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O que escreveria Anne Frank em seu diário, caso não tivesse sido vítima de um genocídio?

Anne Frank em Amsterdã, Holanda, em 1940 [Wikimedia/Reprodução]

“À noite, quando o mundo é engolido pela escuridão, vislumbro cenas angustiantes de longas filas de pessoas boas e inocentes, crianças chorando, sendo empurradas e maltratadas por poucos homens cruéis. Ninguém escapa desse destino. Doentes, idosos, crianças, bebês e mulheres grávidas — todos são forçados a marchar em direção à morte.”

Embora a angústia contida nas palavras possa parecer uma imagem dos dias atuais, trata-se de uma passagem do diário de Anne Frank, a jovem cujos medos e lembranças deram rosto aos perpetradores do Holocausto nazista e voz para que suas vítimas não fossem caladas.

Com suas palavras, Anne Frank tentou nos alertar e impedir que tais atrocidades se repetissem. No entanto, é como se nossa memória tivesse sido enterrada junto com ela em uma cova coletiva, onde, junto com os inocentes, jaz também nossa empatia, nosso senso de justiça e, acima de tudo, nossa humanidade. Hoje, Anne completaria 95 anos se um genocídio não tivesse roubado os sabores e dissabores de uma vida. É triste pensar que, se aquela menina pudesse ver o novo genocídio que observamos através das telas de nossos smartphones, talvez morresse de novo. Morreria de desgosto ao saber que suas palavras, lançadas ao vento, foram ofuscadas por novos atos de crueldade, revelando que os homens ainda são capazes de se transformar nos mesmos monstros que um dia os assombraram.

No seu último aniversário, aos 15 anos, escreveu: “Recordo uma época em que um céu azul magnífico, pássaros cantando, luar e flores em botão não me cativavam. As coisas mudaram desde que vim para cá.” Anne era jovem, sua “liberdade foi gravemente restringida com uma série de decretos”, mas não o suficiente para impedi-la de voar por suas memórias e valorizá-las com o apreço merecido: “Para mim, as lembranças são mais importantes do que os vestidos.”

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Hoje, ao lembrarmos os 70 anos que lhe foram roubados, deveríamos honrá-la pensando em como suas palavras e suas dores continuam tão atuais e intensas quanto foram nas últimas sete décadas. Anne Frank, que enfrentou a perseguição e o genocídio, entenderia profundamente a dor da opressão e da perdFa. Quantas jovens Annes, neste exato momento, não estão escrevendo em seus diários pensamentos semelhantes aos dela em 1943?

“Eu poderia passar horas contando a você o sofrimento trazido pela guerra, mas só ficaria aFinda mais infeliz. Só podemos esperar, com toda a calma possível, que ela acabe.”

“As pessoas não têm praticamente nada para comer e menos ainda para beber, já que só existe água uma hora por dia, e há somente um banheiro e uma pia para vários milhares de pessoas.”

“Me sinto aterrorizada com a possibilidade de nosso esconderijo ser descoberto e sermos mortos a tiros.”

“Fico apavorada quando penso em amigos íntimos que agora estão à mercê dos monstros mais cruéis que já assolaram a terra.”

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Quem, como Anne, conheceria melhor a dor de encarar a morte diariamente? Quem compreenderia melhor o terror de dormir sem saber se vai acordar no dia seguinte? Quem sentiria mais intensamente a angústia daquelas cujas vidas são soterradas pela crueldade?

“Os canhões ficaram disparando até o amanhecer. Ainda não superei meu medo de aviões e tiros, e me arrasto até a cama de papai quase todas as noites, em busca de conforto. Sei que parece criancice, mas espere até isso acontecer com você!”

Se Anne Frank pudesse envelhecer, talvez hoje ela se visse no espelho como uma sobrevivente de um passado distante, não tão distante para ser esquecido e não tão recente para não ser novamente cometido. Talvez repetisse as palavras que confidenciou a velha amiga de claustro, seu diário: “Me deixem em paz, deixem que eu tenha pelo menos uma noite sem chorar até dormir com os olhos ardendo e a cabeça latejando. Deixem que eu vá embora, embora de tudo, embora deste mundo!”

Anne Frank acreditaria que estamos cometendo os mesmos erros do passado? Que permitimos que as mesmas atrocidades se repetissem? Que uma vez mais, autorizamos um genocídio? Genocídios são genocídios, não reconhecem fronteiras, não distinguem cores, credos ou ideologias; são a aniquilação indiscriminada de seres humanos e da própria humanidade.

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“Vejo o mundo transformar-se gradualmente em uma selva. Sinto que estamos cada vez mais próximos da destruição. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá, voltarão a paz e a tranquilidade. Enquanto isso, é necessário que mantenha firme meus ideais, pois talvez chegue o dia em que os possa realizar.”

Gosto de pensar que, aos 95 anos, Anne Frank usaria suas palavras para desafiar a consciência global, lembrando-nos que a história não deve ser um ciclo de repetição, mas uma lição de aprendizado e evolução moral. Se aos 14 anos ela se perguntou, “Será que alguém, independentemente de ser judeu ou cristão, continua quieto diante da pressão dos alemães?”, talvez hoje ela reescreveria essas mesmas frases, trocando apenas o nome do opressor. Suas palavras, tão reais e atemporais, nos convocam a não ignorarmos o passado e permitirmos que o mesmo silêncio nos envergonhe no futuro.

Em memória de Anne Frank e de todas as vítimas de todos os holocaustos, incluindo os milhares que ainda serão feitas até o fim do atual ciclo de atrocidades na Palestina.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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