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Copa do Mundo: Catar prefere evitar problemas em casa a capitular ao Ocidente

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Painel da Copa do Mundo FIFA, em Doha, capital do Catar, em 19 de novembro de 2022 [Erçin Ertürk/Agência Anadolu]

Um dos maiores desafios do Catar é que a maioria da sua população é deixada para trás quando a monarquia elabora seus esquemas de “modernização”. Diferente de países onde a mudança é promovida pela sociedade civil, no Catar, é a família real quem cumpre esse papel. Deste modo, diante da preparação para sediar a Copa do Mundo FIFA de 2022, o pequeno estado do Golfo se viu entre a cruz e a espada: entre agradar turistas estrangeiros e demandas ocidentais, por um lado, e incitar uma eventual insurreição doméstica, por outro.

Desde que venceu a candidatura para sediar o torneio, em dezembro de 2010, o Catar enfrenta críticas e dúvidas quase incessantes. Quatro principais questões dominaram a pauta. Dadas as temperaturas escaldantes na região, poderia o Catar receber o torneio que costuma ocorrer no verão? Algumas das maiores temperaturas do planeta foram registradas no país. Apenas meses antes de vencer o direito de receber o evento, o Catar registrou 50.4 °C. Não surpreende que a FIFA tenha se prontificado a transferir o torneio a novembro e dezembro, com intuito de levar o maior campeonato de futebol a todos os cantos do mundo – não importam as dificuldades. Os anfitriões receberam também um tempo adicional para concluir sua infraestrutura.

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A mídia ocidental e sua oposição à Copa do Mundo no Catar
[sabaaneh]

O Catar é acusado de violações trabalhistas generalizadas e de submeter operários imigrantes a baixíssima remuneração e condições bastante perigosas e desumanas. A realidade é que toda a região demanda reforma nas questões trabalhistas, não apenas o Catar. Numerosas leis foram remendadas no país; violações supostamente incidem agora em penalidades severas. Apesar de seu compromisso declarado, no entanto, o governo em Doha fracassou em aplicar as reformas, de modo que práticas abusivas vieram à tona e os piores componentes do kafala – baseado em “patrocínio”, análogo à escravidão – prevaleceram.

O Catar também é acusado de propina, muito embora insista que venceu o direito de receber a Copa do Mundo de maneira justa, conforme as regras e regulações vigentes. A mídia britânica e alguns países regionais estiveram na vanguarda dessas alegações. O Reino Unido produziu uma série de reportagens sobre má-conduta e irregularidades no Catar. Jornais britânicos como The Guardian, The Times, Daily Express, The Sun, Daily Mail, The Telegraph e Metro UK aludiram ao Catar nas manchetes ao menos 1.735 vezes desde 2010. Quarenta porcento dos artigos sobre o Catar se concentram na Copa do Mundo. Há de se notar que nenhuma dessas publicações seja particularmente favorável em relação aos muçulmanos e o mundo islâmico.

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Segundo estudo, os cinco tópicos mais comuns nos artigos sobre o Catar são: direitos humanos e trabalhistas; crise do Golfo de 2017; propina; e aviação. O governo do Golfo deferiu garantias, mas alguns analistas na Europa se mantiveram céticos e chegaram ao ponto de pedir boicote ao torneio. “As razões para boicotar a Copa do Mundo não fazem sentido”, argumentou o Ministro de Relações Exteriores do Catar Mohamed Bin Abdulrahman al-Thani – membro da família real. “Há muita hipocrisia nesses ataques, que ignoram tudo que conquistamos”.

Há ainda preocupação sobre o rigor catariano na aplicação de leis, tradições e normas culturais durante o torneio. O estado árabe insistiu compromisso em acolher e proteger todos os turistas que chegaram ao país para assistir as partidas. Não obstante, o governo espera dos turistas “sensibilidade sobre certas normas e tradições culturais”. De acordo com Yasir al-Jamal, vice-secretário-geral do comitê responsável pela Copa do Mundo: “Todo mundo tem sua cultura e suas crenças. São todos bem-vindos e respeitados. Tudo que pedimos é que os outros povos façam o mesmo por nós”.

Há algumas coisas a dizer a favor do Catar. Primeiro e mais importante: venceu o processo para sediar o torneio dentro das “práticas normais e da cultura da FIFA” – a Federação Internacional de Futebol –, ao seguir as regras de engajamento prevalecentes naquele ambiente. Além disso, o Oriente Médio, como a África, tem um grande séquito de entusiastas do futebol. A decisão de levar o evento à região foi absolutamente correta. O Catar disponibilizou recursos para tamanha ambição. Doha reiterou desde o princípio: “Esta Copa do Mundo é do mundo árabe, não apenas do Catar”. Para tanto, pela primeira vez, aviões partirão do Aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv, em direção ao Catar, para levar torcedores palestinos e israelenses à Copa do Mundo. A medida contrapõe o fato de que Israel e Catar não tem quaisquer relações diplomáticas formais.

Por fim, os catarianos são, em geral, um povo bastante conservador. O governo teve, portanto, de avançar com cautela rumo a seus limites – sobretudo, os jovens nobres que pressionam pela modernização no país. Podemos argumentar que os inimigos do Catar, tanto em casa quanto no exterior, encontrariam combustível para seu descontentamento com a família real, caso fossem feitas certas concessões – dentre as quais, a venda e o consumo de álcool nos espaços públicos. A decisão de última hora de proibir a venda de álcool nos estádios pode ter contido um levante indignado contra o regime. O Catar prepara-se agora para tentar receber os Jogos Olímpicos, de modo que tais decisões demandam um cálculo acautelado não somente em termos de relações públicas, mas também de infraestrutura e resposta societal.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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