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O recheio do crime: O massacre de Israel aos refugiados de Rafah

Palestinos diante da destruição de tendas por um bombardeio israelense a um campo de refugiados em Rafah, no extremo sul de Gaza, em 27 de maio de 2024 [Ali Jadallah/Agência Anadolu]

Foi como testemunhar um menino que mata um passarinho e então pede desculpas insinceras. O porta-voz do exército israelense, vice-almirante Daniel Hagari, sequer se esforçou para clamar inocência, ou para explicar a morte indulgente de mais e mais civis palestinos por outro ataque de suas forças. “Apesar de nossos esforços para minimizar as baixas civis, o incêndio que eclodiu foi inesperado … Nossa investigação busca determinar o que pode ter causado tamanho fogo”, alegou Hagari.

Tudo começa com a massa amorfa de sempre. O ataque, resultando em mortes em um campo de refugiados palestinos de Gaza, em Tal Al-Sultan, foi sobriamente planejado e realizado de forma profissional. Foi também bem-sucedido. Dois “terroristas” do grupo Hamas foram “eliminados” de maneira cirúrgica. Nas redes sociais, o exército israelense orgulhosamente pões as palavras sobre a cabeça de Yassin Rabia e Khaled Nagar — jamais julgados por seus supostos crimes. “O ataque foi embasado em inteligência precisa”, insistiu Hagari. Aqueles mortos, em troca, haviam matado israelenses, acrescentou. “Suas mortes salvaram vidas”.

Longe de qualquer autorreflexão por parte de Hagari, seus comentários de 26 de maio mostram que os civis palestinos são, para Israel, mero detrito, fundamentalmente dispensáveis. A chacina é agora questão de estatística: 46 mortos, incluindo 23 mulheres, crianças e idosos. Tudo isso na minúscula faixa de território restante, que logo se torna o mais famoso campo de extermínio do planeta. Mesmo descartando a provável subnotificação, devido à escassez de recursos, a taxa de mortos civis parece particularmente cruel para neutralizar dois supostos terroristas.

Em um comunicado de 29 de maio, divulgado pelo Alto-comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, vários relatores, incluindo Francesca Albanese, responsável pela situação de direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, e Ben Saul, incumbido de direitos civis e direitos humanos na luta contra o terrorismo, expressaram assombro. “Imagens aterradoras de destruição, deslocamento e morte emergiram de Rafah — incluindo crianças desmembradas e pessoas queimadas vivas”. De acordo com os especialistas, “os ataques foram indiscriminados e desproporcionais, com pessoas presas em tendas de plástico tomadas pelas chamas, levando a uma série de mortes horríveis”.

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Israel recebeu inúmeros alertas de entidades internacionais, políticos e simpatizantes, com cada vez mais urgência, de que seus esforços assassinos simplesmente não valem a pena. O front de Rafah apresenta riscos calamitosos. As baixas, sobretudo nos campos para civis deslocados por sucessivos bombardeios anteriores, seriam grandes demais. O revés reputacional, também. Os massacres que lotam os necrotérios, os corpos de mulheres e crianças que parecem multiplicar-se com uma crueldade pestilenta, os incidentes de pura vilania com um verniz de eufemismo — tudo isso nas palavras: Atacamos e atacamos bem, o resto é colateral.

O Tribunal Internacional de Justiça, em mais uma ordem sobre a campanha israelense em Gaza, recentemente concluiu que a ofensiva militar a Rafah, “junto de qualquer outra ação na região de Rafah, capaz de impor condições de vida aos palestinos de Gaza de destruição física, seja em parte ou no todo, devem ser suspensas imediatamente”. A corte em Haia também ordenou Tel Aviv a abrir a travessia de Rafah, permitir a entrada de oficiais da ONU e apresentar um relatório sobre eventuais melhorias dentro de um mês. Observou também que “centenas de milhares de pessoas estão sob iminente risco de fome” — risco que “já começou a se materializar e deve se intensificar ainda mais caso a operação continue”.

Políticos e militares de Israel — ao menos aqueles que carecem de candura — sempre recorrem à mesma fórmula em tais situações. Trata-se de algo previsto pelo falecido Robert Fisk: pretexto da violência sob um processo aparentemente são, a decência como o recheio do crime. Pupilo treinado nesses esforços é o premiê Benjamin Netanyahu: “Apesar de nossos melhores esforços para não ferir civis inocentes, na noite passada, ocorreu um erro trágico”. Contraposto a outras declarações na qual equiparou os palestinos como agentes intrínsecos à “causa terrorista”, cuja natureza traria nada mais que um “Estado terrorista”, o elemento de equívoco ganha ares muito menos relevantes do que o ensejo em concluir a tarefa em mãos.

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O próximo passo da performance envolve o inquérito mandatório que jamais vê perpetradores, acusações ou indiciamentos. “Os detalhes do incidente ainda estão sob investigação … Estamos comprometidos em conduzi-la extensivamente”, insistiu o major-general Yifat Tomer-Yerushalmi a jornalistas, ao “lamentar eventuais danos a não-combatentes no curso da guerra”.

A fórmula é também aprovada pelo mais contumaz apoiador de Israel. “Não é possível chegar a conclusões sobre os resultados dessas investigações no meio de um conflito”, gaguejou o porta-voz de Segurança Nacional da Casa Branca, Jack Kirby. E por que — poderiam questionar — isso importa então?

A resposta israelense à operação transfronteiriça do grupo Hamas em 7 de outubro, cada vez mais enredada em sua própria realidade cruel, há muito tempo já transcendeu o reino da farsa. Mas farsa e propaganda são parte do mesmo espetáculo e o falatório incessante sobre a campanha em curso em Gaza, conduzida pelas forças de Israel, continua a entornar o balde de lavagem.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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