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Agricultoras palestinas e brasileiras lutam pela terra, a justiça e a vida

Agricultora do MST durante “Curso de Formação de Agentes Populares de Agroecologia” realizado em parceria entra a UFSCar, o MST, o Centro de Formação Sócio-Agrícola Dom Hélder Câmara e outros parceiros. Foto: Filipe Augusto Peres
Agricultora do MST durante “Curso de Formação de Agentes Populares de Agroecologia” realizado em parceria entra a UFSCar, o MST, o Centro de Formação Sócio-Agrícola Dom Hélder Câmara e outros parceiros. Foto: Filipe Augusto Peres

Elas vivem em regiões muito diferentes do planeta, amam o pedaço de terra em que nasceram, são pequenas agricultoras e grandes mulheres unidas por uma causa em comum: o direito à terra de suas famílias e seus ancestrais, o direito a colher de uma terra plurissecular os frutos das oliveiras, das videiras e de todas as árvores que marcaram suas vidas e trajetórias.

Nessa semana celebramos no Brasil o Dia Nacional da Agricultura Familiar, mas muitos brasileiros não têm ideia de que 70 por cento do alimento que chega à sua mesa vem da agricultura familiar e é fruto dos sonhos de um pequeno produtor e não de um grande produtor ligado ao agronegócio.

Pequenos agricultores e pequenas agricultoras familiares são uma das espinhas dorsais da alimentação humana, da dignidade, e do combate à fome no Brasil e no mundo.

No Brasil, segundo a lei outorgada em 24 de julho de 2006, o pequeno produtor não pode ser dono de uma área maior que quatro módulos fiscais e as mãos que trabalham em sua terra devem ser de sua própria família, assim como a gestão de todas as fases dessa atividade. A agricultura familiar no nosso país tem o rosto de uma mulher indígena, de uma mãe quilombola, de jovens pais de uma comunidade de um assentamento legalizado no interior de São Paulo, de uma jovem família de pescadores caiçaras de Ubatuba, de um casal de plantadores de milho, feijão, mandioca, e sonhos no interior da Bahia.

Cada uma dessa mulheres e homens contribuem imensamente para alimentar um país continental como o Brasil, pois tem seus sonhos e sua produção voltados para o mercado local, e o que é produzido por eles chega de forma rápida para a mesa de milhares de famílias, gerando, como numa imensa colmeia, alimentos, renda, segurança alimentar e dignidade para milhões de pessoas. Uma rede de produção que tem surpreendido o mundo, pois o trabalho realizado pelas famílias agricultoras é menos agressivo ao meio ambiente e muito mais sustentável do que a produção em escala industrial imposta pelo agronegócio.

Uma das caracteristicas fundamentais desse tipo de agricultura é o respeito à vida, aos animais, e aos recursos naturais do planeta, já que as mulheres e homens que administram pequenas lavouras não utilizam agrotóxicos, e se dedicam ao plantio de alimentos diferentes, o que é muito melhor para a terra do que a monocultura de um produto como a soja, por exemplo, produzida em larga escala pelos barões do agronegócio.

Um grupo de pequenas produtoras rurais brasileiras recebeu recentemente um reconhecimento da ONU, ao lançarem uma espécie de caderneta para visualizar toda a produção agrícola, ter mais controle sobre ela e ajudar outras mulheres a fazerem o mesmo. As cadernetas e outras iniciativas surgiram através das mulheres de Itaóca, interior de São Paulo, e têm sido uma revolução silenciosa, impulsionada por lideranças femininas rurais que lutaram para que o censo feito pelo governo federal passasse a contar o número de pequenas produções agrícolas administradas por mulheres. Foi só depois de uma grande reivindicação feita por elas que o Censo Agropecuário, a partir de 2017, passou a fornecer dados que revelaram o número crescente de plantações geridas exclusivamente por mulheres. Se, por um lado, as pequenas produtoras agrícolas têm tido algumas vitórias fundamentais e têm feito com que suas vozes sejam ouvidas num Brasil ainda extremamente patriarcal, por outro, a violência no campo aumentou assustadoramente nos últimos anos, assim como a violência contra a mulher, seja em áreas urbanas, nos pequenos munícipios do Brasil, ou dentro de suas próprias casas.

Recentemente, um grupo de mulheres do MST do Rio Grande do Sul, lideradas por Sílvia Reis, criou um movimento contra a violência no campo, e sobretudo, de proteção aos mais vulneráveis. O movimento trabalha com três eixos fundamentais : o combate à violência contra a mulher e a criança, o autocuidado no campo e a resistência ativa no campo, contra os assassinatos e a violência contra os assentamentos do MST.

Segundo a própria Comissão Pastoral da Terra, de 1964 a 2016, foram registrados quase três mil assassinatos no campo, crimes que ceifaram as vidas de homens, mulheres e crianças brasileiras por motivos econômicos e torpes. O número de mortos na região amazônica, onde garimpeiros e jagunços têm deixado um rastro de sangue por onde passam, que vinham diminuindo de 2000 até 2016, têm tido um aumento alarmante desde o final de 2016, e vem preocupando organizações humanitárias do mundo inteiro. Os números entristecem e envergonham o Brasil. 446 mulheres foram ameaçadas de morte no campo no período que vai de 2011 a 2020. Grande parte delas são quilombolas, indígenas e trabalhadoras rurais.

As regiões norte e nordeste, de triste domínio dos oligarcas e de um patriarcado rural sem fim, também têm visto suas terras serem machadas de sangue há anos. Um dos casos que mais me emocionaram, quando eu era apenas uma menina, foi o da brasileira Margarida Maria Alves (1933-1983), uma mulher paraibana cuja morte chocou o mundo. Margarida foi uma das fundadoras do CENTRU – Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural e foi assassinada em frente à sua casa, diante de seu marido e do filho que tanto amava.

A morte dela levou à criação do “Dia Nacional Contra a violência no campo e a Reforma Agrária” e à criação da “Marcha das Margaridas”.

A morte de Margarida não foi o fim de sua trajetória de lutas, foi a semente de uma revolução que tem dado voz às trabalhadoras rurais, ao direito à terra e às muitas formas de violência enfrentadas pelas mulheres brasileiras no campo.

Tão distantes e tão próximas dessas brasileiras, tão diferentes e tão iguais, unidas pela mesma luta e pela mesma dor, estão as mulheres que conheci e com quem me emocionei em vilarejos da Palestina como Salem e Al Khader.

Ligadas visceralmente às lindas oliveiras que simbolizam sua terra, as mulheres palestinas viram, nas últimas décadas, o cenário da colheita das azeitonas se transformar em um cenário de terror, barbárie e violência impostos por terroristas judeus estrangeiros, vindos dos EUA em sua maioria, sem nenhuma ligação com aquela terra, e instalados ilegalmente nas colônias igualmente ILEGAIS que Israel tem criado ao redor de vilarejos palestinos lindos e milenares.

Foi em Salem, na Palestina, que descobri pela primeira vez a crueldade do apartheid imposto por Israel aos palestinos de muitas formas e até mesmo durante um ritual milenar como a colheita de azeitonas. Foi ali que descobri que um portão horrível, inacreditavelmente enferrujado e sem nenhum sentido impedia meus amigos palestinos de entrarem em sua própria terra e de chegarem às suas oliveiras, para as quais só tinham acesso quatro dias por ano, por determinação dos israelenses. Descobri ali que a estrada ficava sempre fechada para os agricultores palestinos e que os moradores do vilarejo, que possuíam mais de mil hectares de terra, herdados de seus pais e cultivados por eles com imensa dedicação, só podiam chegar às oliveiras com uma autorização das autoridades israelenses, e somente depois de, muitas vezes, serem agredidos por extremistas judeus ao circundarem a estrada que passa pelos colonatos ilegais feitos por eles.

Uma das mulheres palestinas que entrevistei me contara, com imensa tristeza, que o trabalho de colheita que levaria dez dias para ser feito com paz e dignidade, teria que ser feito em dois dias, antes que a autorização emitida pelo apartheid israelense expirasse.

Foi ali que, numa quinta-feira de imensa dor para as mulheres palestinas, meus olhos viram colonos judeus extremistas arrancando e queimando os galhos de 11 oliveiras da região e agredindo com palavras e gestos obscenos dezenas de mulheres e crianças palestinas. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCAH) nos territórios palestinos ocupados, milhares e milhares de oliveiras têm sido destruídas dessa forma nos últimos anos por colonos israelenses. Não é apenas uma destruição profundamente simbólica, mas algo que prejudica de maneira visceral a economia palestina e a produção do óleo de oliva nos Territórios Palestinos Ocupados, que representa 14% da renda agrícola da área e o sustento de aproximadamente 80 mil famílias palestinas. É uma perda imensa e absurdamente injusta, resultado direto da violência dos colonos judeus ou das leis de restrições ao acesso dos agricultores às suas oliveiras.

O azeite produzido por muitas mulheres palestinas com quem conversei é muitas vezes o único meio de sustento de sua família, uma família que antes podia se manter com dignidade, mas que com a destruição das oliveiras por judeus extremistas, passa a depender do apoio de organizações humanitárias.

Plantar e colher azeitonas é muito mais do que um meio econômico para muitas mulheres palestinas. Como me disse Samira, ao lado de sua filha, numa tarde de colheitas, sonhos, amizade e solidariedade na Palestina, “ as oliveiras são uma parte fundamental de nossa identidade cultural, parte do que somos como palestinas, como mulheres, como mães que lutam pela liberdade de nosso país e pela paz”.

Nos últimos anos, houve vários ataques de extremistas judeus do colonato israelense ilegal de Sidi Boaz contra as mulheres palestinas e contra suas terras. Ataques covardes, vindos dos mesmos homens que, no Domingo de Páscoa de 2020, destruíram cerca de 350 oliveiras pertencentes às famílias palestinas do vilarejo de Al-Khader, perto de Belém, onde estive há poucos anos.

Em um outro ato de puro terrorismo e barbárie, um grupo de colonos judeus do assentamento ilegal de Gush Etzion abriram os esgotos das ruas para inundar as terras agrícolas da cidade vizinha de Beit Ummar, destruindo centenas de plantações e de pomares. O esgoto, claro, destruiu grande parte da colheita.

Ao longo dos anos, os governos israelenses promoveram uma cultura de impunidade total para colonos judeus que cometam atos de destruição, agressão e terrorismo contra mulheres e famílias palestinas, e a ONU e a HWR têm denunciado esses atos há décadas, sobretudo no que se refere às oliveiras, e à produção de azeitonas, o principal meio de sobrevivência de milhares de famílias palestinas.

“ O que tem acontecido aqui é desumano, Lúcia, é um crime contra a humanidade e contra a vida na Terra, mas jamais deixaremos de lutar pelas nossas oliveiras, pela Palestina e pela vida de nossos filhos e netos…” me disse Samira, enquanto me dava um ramo da oliveira plantada um dia por seus avós.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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