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Ministro saudita do Hajj proíbe ‘slogans políticos’, alimenta críticas

Redes sociais ligadas ao governo da Arábia Saudita responderam com ataques a cidadãos que criticaram os comentários do ministro do Hajj e Umrah, Tawfiq al-Rabiah
Preparativos para o Hajj, peregrinação islâmica, em torno da Caaba, em Meca, Arábia Saudita, em 13 de junho de 2024 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]

O ministro do Hajj e Umrah da Arábia Saudita, Tawfiq al-Rabiah, enfrenta uma onda de críticas por dizer que o reino não permitiria “slogans políticas” durante a peregrinação islâmica, o Hajj, em aparente alusão a atos de solidariedade a Gaza em meio ao genocídio de Israel.

Al-Rabiah disse a repórteres em Riad que o Hajj é “uma forma de culto e que, ansiosos pela paz, desejamos garantir que todos realizem seus ritos sem dificuldades”. Então, acrescentou: “Deste modo, vale dizer que o Hajj é uma forma de culto e não um lugar para slogans políticos e é isso que a liderança do reino quer assegurar — que o Hajj contenha as mais altas manifestações de humildade, tranquilidade e espiritualidade”.

Os comentários atraíram a indignação de muitos usuários das redes sociais, que questionaram o palavreado vago de seus comentários, em aparente forma de dissuadir os fiéis de buscar algum tipo de catarse e difundir solidariedade em torno do sofrimento do povo palestino.

“O Islã é uma maneira de viver. Não há divisão entre a parte política e religiosa no Islã. O Profeta Muhammad discutia questões políticas e estratégicas nas mesquitas”, observou um usuário. De acordo com outro, o Hajj é momento de refletir sobre a essência de ser muçulmano, inclusive o imperativo de “agir contra a opressão”.

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Outros ainda observaram que, apesar de ser um peso pesado na geopolítica regional, o reino da Arábia Saudita preferiu manter uma postura diplomática ambígua, que prejudicou, na prática, a autoridade ética e religiosa da família real como custódios das Duas Mesquitas Sagradas.

“Diante do holocausto em curso em Gaza, o silêncio do regime saudita é absurdo a qualquer ser humano, sobretudo muçulmanos”, criticou uma postagem.

Ruínas de Khan Yunis, após bombardeios de Israel, na Faixa de Gaza, 14 de junho de 2024 [Doaa Albaz/Agência Anadolu]

Alguns citaram até mesmo dois pesos e duas medidas, dado que as instruções do ministro para evitar “problemas políticos” certamente não serão aplicadas em caso de exaltações ao príncipe herdeiro e governante de facto, Mohammed Bin Salman.

O analista político Sami Hamdi questionou os comentários de Rabiah: “O que isso significa? Não discutir o genocídio em Gaza na Casa de Deus?”

Em resposta, a rede Inside the Haramain, conta oficial ligada a notícias sobre as Duas Mesquitas Sagradas, reiterou: “Orar pelos palestinos, sobretudo nossos irmãos em Gaza, não está proibido; isso é completamente falso. O que está proibido é incitar slogans políticos, não importa país ou região. APENAS o dhikr [pronunciamento] de Deus pode se manifestar nas Duas Mesquitas”.

A conta, no entanto, atacou Hamdi, ao alegar que a guerra em Gaza é comumente abordada às sextas-feiras, durante os sermões, assim como nas preces realizadas no mês do Ramadã, dentre março e abril. “Esperamos que o senhor entenda esta regra básica, mas sabemos que seu ódio supera os fatos e a verdade [sic]”.

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Após o embate, a página manteve sua agressão a Hamdi, ao forçar a Associação Muçulmana da Grã-Bretanha a intervir, mediante uma célebre citação do Profeta Muhammad: “Foi dito: ‘Quem são os Ruwaibidah?’ Afirmou o Profeta: ‘Homens vis e simplórios que controlam os assuntos do povo’”.

Nos últimos meses, conforme relatos, autoridades sauditas intensificaram sua repressão contra cidadãos críticos aos massacres israelenses em Gaza, à medida que um acordo de normalização continua sobre a mesa. Em maio, autoridades prenderam um empresário e uma personalidade da mídia por expressarem pontos de vista “incendiários” sobre Israel e pedirem boicote a redes de fast-food dos Estados Unidos radicadas no reino.

Ataques à liberdade de expressão são comuns na Arábia Saudita desde que Bin Salman chegou ao poder, em 2017.

Publicado originalmente em inglês pela rede Middle East Eye, em 7 de junho de 2024.

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