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Faz escuro: os sons da tortura em obras da 34ª Bienal de São Paulo

Vista geral da 34ª Bienal de São Paulo, em 3 de setembro de 2021 [Lina Bakr/Monitor do Oriente Médio]

Após o adiamento de um ano devido à pandemia, inaugurou-se neste sábado a 34ª Bienal de São Paulo, maior mostra de artes visuais da América Latina. Com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti (curador geral), Paulo Miyada (curador-adjunto) e Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez (curadores convidados), a mostra conta com mais de 1100 obras, com artistas de todos os continentes.

O título da Bienal, “Faz escuro mas eu canto”, foi retirado do poema do amazonense Thiago de Mello, publicado em 1965, funcionando como um enunciado da mostra. “Por meio desse verso, reconhecemos a urgência dos problemas que desafiam a vida no mundo atual, enquanto reivindicamos a necessidade da arte como um campo de resistência, ruptura e transformação. Desde que encontramos esse verso, o breu que nos cerca foi se adensando: dos incêndios na Amazônia que escureceram o dia aos lutos e reclusões gerados pela pandemia, além das crises políticas, sociais, ambientais e econômicas que estavam em curso e ora se aprofundam”, escrevem os curadores.

“Decidimos chamá-la ‘Faz escuro mas eu canto’. Porque estamos em tempos escuros. E o escuro em que estamos é feito. Porque queremos olhar para esse escuro, olhar nesse escuro. Deixar que as pupilas dilatem para capturar a luz que ainda há e começar a delinear vultos nas sombras. Porque o escuro não é sólido e insondável”, diz Carla Zaccagnini, em e-mail reproduzido no catálogo da mostra.

O canto, o silêncio e o escuro tomam outros sentidos quando adentramos na obra do jordaniano Lawrence Abu Handan, After SFX [Pós-efeitos sonoros] (2018),  vídeo-instalação resultado de sua investigação, junto à Anistia Internacional, com a  Forensic Architecture, dos crimes ouvidos por prisioneiros sobreviventes da prisão Saydnaya, a mais cruel da Síria.  Em sua obra, o escuro é literal e o canto, quase impossível; a única luz da vídeo-instalação vem do texto sendo digitado em uma tela, com depoimentos de prisioneiros sobreviventes.

Os prisioneiros viviam na escuridão. De acordo com o relatório feito pela Anistia Internacional, em que Handan trabalhou, eles eram transferidos para lá vendados, onde eram recebidos com uma “festa”, sendo brutalmente espancados. Eles passavam a maior parte do tempo dentro de uma pequena cela e eram obrigados a cobrir os olhos sempre que algum guarda entrava, ou eram levados para outro lugar. Uma testemunha declarou que um dos piores crimes que você poderia cometer em Saydnaya era tirar as mãos dos olhos.

O canto era proibido; os guardas aplicam uma regra de silêncio absoluto, em que qualquer sussurro – ou grito durante um espancamento – era punido com tortura. Eles contam que quando escutam um grito, sabem que é um prisioneiro novo, que ainda não havia aprendido, da pior forma, as regras de lá.

As testemunhas relataram espancamentos diários sistemáticos, condições sub-humanas, tratamentos degradantes e prisioneiros que morriam diariamente. A muitos foram negadas comida e água por longos períodos. Segundo o relatório, não há interrogatórios em Saydnaya, a tortura é utilizada para degradar, punir e humilhar.

“After SFX é, de certa forma, parte de um corpo maior de trabalho que foi feito em resposta e como uma série de reflexões depois que eu fiz uma investigação em uma prisão chamada Saydnaya, a 25 quilômetros ao norte de Damasco”, diz o artista durante entrevista para a série “No ateliê” da Bienal . “Eu estava conduzindo uma espécie de elemento sonoro de investigação que tentava entender o que estava acontecendo dentro daquela prisão, porque nenhum observador independente tinha permissão para entrar”.  

“Muito do que eles testemunharam foi acústico. E grande parte da violência que foi feita a eles também era acústica. Portanto, o som desempenhou um papel muito estranho naquela investigação entre ser uma fonte de testemunho e uma fonte da própria violação da qual estávamos tentando falar sobre e revelar”, conta Handan.

Ele entrevistou seis sobreviventes por dias, tentando mapear, pelo som, onde estavam presos,  ouvindo diferentes tipos de fechaduras e portas, tentando estabelecer uma linguagem para falar sobre o que ouviram e vivenciaram.

“O que aprendi com aquelas pessoas – sobre a voz humana, sobre a arquitetura, sobre como mudaram a maneira como eu pensava sobre essas coisas tão fundamentais – não era possível estar contido em um relatório de direitos humanos”, diz. “Eu comecei a fazer, nos três anos seguintes após esse trabalho, uma série de obras que tentaram construir, não como um meio para mediar aquela história, porque isso já tinha acontecido na mediação da Anistia, mas para elaborar e capturar os aprendizados que me foram ensinados essencialmente por aquelas pessoas. O primeiro trabalho foi chamado The Missing 19 db., tratava-se de lidar com a voz. A segunda obra se chamava Walled Unwalled e tratava de reflexões sobre o tipo de arquitetura e da compreensão do tipo de acústica que estava em ação. E o terceiro foi After SFX, que lidava com a memória”.

No escuro e em silêncio, a capacidade de ouvir mínimos sons foi desenvolvida pelos detentos. O artista trabalhou com essa memória auditiva, mas descobriu que a nossa memória sonora da violência é profundamente influenciada pelos sons fabricados no cinema e na televisão, por meio de objetos.  Lawrence passou a encontrar diferentes objetos para criar seu próprio inventário sonoro.

O artista jordaniano, nascido em Omã, se considera um “ouvinte particular”, fazendo investigações minuciosas em torno dos sons, ruídos, falas e silêncio, no intuito de destacar sua importância nas sociedades contemporâneas e, mais especificamente, sua natureza profundamente política. Seu trabalho usa os sons como testemunhos da violência e injustiça e já foi usado como evidência em investigações judiciais, ajudando a revelar episódios de abuso, violência e repressão.

A sua obra Rubber Coated Steel (aço revestido de borracha, 2016) partiu de um pedido da organização de defesa dos direitos humanos Defence for Children International para investigar o assassinato de dois adolescentes palestinos por soldados israelenses. Ele analisou o som gravado das balas, em parceria com a agência de direitos humanos Forensic Architecture, e provou que os soldados da ocupação israelenses que atiraram nos garotos não haviam usado balas de borracha, como haviam declarado, mas que dispararam com munição de armas de fogo. Essas análises mais tarde se tornaram evidências cruciais escolhidas pelo canal de notícias CNN e outras agências internacionais de notícias, obrigando Israel a renunciar à negação original. Durante a pandemia, ele se dedica a investigar, pelo som, as violações israelenses no espaço aéreo libanês.

Sua obra, na 34ª Bienal, se relaciona com as Cerâmicas Paulistas, um dos enunciados da mostra, feitas desde o século 16 até hoje, resultado da criação original de mulheres Tupiniquim que se valeram de um processo de intercâmbio de técnicas, repertórios e modelos com os colonizadores portugueses, como tática para a preservação da identidade. Os objetos lembram a importância da memória como um modo de confrontar as narrativas usadas como justificativa de processos de espoliação, destruição e exploração que permanecem em curso.

Os enunciados são um dos elementos centrais da concepção curatorial da 34ª Bienal, são quatorze elementos que não necessariamente são obras de arte, mas possuem histórias marcantes, capazes de sugerir uma leitura às obras dispostas ao seu redor. A curadoria recorre a esses itens como forma de buscar uma linguagem capaz de delinear os campos de força criados pelo encontro de obras produzidas em lugares e momentos distintos sem, no entanto, limitar as leituras a temas ou conceitos específicos.

Na vídeo-instalação presente na mostra, os depoimentos se juntam a uma composição de sons e as analogias sonoras usadas para descrever o que ouviram.  A sala completamente escura, que exibe trechos das entrevistas, uma narração baixa em português e uma composição de sons que mimetizam os ouvidos em Saydnaya é contaminada pelo som das duas obras próximas, com as músicas altas, da obra  Evil.16 (Torture.Musik) (2009-11), de Tony Cooke, que reflete sobre a tortura sonora usada pelos Estados Unidos contra árabes; e os gritos repetitivos da obra FRYDM (2011), de Luisa Cunha, uma releitura do grito de presos ao serem libertados de prisões subterrâneas, na Líbia.

Em entrevista para a Umbigo Magazine, a artista portuguesa Luisa Cunha afirmou que em algumas de suas obras, como em FRYDOM, “os textos refletem uma indignação esculpida”; o dialogismo das três obras juntas reflete essa indignação, causa um mal estar, modifica seus sentidos individuais, retira as obras de um contexto específico – uma prisão específica – para refletir sobre o som em situações extremas.

“Cunha produziu a obra FRYDM em resposta a um episódio histórico real: a libertação, na Líbia, de prisioneiros que, durante o regime de Muammar al-Gaddafi, haviam sido mantidos em celas de cimento subterrâneas, com apenas pequenas frestas para ventilação. Na releitura da artista, o grito quase incompreensível dos presos emerge de uma caixa de material fotográfico, numa alusão ao papel que a imprensa internacional teve na libertação deles”, conta a descrição da obra.

O som em looping de gritos que às vezes se assemelha à palavra “Freedom” (liberdade), é extremamente angustiante e ecoa por todo o 3º andar do pavilhão da Bienal, tornando impossível visitar o andar e não ser impactado pelo trabalho de Cunha.

“Fiquei muito impressionada durante a Primavera Árabe quando li na internet sobre a libertação de prisioneiros políticos, que se encontravam em celas de cimento enterradas na terra e só tinham frestas, e ninguém sabia que as celas estavam lá”, conta em uma aula na Universidade Católica Portuguesa. O som, ouvido na obra, é o grito de liberdade dito pelos árabes, em inglês, ao saírem do subterrâneo e verem a imprensa estrangeira.

Trecho da aula “O som pode ser um objeto”, de Luisa Cunha na Escola das Artes da UCP, em que a artista comenta a obra FRYDM.

“Essas coisas políticas pungentes tem efeito em mim, eu não consigo esquecê-las,

Eu posso dizer que eu não parto de nada [para produzir as obras], eu parto de emoções”, diz ela.

Dispostas na expografia uma ao lado da outra, em forma de triângulo, as músicas altas – de Britney Spears a Metallica – da obra de Tony Cooke, adquirem um tom assustador ao serem misturadas com os gritos angustiantes da obra de Luisa Cunha.

“‘Sem música, a vida seria um erro’, disse Nietzsche, mas para os presos muçulmanos é o contrário. Músicas americanas são tocadas em volumes tão altos que eles acham que suas vidas foram um erro”, diz o texto Discoteca do Inferno do escritor egípcio-americano Moustafa Bayoumi, publicado no The Nation em 25 de dezembro de 2005, e usado como texto da obra Evil.16 (Torture.Musik), do artista Tony Cokes.

A obra, presente na 34ª Bienal de São Paulo, desloca excertos do artigo de Bayoumi sobre o uso da música e som como armas de tortura acompanhado de canções ou artistas identificados no artigo como tendo sido usados em operações de tortura dos Estados Unidos contra árabes. A obra faz parte da série Evil, que consiste na justaposição de enunciados provenientes de fontes distintas, com o objetivo de abordar o conceito do mal na sociedade contemporânea. “A Discoteca não morreu. Ela só foi para a guerra. E está por toda a parte: Afeganistão, Guantánamo, Abu Ghraib. Qualquer lugar afetado pela ‘guerra ao terror’”, diz um trecho da obra.

“Yasir al-Qutaji é um advogado de 30 anos de Mosul, no Iraque. Em março de 2004, ao acusar a tortura de iraquianos por soldados americanos, Qutaji foi preso. A imprensa divulgou que ele foi submetido às mesmas punições que estava investigando. Ele foi encapuzado, despido e mergulhado em água fria. Ele foi espancado por soldados americanos que usavam luvas para não deixar marcas permanentes. E foi deixado em um quarto, o qual os soldados jovialmente chamavam de ‘A discoteca’, onde tocava música ocidental tão alta que os interrogadores tinham, nas palavras de Qutaji, “que falar por alto-falantes próximos aos meus ouvidos”.

Outro trecho presente é a experiência do iraquiano Saddam Salah al-Rawi, em Abu Ghraib. “Sem razão, por 4 meses, ele foi encapuzado, espancado, despido, urinado e amarrado pelas mãos e pés. ‘Tinha um aparelho de som na cela’, ele disse, ‘com música tão alta que não conseguia dormir. Fiquei assim por 23 horas’”.

As três obras refletem situações extremas de tortura e violência institucional – praticadas tanto por ditaduras como de Bashar al-Assad, na Síria, ou Muammar al-Gaddafi, na Líbia, como pelo “governo democrático” dos Estados Unidos na chamada “Guerra ao Terror”. Refletem o escuro de forma literal, mas há também o canto.

As obras existem porque essas pessoas sobreviveram, contaram suas histórias, denunciaram seus algozes e conseguiram, finalmente, dar seu grito de liberdade.

Faz escuro mas eu canto,

porque a manhã vai chegar.

Thiago de Mello

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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