Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Será o Líbano o mais novo campo de batalha na guerra entre a Arábia Saudita e o Irã?

Um retrato do Ministro da Informação libanês George Kordahi é visto em um outdoor na rua al-Tahrir em 31 Outubro de 2021. [Mohammed Hamoud / Getty Images]

O Líbano é atormentado por crises, com uma nova sendo adicionada quase que diariamente. As pessoas estão sofrendo com cortes de energia e falta de combustível, e ficam horas em filas em postos de gasolina e padarias. A vida diária se tornou insuportável. Há também o conflito entre as forças armadas libanesas e o Hezbollah. Ninguém sabe como isso vai acabar. Está outra guerra civil a caminho? O preço por isso será pago por pessoas comuns com seu dinheiro, sangue e vidas.

Como se tudo isso não bastasse, vemos agora que o Ministro da Informação George Kordahi involuntariamente arrastou o Líbano para uma nova crise após declarações que fez durante um episódio do “Parlamento do Povo” na Al Jazeera, quando considerou a guerra no Iêmen “fútil”. O programa foi gravado em agosto, antes de ele se tornar ministro do governo do primeiro-ministro Najib Mikati. Após sua nomeação, Kordahi pediu à Al Jazeera que não transmitisse o episódio porque ele havia expressado suas opiniões pessoais, e não a posição oficial do governo libanês. Seu pedido foi ignorado e o episódio foi ao ar. O momento é delicado, já que gerou uma crise diplomática.

O infeliz príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, não gostou do comentário de Kordahi. Foi Bin Salman, lembre-se, quem lançou sua campanha militar de coalizão contra o Iêmen sob o nome de “Operação Tempestade Decisiva” há oito anos, e não foi capaz de resolvê-la. Ele afirmou na época que a batalha duraria apenas algumas horas, durante as quais ele eliminaria os rebeldes houthis e restauraria o governo legítimo do presidente Abdrabbuh Mansour Hadi no Iêmen.

LEIA: ‘Patriotismo acima de todo o resto’, clama premiê libanês a seu gabinete

Como todos sabemos, não foi assim que aconteceu. Mísseis houthis atingiram Riad e outras cidades sauditas, forçando Bin Salman a apresentar uma iniciativa para acabar com a guerra no Iêmen, que os houthis rejeitaram sem hesitação. Agora Bin Salman está pedindo a alguns países ocidentais que mediem conversas  com o Irã – que apóia os houthis – para um cessar-fogo e negociações. A notícia recente é que de fato há negociações ocorrendo entre a Arábia Saudita e o Irã a portas fechadas.

Kordahi não é o único a pensar que a guerra no Iêmen é fútil; políticos e funcionários do governo no Ocidente disseram a mesma coisa, assim como analistas e escritores, inclusive eu. Pedimos o fim imediato dos combates porque matou e feriu dezenas de milhares de iemenitas, destruiu suas terras e o país e criou uma catástrofe humanitária.

Então, por que a Arábia Saudita reagiu tão fortemente depois que o comentário de Kordahi foi ao ar pela Al Jazeera? Qual foi o maior crime que fez a Arábia Saudita e seu aliado de coalizão, os Emirados Árabes Unidos, expulsar os embaixadores libaneses de ambos os países, chamar de volta seus próprios embaixadores de Beirute e impor sanções econômicas ao Líbano em luta? Kuwait, Bahrein, Omã e Catar também condenaram as declarações de Kordahi e reiteraram seu apoio à Arábia Saudita.

Ministro da Informação libanês George Kordahi é exibido em um outdoor na capital do Iêmen, Sanaa, em 31 de outubro de 2021 [Mohammed Huwais/AFP via Getty Images]

Eu acredito que há mais nisso do que o comentário de Kordahi. Isso foi confirmado pelos comentários do chanceler saudita à Reuters sobre a crise. “Eu acho que é importante que o governo do Líbano ou o establishment libanês estabeleçam um caminho que libere o país  da política atual, que reforça o domínio do Hezbollah”, disse o Príncipe Faisal Bin Farhan.

A maneira como a Arábia Saudita escalou a crise com o Líbano ilustra a imaturidade dos governos de estados árabes falidos. O infortúnio do Líbano é que é atormentado pela Arábia Saudita e pelo Irã, cada um dos quais apóia seus seguidores libaneses em linhas sectárias.

Embora o primeiro ministro Mikati elogiasse o papel regional da Arábia Saudita e seu apoio ao Líbano em particular, o apoio de seu país a Riad e a condenação dos ataques houthsi ao reino não satisfizeram Bin Salman. Eu me pergunto, porém, por que o príncipe não tomou uma posição tão forte contra aqueles no Ocidente que condenaram sua guerra “inútil” no Iêmen.

LEIA: Ministro da Informação do Líbano nega postura hostil sobre Arábia Saudita

Por que ele não sentiu que o Reino estava sendo insultado quando Donald Trump o insultou em seus discursos e disse que ordenharia o país, que precisava pagar pela proteção dos Estados Unidos? Ele também disse que se não fosse pelos EUA, Bin Salman e sua turma não estariam ainda em seus cargos. Por que eles permaneceram em silêncio diante dos constantes insultos dos líderes e funcionários ocidentais? Eles olham em seus espelhos e veem leões; eles são tudo menos isso.

George Kordahi está sob pressão para renunciar, mas insiste que o Líbano é um país soberano e não pode ceder à chantagem, portanto não apresentará sua renúncia. No entanto, o destino do governo Mikati dependerá disso. De acordo com o ministro das Relações Exteriores libanês, Abdallah Bou Habib, Kordahi está considerando a proposta de renúncia, mas está consultando outros antes de tomar sua decisão. Esta é uma referência aos seus aliados na Síria e no Hezbollah.

O governo de Mikati pode cair se Kordahi insistir em permanecer como ministro da Informação. Aparentemente, esta é uma tempestade em uma xícara de chá que não teria repercussões tão graves em circunstâncias normais. Mas este não é um conjunto normal de circunstâncias. Podemos muito bem estar olhando para o Líbano como o mais recente campo de batalha na guerra entre a Arábia Saudita e o Irã.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
Arábia SauditaArtigoIrãLíbanoOpiniãoOriente Médio
Show Comments
Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
Show Comments