caracas, ao bombardear postos da Força Aérea e sequestrar Maduro e sua esposa, Cília Flores. Trump demandou da Venezuela ao menos US$2.8 bilhões em recursos de petróleo — supostamente “roubado” dos Estados Unidos.
Maduro agora enfrenta acusações em Nova York por “narcoterrorismo”. Delci Rodriguez, ua vice, contudo, foi empossada. O futuro do país continua incerto.
Publicado originalmente em inglês pela rede Middle East Eye em 13 de janeiro de 2026
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.
![Bandeira dos Estados Unidos no Capitólio, em Washington DC, em 24 de setembro de 2025 [Yasin Öztürk/Agência Anadolu]](https://www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2026/01/AA-20250924-39217031-39217030-THE_UNITED_STATES_CAPITOL_BUILDING.webp)