Estado de Karnataka na Índia demonstra ascensão da islamofobia

No início deste ano, um grupo de meninas foi proibido de assistir suas aulas no estado indiano de Karnataka por usar o tradicional véu islâmico (hijab). Naquele momento, ninguém esperava que o episódio desencadeasse uma agressiva campanha de islamofobia.

Nas últimas semanas, grupos de extrema-direita realizaram diversas manifestações de ódio em Karnataka, incluindo ao proibir a presença de comerciantes muçulmanos em feiras próximas a templos hindus e pressionar pelo banimento da carne halal — produzida segundo os preceitos islâmicos.

Na véspera do festival hindu de Ram Navani, no último domingo (10), membros de um grupo extremista destruíram barracas de frutas pertencentes a muçulmanos, na região de Dharwad.

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A ativista de direitos humanos Brinda Adige relatou à Anadolu que o aumento da intolerância contra a comunidade islâmica — em certa medida, também contra cristãos — tornou-se uma tendência no estado indiano, sobretudo nos últimos anos.

“Um sentimento de sectarismo tornou-se modo de vida em Karnataka, sob o regime do partido Bharatiya Janata”, acrescentou Adige. “Embora haja algum discurso em defesa das minorias, as agências públicas encontram desculpas para ignorar o estado de direito”.

Ao constatar questões urgentes em âmbito nacional, como o desemprego e a inflação dos combustíveis, Adige observou que o foco atual no véu ou na carne islâmica reflete “táticas diversionistas” de fundo político.

Eleições

A Índia tem eleições regionais previstas para o início do próximo ano. Comentaristas creem que o partido do primeiro-ministro Narendra Modi busca polarizar a sociedade para angariar votos.

“O governo tenta repetir a estratégia adotada no estado de Uttar Pradesh, pois crê que a única maneira de ganhar as eleições é por meio da polarização”, destacou Niyaz Faroouqi, secretário da Jamiat Ulama-i-Hind, maior associação islâmica da Índia.

“Esperamos que a maioria da população, muçulmanos ou não, não tenham aderido ainda ao sectarismo”, acrescentou Faroouqi. A sessão de Karnataka de sua organização divulgou uma nota pública em 26 de março, como apelo à comunidade para “respeitar todas as religiões e garantir que ninguém seja ferido”.

Maulana Mohammed Maqsood Imran, religioso islâmico radicado em Karnataka, confirmou “um sentimento geral de que os ataques recentes estão vinculados às eleições”.

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“Na verdade, são pouquíssimas pessoas responsáveis por essa campanha”, prosseguiu. “Mas o silêncio das autoridades e mesmo declarações contra as minorias proferidas por parlamentares encorajam agressores”. Caso o governo agisse, nada disso aconteceria, insistiu Imran.

Impacto no capital científico

Alguns analistas argumentam que o ascenso da divisão religiosa pode prejudicar a economia de Karnataka, estado conhecido em âmbito global por institutos comprometidos com a tecnologia da informação, produtos eletrônicos e o desenvolvimento aeroespacial.

Kiran Mazumdar Shaw, presidente da Biocon, gigante de biotecnologia sediada em Bengaluru, capital do estado, recentemente fez um apelo ao governo indiano para solucionar a questão.

“Karnataka sempre investiu no desenvolvimento econômico inclusivo e não devemos permitir tamanha divisão em nossa sociedade”, reafirmou Shaw em sua página do Twitter. Segundo a empresária, tais atos de discriminação podem “destruir nossa liderança internacional”.

Sunil Kukreja, presidente da Associação por Tecnologia da Informação — grupo que representa 300 empresas de hardware do setor — afirmou à Anadolu que tais problemas são relacionados à “política” e que não devem resultar em um êxodo corporativo do estado.

“Não penso que haverá impacto na indústria”, insistiu Kukreja. “Não vejo nenhuma ameaça em Karnataka ou Bengaluru, onde novas empresas continuam a investir.

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Adige reiterou a necessidade de coexistência na população: “Isso requer que os representantes eleitos, a começar com ministros, falem o idioma da democracia e asseverem aos cidadãos seu compromisso com o direito à liberdade religiosa e respeito à escolha de comer ou vestir aquilo que os convém”

“A paz só será alcançada se elementos detratores foram devidamente julgados perante a lei”, concluiu a ativista.

O partido governista, no entanto, insiste não ter relações com os acontecimentos em campo. “Nem nosso governo em Karnataka, tampouco nossa estrutura partidária pode fazer alguma coisa a este respeito”, alegou o porta-voz Ganesh Karnik.

Karnik negou alegações de que os incidentes sejam relacionados às eleições ou mesmo que haja tensões entre a sociedade. “Nem o partido, tampouco o governo tem responsabilidade por tais episódios. Não temos nada a ver com isso”.

“Há uma paz absoluta em Karnataka”, concluiu o porta-voz. “Pode haver um ou outro problema político, mas há absoluta paz no local”.

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