O declínio da estratégia imperialista contra o Irã

Sayid Marcos Tenório
2 minutos ago

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Manifestantes atendem chamado de Teerã por protestos contra eventual intervenção dos Estados Unidos, na praça Enghelab da capital, em 12 de janeiro de 2026 [Fatemeh Bahrami/Agência Anadolu]

Entre 28 de dezembro de 2025 e 8 de janeiro de 2026, o Irã foi atingido por uma série de atentados, sabotagens e ações violentas em seu território. Explosões, assassinatos seletivos, ataques a infraestruturas e operações cibernéticas deixaram centenas de mortos e um rastro de destruição, criando deliberadamente um clima de medo e instabilidade social.

Esses acontecimentos não foram espontâneos. Inserem-se no padrão clássico das operações secretas de desestabilização, historicamente associadas à atuação da CIA e do Mossad, como parte da guerra híbrida conduzida contra Estados que resistem à ordem imperialista e sionista.

Foi nesse ambiente artificialmente inflado que Donald Trump voltou a ameaçar um ataque militar direto dos Estados Unidos contra o Irã. Essas ameaças, porém, não foram nenhuma novidade, mas a continuidade de uma estratégia de coerção multidimensional, cujo objetivo permanece o mesmo há décadas: enfraquecer internamente o Irã e desmontar sua soberania política.

Guerra econômica, sanções, intimidação militar, operações secretas, manipulação da informação, isolamento diplomático e deslegitimação política têm sido amplamente empregados por Israel e Estados Unidos. Quase todas as ferramentas do arsenal imperialista e sionista foram utilizadas, com exceção de uma invasão em larga escala. O que se observa hoje, no entanto, não é uma estratégia verdadeiramente eficaz, mas uma escalada alimentada pela frustração e pelo declínio estrutural do poder de Washington.

Apesar da intensidade da ofensiva, o objetivo central fracassou. O Irã não colapsou. Seu sistema político segue funcional. Sua postura estratégica permanece intacta. Suas instituições resistiram. Mais do que isso, a soberania nacional continua sendo um fator de coesão, mesmo diante de tensões internas. A chamada “mudança de regime” por coerção externa mostrou-se politicamente inviável.

É nesse ponto que se explica o recuo, ainda que temporário, da ameaça de ataque direto. Não se trata de prudência nem de respeito ao direito internacional. O fator decisivo é outro: um ataque dos Estados Unidos ao Irã colocaria o regime sionista diante de perdas potencialmente catastróficas.

A experiência recente já deixou isso evidente. Na guerra dos 12 dias, em junho de 2025, a resposta iraniana atingiu profundamente os territórios palestinos ocupados, expondo as limitações reais dos sistemas de defesa antimísseis israelenses. Desde então, o Irã deixou claro que qualquer nova resposta será superior em alcance, intensidade e duração.

O fato central é simples e incômodo: Israel não está em condições de se defender de uma campanha prolongada de mísseis iranianos. Sistemas como Domo de Ferro, Flecha e Estilingue de Davi foram concebidos para cenários limitados, não para ataques massivos, sustentados e com saturação contínua. Em um novo confronto, centros urbanos, infraestruturas estratégicas, bases militares e polos econômicos estariam diretamente expostos e seriam destruídos.

Nesse cenário, o risco deixa de ser apenas militar e assume caráter existencial. Um conflito aberto com o Irã poderia abalar os pilares do projeto sionista, cuja sobrevivência depende da percepção de superioridade militar permanente e da capacidade de manter a guerra longe de seu próprio território. Pela primeira vez de forma explícita, a guerra retornaria ao coração do regime de ocupação.

Os Estados Unidos compreendem essa equação. Trump, cuja lógica política privilegia golpes rápidos e midiáticos, não demonstra disposição para sustentar uma guerra longa, regionalizada e de desfecho imprevisível. Um ataque inicial poderia ocorrer, mas a resposta iraniana arrastaria Washington e Tel Aviv para um conflito fora de controle.

O adiamento do ataque, portanto, não representa abandono da opção militar, mas um ajuste tático. As sanções continuam. A pressão política permanece. A militarização da região se intensifica. As operações encobertas seguem como instrumento privilegiado de desgaste.

A realidade, porém, é cada vez mais clara: a coerção imperialista não produz obediência. Produz resistência, escalada e instabilidade regional. O poder imperial dos Estados Unidos pode impor sofrimento, mas não pode subjugar indefinidamente uma sociedade cuja legitimidade se funda na independência, na resistência e na dignidade nacional.

É por isso que a guerra anunciada não aconteceu. Não por paz, mas por limite.

Por enquanto.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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