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Relembrando a invasão do congresso estudantil de Ibiúna

O curta “Ibiúna” relembra o congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE) realizado em outubro de 1968 onde cerca de 800 estudantes foram presos. [Divulgação]

O quê:- Prisão dos Estudantes reunidos em Ibiuna

Onde: Fazenda Mucurú, Ibiúna

Quando: 12 de outubro de 1968

O que aconteceu

Neste dia, 12 de outubro, no ano de 1968, forças repressivas da ditadura militar invadiram a   na Fazenda Mucuru, no bairro de Apiaí, na estrada que liga o centro da cidade à Cachoeira da Fumaça, e prenderam mais de 900 estudantes vindos de universidades de todo país e que participavam do trigésimo congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Como as reuniões e atividades de UNE estavam proibidas pela ditadura, os estudantes decidiram realizar seu congresso de forma clandestina e escolheram a fazenda na pequena cidade de Ibiúna, então com apenas seis mil estudantes.

A presença de tantos jovens nas proximidades da cidade e o consumo de alimentos e produtos de primeira necessidade que excedia a capacidade de abastecimento do município chamaram a atenção da polícia.

Entre os presos, estavam os líderes do movimento:  Luís Travassos (UNE), Vladimir Palmeira e Franklin Martins (União Metropolitana dos Estudantes) e José Dirceu (União Estadual dos Estudantes) e Vladimir Ribas (União Paulista de Estudantes Secundários), que foram levados para o Dops. Os demais estudantes foram levados de ônibus até o Presídio Tiradentes e depois foram transferidos para o Carandiru.

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Com as detenções, o regime militar conseguiu identificar e fichar as lideranças estudantis de todo país, menos de dois meses antes do endurecimento do regime militar com a decretação do AI-5, período marcado por prisões e desaparecimentos de oponentes do regime.

O que aconteceu antes 

1968 foi um ano de grandes mobilizações estudantis no Brasil e no mundo e também de recrudescimento da repressão iniciada pelo regime militar instalado no país em 1964.  A efervescência cultural que ainda sobrevivia à repressão, incluindo a rebeldia estudantil e dos jovens militantes de resistência à ditadura, entraram em um processo de sufocamento e desarticulação pela violência do Estado.

As entidades estudantis – UEEs e a UNE – estavam na ilegalidade desde 1966 mas continuavam ativas em resistência ao regime. Em 1968, o assassinato do estudante secundarista Edson Luís pelas forças da repressão, no Rio de Janeiro,  foi motivo da convocatória da terceira greve geral da UNE e de protestos em todo país, e mais brutalidade e novas manifestações, com crescente apoio aos estudantes da parte de artistas, trabalhadores e da igreja, como se viu na Passeata dos Cem Mil.

Sob censura, protestos contra a ditadura aparecem nas inscrições pichadas em monumentos [Arquivo Militar]

Em resposta, o regime aumentou a vigilância sobre as atividades estudantis, frustrando com violência as tentativas de manifestação.  Nesse ambiente, os estudantes da UNE decidiram fazer seu terceiro congresso, para eleger uma nova direção, buscando alternativas de financiamento e local em que não fossem alvo da repressão.

Durante esse processo organizativo, no dia 3 de outubro de 1968,  os alunos da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) na rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, entraram em confronto com estudantes da Universidade Mackenzie, apoiadores do regime, no episódio conhecido como guerra da Maria Antonia.

Os alunos da USP estavam cobrando  um pedágio para levantar fundos para o  30° Congresso da UNE quando se chocaram com estudantes apoiados por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que estavam instalados no Mackenzie para orientar alunos na formação de grupos de extrema direita da faculdade no enfrentamento aos estudantes da filosofia da USP.

No confronto que deixou a fachada da USP quebrada, com focos de incêndio e vários feridos, o estudante secundarista José Guimarães foi baleado na cabeça e morreu.

A escolha de uma cidadezinha do interior para a realização do congresso foi uma tentativa de afastar-se dos centros vigiados pela ditadura, mas não seria possível tanta gente passar despercebida.

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“Eles esgotaram tudo que tinha no comércio: não tinha pão, chocolate, nada. Eles compraram tudo”, contou o ex-sargento ouvido pelo jornal Cruzeiro do Sul sobre as lembranças na cidade. A versão do policial é reforçada pelo ex-estudante. “Um pessoal mais desavisado ia ao centro de Ibiúna e pedia mil pães na panificadora, o movimento naquelas rodovias era anormal. Foi por aí que nós fomos denunciados.”

Com essas informações, os batalhões da PM de Sorocaba e Ibiúna e o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) trabalharam para invadir a Fazenda Mucuru…

Com os novos ônibus requisitados nas estradas, os policiais cercaram a fazenda, deram tiros de metralhadoras para o alto e prenderam os estudantes. “Fomos presos, tivemos que caminhar até a estrada, alugaram ônibus para levar a gente”, relembrou Noce.

O que aconteceu depois

Em dezembro do mesmo ano, foi promulgado o AI-5, marcando o início dos chamados “anos de chumbo” da história brasileira, autorizando o presidente da República a cassar mandatos de parlamentares e suspender direitos políticos dos cidadãos. O habeas corpus por crimes de motivação política foi suspenso, foi instituída a censura prévia de obras culturais e dos meios de comunicação, as reuniões políticas dependiam de autorização policial e havia toque de recolher em todo o país.

No  início de 1969 o Decreto n° 477 tornou crime grave fazer ou participar de greve, passeata ou distribuir material  considerado subversivo. Desse período até 1973, o movimento estudantil foi desarticulado pela repressão, com parte das lideranças estudantis partindo para a luta armada contra o governo.  A UNE foi refundada em 1979.

Os acontecimentos de Ibiúna viraram tema de um curta-metragem do cineasta Silvio Tendler , intitulado “Ibiúna”,  produzido pela Caliban Produções e viabilizado pelo Curta! através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), reunindo depoimentos de vários dos estudantes presos, entre eles José Dirceu, Vladimir Palmeira, Franklin Martins, Lucia Murat e Cesar Maia.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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