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Uma nova geração palestina lidera uma nova estratégia de comunicação

Protesto contra a expansão colonial israelense sobre o bairro palestino de Sheikh Jarrah, em Jerusalém ocupada, 30 de julho de 2021 [Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images]
Protesto contra a expansão colonial israelense sobre o bairro palestino de Sheikh Jarrah, em Jerusalém ocupada, 30 de julho de 2021 [Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images]

Dentre os principais desenlaces dos eventos no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém ocupada, e o subsequente ataque israelense contra a Faixa de Gaza, está a emergência de uma nova geração palestina, de métodos pouco ortodoxos, que lidera a batalha de mídia contra a colonização tanto em âmbito local quanto internacional. Foram os jovens palestinos que pavimentaram o caminho a uma nova estratégia de comunicação, caracterizada por um discurso moderno e propostas arrojadas, que chamam as coisas por seu verdadeiro nome ao invés de conservar uma velha cautela política sobre o conflito. Essa geração obteve êxito em restaurar o espírito da causa palestina para colocá-la na agenda internacional mais outra vez, após permanecer estagnada por anos e anos e subjugada por questões regionais, como programa nuclear iraniano, revoluções árabes e acordos de normalização árabe-israelense.

As origens dessa estratégia podem ser traçadas a Sheikh Jarrah, onde residentes ainda enfrentam uma política de limpeza étnica em benefício de colonos ilegais. Dezenas de jovens palestinos, a maioria em torno dos vinte anos de idade, reuniram-se em tendas de solidariedade com residentes locais, mas houve pouca cobertura de mídia sobre os ataques perpetrados por colonos e pela polícia israelense. Ainda pior, não houve nenhuma posição da Autoridade Palestina sobre a agressão.

Neste contexto, essa nova geração assumiu para si a responsabilidade e decidiu bombardear as redes sociais com fotografias e vídeos transmitidos ao vivo do coração do problema. Suas postagens viralizaram em todo o mundo. Corporações da grande imprensa, tradicionalmente simpáticas a Israel, foram forçadas a notar Sheikh Jarrah e deixar que os ativistas contassem sua versão.

Os gêmeos Muhammad e Mona el-Kurd, por exemplo, estão na vanguarda dessa nova geração de influencers palestinos. Em tempo recorde, atraíram milhares de seguidores nas redes sociais. Então, organizaram apoio e defesa aos residentes de Sheikh Jarrah e sua mensagem chegou ao público global. Em seu recente discurso de graduação na Universidade de Birzeit, Mona falou sobre uma nova era à qual ela e seu irmão, junto de muitos outros ativistas, deram início — ao tornar públicos os relatos palestinos apesar da veemente censura ao conteúdo de resistência imposto pelos administradores das redes sociais, sob pressão israelense para assegurar que a narrativa sionista permaneça dominante.

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A maior parte do sucesso de Mona, Muhammad e dezenas de outros ativistas está no uso do inglês e outros idiomas internacionais nas suas redes sociais. De fato, ajudou a promover a consciência no público ocidental, onde o apoio à ocupação é regra há muito e muito tempo. Pesquisas de opinião recentes demonstraram que a imagem de Israel está danificada, mais outra evidência do êxito palestino em restabelecer a balança a favor de sua causa.

Além disso, a televisão ocidental — em geral, tendenciosa a favor de Israel — teve pouca ou nenhuma escolha senão receber ativistas palestinos em seus programas, a fim de manter sua relevância, credibilidade e audiência. Muhammad el-Kurd logo destacou-se devido à sua proficiência en inglês e uso de termos legais apropriados ao conflito. Por exemplo, não se intimidou em descrever a ocupação de Israel como “colonialismo” e contestou linhas editoriais históricas. Em mais de uma entrevista, Muhammad corrigiu as perguntas dos apresentadores e os constrangeu a referir-se aos eventos em campo pelo que são, sem qualquer subterfúgio retórico ou discriminação.

Na falta de vozes oficiais palestinas, portanto, essa nova geração conseguiu manobrar o discurso de mídia — milhares de jovens tornaram-se porta-vozes quase oficiais no processo. Conquistaram em semanas o que oficiais palestinos fracassaram em décadas. Não obstante, tamanha reviravolta demanda reflexão, de modo que o discurso palestino — sobretudo destinado ao Ocidente — desenvolva-se ainda além para tornar-se mais e mais eficaz, com base nos direitos legítimos do povo palestino, e para ser mais proativo e menos reativo em suas conquistas.

Trata-se de algo essencial para reagir à propaganda israelense (hasbara), cujo objetivo é restringir o discurso de imprensa direcionado à opinião pública ocidental e árabe. Por anos e anos, Israel foi bem sucedido em persuadir o Ocidente a adotar sua narrativa distorcida, com atrozes recursos de lobby e conglomerados de mídia. Os palestinos, em contrapartida, careciam de uma estratégia de comunicação contundente e inovadora. Embora a ascensão de movimentos de ação social e direitos humanos — como a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) — tenha conquistado uma mudança dramática nas denúncias sobre a ocupação e suas políticas racistas contra os palestinos, a difamação israelense sobre tais iniciativas manteve-se hegemônica na grande imprensa. Alegações de antissemitismo foram adotadas como arma neste processo, como bem sabem os ativistas.

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Contudo, os eventos em Jerusalém e Gaza provaram que os palestinos podem utilizar as redes sociais e mesmo a grande imprensa a seu favor, apesar das tentativas israelenses de representar os eventos em Sheikh Jarrah como mera disputa imobiliária entre partes iguais. Os novos ativistas palestinos do mundo digital são extraordinários em gerir essa batalha. Quase ninguém acredita mais na absurda versão israelense, à medida que a polícia espanca e prende residentes locais que defendem sua casa, além de manifestantes solidários que protestam ao seu lado. O mesmo vale para a brutal ofensiva militar de Israel contra Gaza sitiada. A cobertura ao vivo dos ativistas nas redes sociais expôs os crimes israelenses perpetrados contra a população civil, incluindo crianças.

Dentre as conquistas dessa nova geração, está um novo impulso para unir os palestinos sob ocupação contra a colonização israelense e gerar, no caminho, apoio global em defesa de sua causa. Todavia, é apenas o começo. Os palestinos precisam desenvolver cada vez mais sua presença e seu discurso nas redes sociais, sobretudo direcionado ao Ocidente. A batalha contra a ocupação continua e a causa palestina demanda constante apoio global. Essa estratégia de mídia tão inovadora mostra-se eficiente. Portanto, deve avançar — mesmo quando a grande imprensa voltar-se a uma nova pauta um pouco “mais relevante”.

Este artigo foi publicado originalmente em árabe pela rede Al-Arabi Al-Jadeed, em 10 de agosto de 2021

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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