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Uma abordagem compreensiva do conflito entre Ucrânia e Rússia

Parentes de rebeldes pró-Rússia em funeral dos mortos na região de Donetsk em 2015 [Mstyslav Chernov/ Wikipedia]

Na 3ª 22 de fevereiro do corrente ano, o chefe de Estado russo reconheceu a independência das duas repúblicas separatistas de maioria étnica-russa na Ucrânia. Dois dias depois, 5ª 24 de fevereiro, o Kremlin iniciou uma ofensiva militar neste país aspirante a aliado prioritário da OTAN. Neste texto, a meta é proporcionar uma abordagem compreensiva, e ao final, olhar esta parte do mundo sob a mirada árabe e latino-americana.

A relação entre Rússia e Ucrânia e a estratégia defensiva de Moscou

A relação entre a Rússia e o leste ucraniano é antiga e forte. Na formação político-cultural da Rússia moderna, a Ucrânia é constitutiva. O presidente russo Vladimir Putin, no discurso em que reconheceu as duas repúblicas de Donbass, falou que a unidade entre a Ucrânia e Rússia é mais antiga do que a própria existência dos Estados Unidos. A Ucrânia como entidade política tem um tempo de vida menor do que o Brasil independente. Além disso, há questões estratégicas: o entendimento do governo russo é de que suas duas cidades principais (Moscou e São Petesburgo), o acesso ao Mar Negro e a exploração do Mar Cáspio ficariam muito vulneráveis no caso de uma posição hostil por parte da Ucrânia ou se houvesse uma aliança deste país com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Para a estratégia russa, perder o leste da Ucrânia é inegociável, pesadelo ainda maior com a região infestada de salafistas como poderia vir a ser com muita velocidade. Se hoje a Chechênia sob o comando do clã Kadyrov é leal a Moscou, isso se deve a uma negociação intensa após  a primeira guerra de libertação, cujo armistício foi favorável aos chechenos. Na segunda guerra, a insurgência já era salafista, rachando a maioria islâmica do país. Possibilitar esse cenário novamente no Norte do Cáucaso, incendiando além da Chechênia o Daguestão, é algo inadmissível para o aparelho de segurança que de fato comanda o país.

Ainda na visão estratégica, a União Soviética foi desmontada em 1991 e todo o espaço pós-soviético entrou em disputa. A parte europeia da Rússia chegou ao seu limite, que é a Bielorrússia e o leste ucraniano. A dimensão militar do conflito e as ameaças concretas ao pessoal de origem russa na Ucrânia foram a razão de Estado alegada para que o governo Putin reconhecesse as repúblicas de Donbass, Donetsk e Lugansk.

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O tempo das operações realmente surpreendeu em função da escalada da OTAN.  A Rússia está agindo na região de Donbass e na Crimeia desde o final de 2014. A Ucrânia vem mobilizando o que há de mais nefasto em sua sociedade para fustigar Donetsk e Lugansk. Com a adesão da Ucrânia à União Europeia, e a crise seguida de golpe de Estado em Kiev, a desmobilização das forças institucionais do Estado ucraniano leva à ascensão de milícias ultranacionalistas ou neonazistas, o que elevou a pressão sobre pessoas de origem russa que vivem no país.

Ucrânia na OTAN e o interesse da Europa ocidental e EUA 

A visão estratégica da Rússia foi de não deixar repetir as condições daquilo que chamam de Grande Guerra Patriótica, que se conhece por Segunda Guerra Mundial. O fato mais recente é a formalização de um intercâmbio entre OTAN e Ucrânia e a presença – ainda não admitida, mas já sendo alvo de guerra – de bases dos Estados e Grã-Bretanha em território ucraniano. Neste caso, a inteligência russa afirma ter localizado e destruído bases com armas biológicas e tecnologia de controle de satélites de modo a orientar mísseis balísticos. Uma semana antes, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou:

“Isso também se aplica à OTAN. Dizem-nos: a porta está aberta. Mas até agora só acesso autorizado. Se nem todos os membros da Aliança querem nos ver ou todos os membros da Aliança não querem nos ver, seja honesto. Portas abertas são boas, mas precisamos de respostas abertas, não de perguntas abertas por anos. O direito à verdade não é uma de nossas oportunidades aprimoradas? O melhor momento para isso é a próxima conferência em Madrid.”

Kiev admite acima, pediu filiação na OTAN e o próximo passo seria a guerra para a reconquista da Crimeia e de Donbass. Neste caso,j á estaria como país membro e utilizando o Artigo 5º, aplicando falsos ataques geradores de uma guerra de agressão. Manobras de “false flag” são comuns nestes casos.

Já o Ocidente tem muitos interesses na região. Para além das riquezas naturais – como o gás natural e a produção de grãos – a Ucrânia é fundamental para a segurança e estabilidade no espaço pós-soviético. O interesse maior, porém, é estratégico, e passa por ampliar o cerco à Rússia – dois dos três países do Báltico estão na OTAN. A meta estratégica é atingir a Rússia e, concomitantemente, a China, que é o maior poder econômico, enquanto a Rússia é o maior poder militar. A soma da China com a Rússia é maior do que Estados Unidos e União Europeia. O grande xadrez mundial hoje é esse.

Porque não permaneceu como mais um conflito congelado?

Esteve ao alcance uma “solução pacífica”, ou ao menos, com menor escalada de conflito. A solução pacífica passaria por uma retirada da ajuda militar da OTAN à Ucrânia. Mas precisava cessar todo o fluxo de aportes militares. Não permanecer com um soldado, não fazer chegar material bélico, assinar um compromisso de que jamais vai entrariam na Aliança. O governo Putin não reconheceria as repúblicas de Donbass e o conflito ficaria congelado, a exemplo do que ocorreu na Georgia, com a Abkhazia e Ossétia do Sul, e no caso da Moldávia, com a Transnistria. Ocorreu o oposto. Parece que o cálculo de Putin foi incorreto, pois até o momento de concluir este artigo, dois corredores de material bélico, um pela Polônia e outro na Romênia, estão com bastante atividade.

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Realmente a situação pode chegar a uma escalada incontrolável, e o fator pode ser um ataque direto contra a Rússia. O risco é real, caso Estados Unidos e países aliados da OTAN resolvam atacar o território russo de forma direta. As medidas anunciadas até agora – envolvendo sanções econômicas – não deve aprofundar a crise em escala militar, mas eventuais retaliações, como um bloqueio naval no Báltico ou o fechamento do Estreito de Bósforo junto a um cerco naval no Mar Negro através da marinha turca (país membro da OTAN), gerariam uma reação do governo russo.

Se houver provocação militar contra a Rússia, vai ter resposta. E aí sim, vai haver um conflito em larga escala. Se não mundializado, europeu. E realmente pode chegar a ter o emprego de armas nucleares caso um dos lados arrisque essa possibilidade.

A guerra segue

Até o momento de concluir o artigo, ainda havia um cerco à capital Kiev e outros pontos da ofensiva russa, como em Odessa, Donbass, contra Kharkiv (segunda maior cidade do país) e colunas móveis blindadas entrando pela fronteira de Bielorússia. O Conselho de Segurança da Federação Russa apostou todas as suas fichas em interromper por todos os meios necessários a expansão da OTAN para o leste. Uma decisão desta envergadura traz consequências imponderáveis, embora uma já seja tangível. Estamos diante de uma nova ordem geopolítica mundial, dois blocos de capitalismo e possivelmente duas grandes redes de alianças militares e econômicas.

Já para o Mundo Árabe e Islâmico e a América Latina, se trata de uma chance ímpar de afirmar a independência e a escolha por caminhos não tutelados.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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