Por que boicotar a mostra israelense de cinema

Em atendimento ao chamado da sociedade civil palestina feito desde 2005, organizações brasileiras reunidas junto ao movimento BDS Brasil e à Frente em Defesa do Povo Palestino de São Paulo conclamam ao boicote cultural à Mostra Israelense de Cinema, que se iniciou nesta sexta-feira, 24 de junho, e segue até 7 de julho. No dia anterior à abertura, carta pedindo a suspensão da iniciativa foi enviada ao CineSesc, que realiza a mostra juntamente com o Instituto Brasil-Israel (IBI).

O evento tem o apoio da Embaixada de Israel no Brasil e do seu Consulado-Geral em São Paulo, representantes do regime de apartheid sionista a que está submetido o povo palestino na contínua Nakba (catástrofe materializada com a formação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada).

O apartheid, intrínseco ao projeto de colonização em curso, é denunciado pelos palestinos e palestinas há décadas e mais recentemente reconhecido por organizações internacionais como Anistia Internacional, Human Rights Watch e pela israelense de direitos humanos BT´Selem. A realização da mostra se revela como normalização a esse grave quadro de segregação e serve de propaganda para sustentar tal regime.

Não à propaganda e normalização

Em sua página oficial, o BDS explica que “Israel usa abertamente a cultura como uma forma de propaganda para branquear ou justificar seu regime de ocupação, colonização por povoamento e apartheid sobre o povo palestino. Assim como os artistas sul-africanos anti-apartheid apelaram a escritores internacionais e instituições culturais para boicotar culturalmente a África do Sul, a PACBI [campanha palestina pelo boicote acadêmico e cultural de Israel] insta os trabalhadores culturais internacionais e organizações culturais, incluindo sindicatos e associações, a boicotarem e/ou trabalharem para o cancelamento de eventos, atividades, acordos ou projetos envolvendo Israel, seus grupos de pressão ou suas instituições culturais. Os locais e festivais internacionais são convidados a rejeitar financiamento e qualquer forma de patrocínio do governo israelense”.

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“Estamos vendo a cultura como uma ferramenta hasbara [propaganda] de primeira linha” – admitiu um funcionário público de Israel, segundo descreve o BDS –, “e não faço distinção entre hasbara e cultura”. Ainda em sua página, o movimento denuncia: “O Ministério das Relações Exteriores de Israel fornece financiamento a artistas e escritores israelenses com a condição de que eles, como ‘prestadores de serviços’, ‘promovam os interesses políticos’ de Israel. Muitos artistas israelenses atuam como ‘embaixadores culturais’ do Estado. […]” Assim, frisa: “A maioria absoluta dos escritores, artistas e centros culturais palestinos endossaram o boicote cultural de Israel, e há um número crescente de israelenses anticoloniais que apoiam o BDS, incluindo o boicote cultural de Israel.”

Como expresso na carta enviada ao CineSesc, “apesar dos esforços de grupos de lobby ligados ao Estado de Israel, como ‘Comunidade Criativa para a Paz’, muitas centenas de outros cineastas e atores adotaram uma postura de princípios em apoio aos direitos palestinos, incluindo Mark Ruffalo, Alia Shawkat, Ken Loach, John Cusack, Sarah Schulman, Viggo Mortensen Jr, Mira Nair, Mike Leigh, Miriam Margolyes, Aki Kaurismäki e muitos outros. A superestrela israelense-americana Natalie Portman se recusou a comparecer a uma cerimônia de premiação israelense após os massacres israelenses de 2018 em Gaza. O proeminente ator e diretor israelense Itay Tiran disse do BDS que é ‘legítimo’, ‘humanista’ e ‘prático’. Mil judeus israelenses endossaram totalmente o movimento não violento do BDS, assim como o grupo americano de rápido crescimento Jewish Voice for Peace”.

O BDS Brasil e a Frente em Defesa do Povo Palestino-SP se alinham à demanda por boicote cultural. Na contramão disso está a realização da Mostra Israelense de Cinema.

O IBI, que a promove em parceria com o CineSesc, insiste em afirmar que se deve falar em sionismos no plural e se apresenta como “esquerda”. Além de não ter qualquer problema com o apoio institucional da Embaixada de Israel no Brasil e Consulado-Geral em São Paulo, refuta os relatórios que, a partir de extensa análise, evidenciam o apartheid. Na mesma linha, condena o BDS como prejudicial ao “diálogo” e se associa à falácia de que reverbera uma espécie de novo antissemitismo, em que a crítica a Israel seria central. Absolutamente falso. Expressa, assim, o pensamento colonizador que se nega a ouvir os oprimidos e levar em conta seu direito legítimo à autodeterminação.

A “esquerda” sionista, historicamente, como mostram autores israelenses do porte de Ilan Pappé e Avi Shlaim, esteve igualmente implicada na limpeza étnica, sob retórica distinta da “direita”, não abre mão da defesa de um estado colonial e racista, ao tempo que confunde ao falar de “paz” e “diálogo”. Mas não há paz sem justiça. E o diálogo não existe sob apartheid.

Denunciar um projeto colonial e de apartheid não tem nada a ver com discriminação contra semitas, muito pelo contrário. O BDS, que foca instituições, não indivíduos, tem repetidamente afirmado o rechaço a qualquer forma de racismo, preconceito, opressão. O movimento se inspira na campanha de boicote ao apartheid à Africa do Sul que ajudou a pôr fim ao regime de segregação contra negros nos anos 1990. Alguém, em sã consciência, teria hoje a ousadia de afirmar que essa não era uma luta justa?

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Boicotar a Mostra Israelense de Cinema é recusar a cumplicidade com a normalização e propaganda do apartheid. É ouvir a voz dos palestinos e palestinas. São eles que estão submetidos a limpeza étnica, colonização, segregação. São eles que estão perdendo a vida aos borbotões em meio aos crimes contra a humanidade, caso da jornalista Shireen Abu-Akleh, correspondente da Al Jazeera e de mais de 60 palestinos somente neste ano de 2022.

Boicote a Mostra Israelense de Cinema é uma mensagem de solidariedade, a solidariedade que os palestinos pedem e precisam. O boicote cultural é não só necessário, como urgente em meio à contínua Nakba.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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