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Memória e justiça nos 40 anos dos massacres de Sabra e Chatila

Mãe desesperada diante do morticínio de Sabra e Chatila [Reprodução]

“Uma pilha de corpos.” Assim descreve uma palestina que vivia no entorno dos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute Ocidental, no Líbano. Ainda jovem à época, ela presenciou o horror dos massacres que resultaram em cerca de 3 mil palestinos assassinados com requintes de crueldade entre 16 e 18 de setembro de 1982, os quais chocaram o mundo. Quarenta anos depois, a ferida segue aberta.

Em Sabra e Chatila, a memória dos horrores ali perpetrados em mais um capítulo da limpeza étnica enfrentada por essa população há mais de 74 anos (desde a consolidação da Nakba, a catástrofe com a formação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948) permanece viva. Sabra e Chatila são representação explícita da ação dos poderosos inimigos da causa palestina denunciados pelo revolucionário marxista e herói de seu povo Ghasan Kanafani (1936-1972): o imperialismo/sionismo, regimes e burguesia árabes.

Sabra hoje é um distrito administrativo em que vivem milhares de pessoas. Shatila se mantém como um dos 12 campos oficiais no Líbano registrados na Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA) em que se encontram mais de 479 mil palestinos. Pobreza, falta de infraestrutura e desemprego, sem contar a discriminação, são parte do cotidiano dos refugiados no país. O Líbano enfrenta trágica situação na atualidade, em que muitos habitantes têm sido empurrados para a miséria, privados de serviços básicos fundamentais, como energia elétrica.

Nesse quadro, não é difícil imaginar que os refugiados têm agravada sua condição de vulnerabilidade, bem como racismo e xenofobia. A discriminação, alimentada pela burguesia, têm lamentavelmente sido parte de sua dramática realidade. Sem os mesmos direitos que o restante da população, são inclusive proibidos de atuar em 39 profissões.

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A situação de penúria se repete nos demais campos espalhados por países árabes vizinhos, a um raio de 150km da Palestina ocupada, cuja população total supera os 5 milhões (incluindo os que vivem no Líbano).

Por ocasião dos 40 anos dos crimes contra a humanidade em Sabra e Chatila, refugiados palestinos, juntamente com libaneses, têm se manifestado por memória e justiça. Urge ouvir esses clamores.

O genocídio

Em 1982, o Líbano enfrentava uma guerra civil, com uma onda de insatisfação popular contra a elite dominante. Um de seus integrantes era Bashir Geymael, líder de um partido de extrema direita intitulado “Falange”. Ele tinha a intenção de expulsar os palestinos daquele território, pois os considerava “população excedente”. Assumiria a presidência do país, mas foi assassinado em 14 de setembro em decorrência da guerra, antes de concluir seu intento. Mas sua “solução radical” foi colocada em prática por seus seguidores nos três dias seguintes à sua morte, nos campos de Sabra e Shatila, em parceria e com a colaboração estreita de Israel, cujo ministro da Defesa à época era Ariel Sharon, cuja alcunha merecida é de “carniceiro”. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) já havia sido expulsa, o que fragmentou e enfraqueceu o movimento.

No banho de sangue, foram mortas a tiros ou facadas principalmente mulheres, crianças e idosos. O genocídio foi marcado ainda por outros atos de selvageria, como estupros. A população não teve como escapar, já que Israel não apenas facilitou a entrada das tropas libanesas e as treinou, como cercou os campos, impedindo sua evacuação.

Os assassinatos em Sabra e Chatila integram a trágica lista de massacres cometidos contra palestinos pelos inimigos da causa palestina, como parte de uma “limpeza étnica” deliberada, que perdura até os dias atuais. O mais conhecido deles aconteceu em 9 de abril daquele ano, em uma aldeia palestina chamada Deir Yassin, em que viviam cerca de 750 pessoas. Duzentas e cinquenta e quatro delas foram assassinadas naquele dia, também incluindo mulheres, crianças e idosos.

O mundo se levanta

Os massacres em Sabra e Chatila provocaram pelo mundo uma onda de indignação até então sem precedentes na história da Palestina. Protestos espalharam-se por todo o globo, incluindo o Brasil, em que marchas com milhares de pessoas foram feitas para exigir justiça. Como consequência, Ariel Sharon, o grande arquiteto do genocídio em Sabra e Chatila, foi responsabilizado indiretamente pelos massacres e afastado do cargo de ministro da Defesa. Ele continuaria ainda por muito tempo a cometer atrocidades como essas, até ficar em estado permanente de coma no começo de 2006 e finalmente falecer em janeiro de 2014.

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Diante do regime de apartheid enfrentado pelos palestinos ainda hoje, a sociedade palestina chama por boicotes a Israel, aos moldes do que pôs fim à segregação de negros na África do Sul durante os anos 1990. O governo brasileiro tornou-se nos últimos anos um dos cinco maiores importadores de tecnologia militar da potência ocupante. Nestas campanhas eleitorais é mister reivindicar a ruptura desses e de outros contratos.

Homenagem verdadeira às vítimas de Sabra e Chatila deve abarcar o chamado a fortalecer a solidariedade internacional efetiva e ativa, rumo à Palestina livre do rio ao mar.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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