Conselho Europeu de Muçulmanos trabalha para ajudar a todos, afirma presidente

Os muçulmanos são bem estabelecidos em toda a Europa. Muçulmanos do Leste Europeu estão no continente há séculos. Uma notável comunidade islâmica existe no Reino Unido desde o fim do século XIX.

Os estados modernos da Europa permitiram aos muçulmanos que construíssem um lar ao lado da sociedade local e, salvo exceções, jamais os impediram de praticar e preservar sua fé e suas tradições, como parte dos conceitos de pluralismo étnico-cultural consagrados nos alicerces da democracia liberal. Defensores deste sistema dizem que a diversidade dá força à sociedade.

Embora os muçulmanos no Ocidente enfrentem desafios diversos, seus representantes lideram esforços para desenvolver a infraestrutura da comunidade, reuni-la e integrá-la, ao apresentar uma mensagem unívoca de princípios favoráveis aos direitos humanos, políticos e civis.

A Federação de Organizações Islâmicas da Europa (FIOE) foi fundada no Reino Unido no final de 1989, por estudantes egípcios da diáspora, que correram em massa às universidades ocidentais devido à disputa entre a Irmandade Muçulmana e o falecido presidente Gamal Abdel Nasser. A associação possuía uma assembleia geral, um conselho de shura e um escritório executivo. Seus ramos desenvolveram um programa de 20 anos e um grupo de instituições filiadas em estados não-europeus. Fortes relações foram criadas junto de órgãos oficiais da Europa, entre os quais, a União Europeia.

Contudo, tais laços formais não impediram o advento de desafios no decorrer dos anos – senão pela posição da federação islâmica sobre a questão palestina e a ocupação israelense, por lutas políticas entre forças islamitas e regimes estabelecidos no mundo árabe. A FIOE foi rebatizada e se tornou o Conselho Europeu de Muçulmanos (CEM).

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A rede Arabi21 entrevistou seu presidente, Abdallah bin Mansour, para tratar da natureza e dos desafios da organização, assim como o discurso que guia seu trabalho.

Adel Al-Hamdi: Vamos começar a falar do Conselho Europeu de Muçulmanos. O que é? Quem ele representa? Trata-se de uma ramificação da federação islâmica?

Abdallah Bin Mansour: Deus seja louvado. Que a paz esteja sobre nosso Profeta Muhammad, sua família e seus amigos. Muito obrigado por me convidar.

Sim, o Conselho Europeu de Muçulmanos era antes conhecido como Federação de Organizações Islâmicas da Europa. A única coisa que mudou foi seu nome, pois queríamos remover o termo “organizações” devido a sua compreensão diversa no continente e suas diferentes conotações no mundo árabe. Mudamos o nome para evitar confusão. Foi proposto o nome “Muçulmanos da Europa”, mas voltaremos nisso depois. O conselho é uma ramificação da federação islâmica; os membros veem de 27 países europeus, desde Rússia a leste a Irlanda a oeste, Suécia ao norte e Espanha ao sul.

AAH: O CEM preservou a diversidade de seus membros? Há membros com diferentes pontos de vista ideológicos ou a organização adota uma única escola de pensamento?

ABM: Muitos daqueles que criaram a federação eram membros da Irmandade Muçulmana em seus países de origem. São graduados da escola da Irmandade no mundo árabe e mantiveram o caminho intelectual de suas raízes até fundar a federação.

Contudo, conforme desenvolvemos nossos esforços, o elemento europeu se tornou mais e mais proeminente, apesar do fato de que alguns fundadores conservarem seu vínculo de afeto com suas terras natais. No entanto, seria equivocado dizer que a federação era uma extensão direta da Irmandade Muçulmana. Durante meu mandato como presidente, enfatizei que somos uma instituição europeia, registrada em Paris, e que todas as organizações filiadas são radicadas em algum país da Europa. Trata-se de requisito para a filiação.

A escola prevalecente continua a ser o que acadêmicos chamam de “escola da Irmandade”, não como uma organização, mas como alicerce de nosso comportamento moderado. A maior parte dos muçulmanos ao redor do mundo concorda que o Islã é um modo de vida comedido com sua mensagem universal. Temos membros de diversas nacionalidades; alguns são salafitas adeptos de sua ideologia; outros pertencem aos movimentos tahrir e tablighi; outros, é claro, tem raízes na Irmandade Muçulmana. O que nos une é nossa presença na Europa.

 AAH: Vocês têm um mapa da distribuição dos muçulmanos no continente europeu?

ABM: Temos uma imagem clara de como estão distribuídas as minorias islâmicas na Europa. Há 65 milhões de muçulmanos europeus – um número enorme – basicamente divididos em quatro categorias:

 

  1. Muçulmanos de origens europeias, sobretudo dos Balcãs e do Leste Europeu, incluindo comunidades na Bulgária e na Rússia. Conforme dados oficiais russos, há 26 milhões de muçulmanos no país, mas cremos se tratar de aproximadamente 40 milhões de pessoas. São muçulmanos cujos ancestrais são europeus.
  2. Muçulmanos que viajaram à Europa após a Segunda Guerra Mundial, naturalizados, isto é, cidadãos dos países onde residem. Seus filhos também detêm esta cidadania.
  3. Europeus convertidos ao Islã, cujos números crescem dia após dia, sob a média diária de 365 novos muçulmanos. A França sozinha tem ao menos 80 novos muçulmanos por dia, então trata-se de um grupo que consideramos como muçulmanos da Europa.
  4. Por fim, novos imigrantes, incluindo estudantes, diplomatas, emissários e trabalhadores temporários.

 

A lista não acaba aí, naturalmente. Há diversas subcategories.

Em termos de ramificações islâmicas, há ao menos quatro escolas ideológicas: a mais popular se refere à Irmandade Muçulmana; então, salafitas, cujo crescimento depende de apoio financeiro do Golgo. A seguir, os tablighis, sobretudo no Reino Unido, de raízes no subcontinente indiano e impacto profundo na prática e na imagem do Islã em toda a Europa. Por fim, adeptos da escola tahrir, que chamamos de “alternativa política”. Estas são as escolas ideológicas representadas pelas comunidades islâmicas na Europa. Apesar das diferenças, há semelhanças consideráveis.

AAH: Vocês têm informações sobre classe e formação intelectual dos muçulmanos na Europa?

ABM: Os muçulmanos estavam em uma condição econômica mais vulnerável que a média nos respectivos países duas décadas atrás, mas a situação é bem melhor hoje. Muitos muçulmanos na Europa constituem a chamada classe média e trabalham no setor de saúde, em particular, na França e na Alemanha, além dos setores de educação e empreendimento. Muitos trabalham no setor de turismo, na imprensa ou no mercado editorial. Tudo isso permitiu algum protagonismo econômico às minorias islâmicas na Europa.

AAH: Então os muçulmanos na Europa não estão mais à margem da sociedade?

ABM: Ao contrário, os muçulmanos na Europa, em geral, não mais dependem das comunidades onde vivem, mas contribuem com suas respectivas economias de forma significativa.

AAH: Podemos dizer que há um Islã europeu.

ABM: É claro que há um Islã europeu. Sim, há constantes na fé, como nossos deveres e práticas de culto, mas há diferenças de abordagem. Por exemplo, minhas roupas são francesas; respeito as constantes do Islã, mas me visto como um europeu. A forma como organizo minha casa, me refiro às pessoas, mesmo minhas orações são minhas e não perturbam ninguém. Respeito meus vizinhos quando acordo nas primeiras horas da madrugada durante o Ramadã, por exemplo. Eu cumpro minhas obrigações com Deus e com o próximo, sem jamais comprometer um ou outro.

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O Islã é nossa religião e a Europa é nossa casa; temos de agir de acordo. Não a conflito entre as partes. Problemas podem surgir, é natural que surjam em qualquer momento ou lugar; porém, temos soluções, exercemos o Islã e convidamos nossos vizinhos à fé sem jamais provocá-los ou invadir seu espaço.

AAH: Há uma retórica e abordagem islâmica notoriamente voltada à Europa?

ABM: Acredito que sim. Por exemplo, não demandamos que se aplique a lei de sharia em todo o continente; porém, aplicamos as leis islâmicas a nossa vida pessoal. Tampouco exigimos que os governos o façam. Somos uma minoria religiosa que quer apenas exercer nossa fé. Não damos sermões ou insultamos cristãos, judeus, budistas e mesmo secularistas. Não os chamo à minha religião de forma missionária ou invasiva, mas sim pelo meu comportamento. Não faço apelos por violência tampouco apoio jihadistas que ameaçam a segurança de pessoas inocentes. Não tenho nenhuma hostilidade a qualquer país árabe ou islâmico, embora alguns regimes me sejam hostis. Quero boas relações com todos, tanto com o mundo árabe e islâmico quanto com meus vizinhos europeus.

Caso eu receba um convite oficial de um país árabe e islâmico, antes de responder, consulto o país onde resido. Por exemplo, eu participei de uma conferência em um país do Golfo na época das charges ofensivas ao Profeta Muhammad, que a paz esteja com ele. O evento pedia boicote a produtos franceses e questionaram minha opinião. De imediato, deixei o salão e me recusei a responder à pergunta, pois não me cabe pedir boicote à França; afinal, é o meu país. Nós temos uma responsabilidade sobre nossa cidadania, temos de respeitá-la; naturalmente, é assim que abordamos os assuntos em comum.

AAH: Há um entendimento de que o Islã na Europa seja relacionado ao caráter único de uma fé “abraâmicas”, como se referem apelos mais recentes?

ABM: Não, absolutamente não. Não temos nada a ver com isso. Praticamos nossa fé na Europa há mais de 40 anos. Uma suposta crença “abraâmica” unificada é um projeto que busca lesar o movimento islâmico, como uma alternativa persuasiva à nossa religião. Houve algum foco em alternativas sufistas que funcionou durante anos, mas sem o alcance necessário. Desta forma, alguns detratores se voltaram à Palestina ocupada para encontrar uma “religião” sobre a qual cristãos, muçulmanos e judeus poderiam concordam, com intuito de diluir o Islã. Trata-se de um projeto sem futuro. Temos orgulho de nossa religião, mas mantemos um comportamento que respeite os países europeus onde vivemos. É esta a abordagem civilizada do Islã.

Portanto, falar de uma única religião não é realista. Nenhum muçulmano, judeu ou cristão foi consultado sobre o assunto. A você, sua crença; a mim, a minha. Este é o modo islâmico de vida e convivência. Sob os preceitos de Deus, somos todos iguais.

AAH: Alguns dizem que a abordagem moderada dos muçulmanos da Europa é mais leal à coroa que o próprio rei. Isto é, que defendem a Europa mais do que a Europa defende a si mesmo. No entanto, o Islã ainda é tratado com discriminação e medo. O que acontece?

ABM: Nós, muçulmanos, enfrentamos quatro desafios no Ocidente contemporâneo. Primeiro, um movimento sionista ativo que vê os muçulmanos na Europa como maiores os apoiadores da causa palestina, em antagonismo direto aos judeus ocidentais como maiores os apoiadores do estado sionista. Portanto, a seguinte equação: como não haveria Estado de Israel sem apoio das comunidades judaicas no Ocidente, a presença islâmica na Europa deve ser neutralizada ou removida por completo, para apagar da agenda a causa palestina. Os sionistas têm influência na arena política e são muito bem-organizados e financiados.

O segundo desafio é que os católicos estão em menor número que protestantes, anglicanos e cristãos ortodoxos reunidos hoje. O catolicismo é muito forte na França, que apoia o Vaticano. Há uma disputa demográfica. O Islã é visto como um concorrente do cristianismo em geral, mas do catolicismo apostólico romano, em particular. Igrejas cristãs fecham dia após dia pois suas congregações são cada vez menores. Mesquitas, por outro lado, são inauguradas cada vez mais, para arcar com a demanda dos lugares de culto. Há quem busque limitar, sob esta conjuntura, a presença islâmica.

Além disso, secularistas querem manter a religião apartada da vida pública. Uma lei emitida na França em 1905, para separar estado da religião, tornou o secularismo no país particularmente radical. Estes grupos atacam toda e qualquer religião, mas podemos imaginar muito bem como tratam o islamismo, sobretudo no que se refere ao véu (hijab), quando a questão veio à tona há cerca de 20 anos. Há séculos, há esforços para que as mulheres vistam cada vez menos roupas, mas agora vemos meninas nascidas na França que não apenas rejeitam o estilo europeu como decidem cobrir seus cabelos. Para eles, é uma provocação. Os secularistas possuem influência no setor de ensino, sobretudo nas universidades, e costumam atacar o Islã e os muçulmanos.

Apelos por boicote a produtos franceses [Sabaaneh]

Por fim, temos o desafio imposto por regimes árabes que são cúmplices de práticas na Europa e no Ocidental que buscam nos difamar. O chefe da Agência Central de Inteligência da França me disse que, se eles acreditassem em tudo que dizem sobre nós, seríamos todos jogados no mar. Todavia, ele me reafirmou que seu departamento é feito de pessoas razoáveis, que enxergar os rumores como são: como informações imprecisas e fake news. Isso nos sugere, no entanto, que há uma guerra travada pela inteligência dos regimes árabes contra os muçulmanos na Europa, com intuito de incitar as pessoas e os governos contra nós.

Outro aspecto repousa na falta de conhecimento de muitos muçulmanos sobre sua religião, sua falta de etiqueta e seu comportamento imprudente. Tudo isso nos diz por qual razão os estados ocidentais ainda têm tamanha ressalva em tratar dos muçulmanos. Somos vistos sob múltiplos prismas apesar de nossa integração com a sociedade e nossos direitos de cidadania.

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Temos dois limites que não podemos trespassar: a lei da terra e a sharia. Temos de agir sob este quadro, mas algumas pessoas nos dizem que o Ocidente não está satisfeito, não importa o que façamos. Não posso ser julgado pela forma como nos julgam, mas sim pelo que fazemos e pelo que falamos. Se o comportamento deles não é civilizado, não posso ser condenado pela minha civilidade, que nada mais é que um comportamento islâmico genuíno.

AAH: Quem representa os muçulmanos no Ocidente?

ABM: Nós no CEM sentimos que carregamos as preocupações de todos os muçulmanos; deste modo, buscamos representá-los no sentido de obter benefícios a todos os muçulmanos, pouco importa se nos apoiam ou não. Para fazê-lo, preferimos estabelecer organizações reconhecidas e registradas devidamente que trabalham para ajudar muçulmanos a exercer sua fé, preservar sua identidade e se integrar a suas comunidades. Estas organizações, de maneira geral, também representam todos os muçulmanos. Seus membros escolhem seus líderes e podem estabelecer ou se filiar a federações, como fizemos com o CEM. De fato, a concorrência sobre os papéis de liderança pode incorrer em comportamentos inaceitáveis, mas não é a regra.

Sobre a representação política, é nossa posição que muçulmanos devem desfrutar de um ente político próprio. Vemos muitos muçulmanos se engajarem na vida pública e partidos políticos já existentes, que servem aos interesses das comunidades islâmicas em toda a Europa. Na região, vejo que temos interesses em comum tanto com um comunista quanto com um membro de um partido de direita e que podemos colaborar pelo bem comum. Se nos reuníssemos em torno de um partido islâmico, estaríamos isolados da sociedade e ficaríamos mais vulneráveis.

AAH: Há uma distinção tática entre Islã e política?

ABM: Acreditamos que agências e serviços públicos ou comunitários servem aos cidadãos, não importa se são muçulmanos ou não. A única coisa que falta nesta dinâmica é o aspecto religioso de nossas vidas. Quanto a isso, podemos nos organizar nós mesmos para cobrir a demanda, de modo que não precisemos ser separados politicamente.

Não desistimos do Islã, seja de maneira tática ou em termos de nossas convicções. Acreditamos que o Islã é uma fé abrangente que cobre todos os aspectos da vida, incluindo a política; porém, não temos demandas políticas que nos sejam específicas. A política no islamismo é um conjunto de valores, abarcando consulta com nossas autoridades, a busca por justiça e a prestação de serviços. Não importa quem está no poder, desde que seja pelo voto – incluindo meu voto – e que governem de maneira justa para fornecer os serviços necessários à sociedade. Não importa se seu nome é Robert ou Mohammad. Se houver injustiça ou preconceito na vida pública ou no sistema legal, temos o direito de contestá-la. Em último caso, os muçulmanos na Europa são cidadãos como quaisquer outros, protegidos por lei. Por que então teríamos de ser apartados?

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