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Verdadeiro problema de Biden não é Rússia ou China, mas a pobreza em seu país

Presidente dos Estados Unidos Joe Biden, em Washington DC, 15 de fevereiro de 2022 [Kyle Mazza/Agência Anadolu]

A grande imprensa dos Estados Unidos continua a celebrar a suposta potência da economia americana. Quase diariamente, as manchetes falam de índices esperançosos, avanços em crescimento sustentável, tendências positivas e ganhos constantes. A realidade em campo, no entanto, conta uma história absolutamente distinta, que incita a seguinte pergunta: os americanos são inundados por mentiras? E por qual razão?

“Economia dos EUA cresce 1.7% no quarto trimestre e fecha um ano robusto”, declarou o New York Times. “Economia cresce 5.7% em 2021, maior crescimento em um ano”, insistiu o The Washington Post. As agências Reuters, Voice of America, Financial Times, CNN, Market Watch e muitos outros prontamente concordaram. Mas se este é o caso, então por que as taxas de aprovação do presidente Joe Biden batem sucessivos recordes de queda? E por que tantos americanos literalmente passam fome?

Uma pesquisa de opinião conduzida pela Reuters/Ipsos, publicada em 3 de fevereiro, revelou que apenas 41% dos adultos aprovam a performance de Biden na Casa Branca. Um índice estarrecedor de 56% reprovam seu mandato. Os resultados não representam surpresa: afinal, desde sua posse, o presidente democrata enfrenta uma evidente trajetória de declínio.

A verdade é que Biden não era sequer a primeira escolha do Partido Democrata. A julgar pelas pesquisas e pelos resultados iniciais das primárias presidenciais de 2020, o senador Bernie Sanders é quem representava uma esperança de mudança real e substantiva. Políticas partidárias, uma insistente campanha de mídia para declarar Sanders “inelegível” e o pânico em torno de um segundo mandato de Donald Trump fez com o ex-vice de Barack Obama ganhasse terreno dentre os candidatos, ao ser representado como “a última esperança da América”.

Os republicanos permanecem comprometidos com o legado de Trump e, de maneira geral, continuam unidos política e ideologicamente. Em contrapartida, a desconfiança sobre a liderança e sobre o futuro da democracia e das condições socioeconômicas torna-se cada vez mais onipresente dentre o eleitorado democrata. Evidentemente, há razão para tanto.

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Enquanto os líderes democratas se mantêm obcecados por seu medo de Donald Trump e a imprensa liberal insiste em pronunciar “crescimento histórico” da economia, o cidadão comum batalha dia após dia com iminente miséria, a inflação desenfreada e a falta de perspectiva.

Aqui estão alguns números funestos: ao todo 56% dos americanos não podem arcar com mil dólares para emergências, de acordo com informações da rede CNBC; um entre cada dez adultos no país passaram fome em dezembro último, devido à situação de miséria, segundo reportagem da revista Forbes; o Centro sobre Pobreza e Política Social da Universidade de Columbia revelou que a taxa de pobreza entre as crianças atingiu 17% nos Estados Unidos — “um dos maiores índices entre os países desenvolvidos”.

Caso os trabalhadores americanos sejam analisados à parte da população geral, os números são ainda piores: três quartos dos trabalhadores têm dificuldade para pagar as contas, segundo estudo conduzido pelo Shift Project, publicado online pela rede NBC News. Quarenta por cento dos trabalhadores entrevistados afirmaram não conseguir poupar sequer US$400 para uso emergencial. O mais chocante, segundo esta mesma pesquisa, é que “aproximadamente 20% dos trabalhadores já passaram fome por não poder arcar com o que comer”.

Pessoas desabrigadas em frente a uma delegacia de Los Angeles, Califórnia, 16 de fevereiro de 2022 [FREDERIC J. BROWN/AFP via Getty Images]

Salvo eventuais ajudas do governo, fornecidas no contexto da pandemia tanto por Trump quanto por Biden, pouco foi feito em termos de mudanças estruturais na economia dos Estados Unidos, para assegurar maior igualdade entre os setores da sociedade. Ao contrário, a prioridade das sucessivas administrações parece estar sempre em outro lugar.

Em artigo divulgado pela rede de notícias Politico, David Siders descreve o atual estado de espírito no âmago do partido governista: “Os democratas estão malucos com 2024”. Devido à enorme reprovação de Biden, os democratas temem um retorno de Trump nas próximas eleições. “Tudo que falam é Trump — doadores, políticos, assessores, jornalistas”. Segundo Siders, um assessor relatou que seu partido insiste em girar em círculos: “um círculo estranho … no qual a conversa sempre volta a Donald Trump”.

Seja consciente ou não tamanha obsessão, o governo de Joe Biden parece operar quase inteiramente em uma campanha política contra Trump e seus correligionários, ao insistir no tema da invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, na esperança de alguma cisão republicana ou qualquer milagre que possa lhe dar chance de manter a maioria no Congresso nas eleições de meio mandato, em novembro próximo.

Ao fazê-lo, a liderança democrata parece negligenciar a dura realidade em campo, onde o preço dos alimentos sobe sem parar e a inflação geral registra recordes insuportáveis. Conforme dados divulgados em 10 de fevereiro pelo Escritório de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos, o índice de preços no consumidor (IPC) cresceu 7.5% em janeiro, comparado ao mesmo período do último ano — maior subida desde 1982, segundo reportagem do Financial Times.

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A inflação não é um incidente isolado, dado que o IPC continuou a subir 0.6% em escala mensal. O cidadão comum sente os efeitos da carestia quase toda vez que vai ao mercado. Microempresários, sobretudo no setor de restaurantes, padarias e mercearias, têm apenas duas alternativas: aumentar seus preços ou fechar suas portas. Com efeito, grande parte dos segmentos já vulneráveis da população americana sentem verdadeiro desespero.

Para evitar perguntas difíceis sobre o bem-estar de milhões de pessoas, o funcionamento das instituições democráticas e a corrupção existente no sistema político — não importa quem controla o Capitólio ou a Casa Branca —, os democratas e a imprensa aliada ou culpam seus rivais republicanos pelos problemas contundentes ou criam distrações em política externa. Washington continua a falar de uma “ameaça chinesa” ou da “iminente” invasão russa no território ucraniano; contudo, a verdadeira ameaça são os políticos apartados da realidade, que disputam riquezas, poder e prestígio, enquanto seus conterrâneos continuam a passar fome.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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