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Netanyahu conquistou a América, mas perdeu Israel

Ex-premiê israelense Benjamin Netanyahu após encontro com a Secretário do Tesouro dos Estados Unidos Janet Yellen em Jerusalém ocupada, 7 de janeiro de 2021 [Emil Salman/AFP via Getty Images]

O agora ex-premiê de Israel Benjamin Netanyahu é tão americano quanto é israelense. Outros líderes do estado sionista de fato mantiveram fortes relações com Washington, como pedra angular de sua política, mas o estilo político de Netanyahu mostrou-se essencialmente americano desde o princípio.

Netanyahu passou a maior parte de seus anos de formação nos Estados Unidos, viveu na Filadélfia quando criança, estudou no Colégio Cheltenham quando jovem e obteve um diploma em Administração do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em 1976. Então optou residir nos Estados Unidos e não em Israel quando filiou-se ao Grupo de Consultoria de Boston.

Supostamente por razões de família, sobretudo a morte de seu irmão Yonatan, Netanyahu retornou a Israel em 1978 para fundar o Instituto Yonatan Netanyahu de Antiterrorismo. O projeto pouco durou e então instalou-se em Nova York para servir como representante permanente do estado israelense nas Nações Unidas, entre 1984 e 1988. Na ocasião, Israel era governado por uma coalizão que presumia rotação de dois anos entre Shimon Peres, líder do Partido Trabalhista, e Yitzhak Shamir, líder do partido conservador Likud.

Naquele tempo, termos como “trabalhista” ou “Likud” significavam muito pouco aos políticos americanos. O Congresso dos Estados Unidos parecia apaixonado por Israel. Para eles, a política israelense era assunto interno e distante. Mas as coisas mudaram e Netanyahu teve grande papel nessa transformação.

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Mesmo nas últimas três décadas, quando Netanyahu tornou-se mais e mais comprometido com a política nacional sionista, manteve em si um coração americano. Seu relacionamento com as elites dos Estados Unidos era claramente distinto de seus predecessores na liderança israelense. Não apenas suas ideias políticas e intelectuais foram moldadas nos Estados Unidos, como também conseguiu criar um ramo político único de solidariedade sionista entre os cidadãos americanos. No país, Netanyahu tornou-se um nome de família.

Um dos êxitos atribuídos à sua abordagem sobre a política dos Estados Unidos foi a formação de laços profundos e permanentes com grupos fundamentalistas cristãos. O nicho, representando pela fundação Cristãos Unidos por Israel, por exemplo, liderada pelo televangelista John Hagee, utilizou seu apoio à ocupação — com base em interpretações vagas de profecias bíblicas e messianismo — como denominador comum e alicerce para impor-se à vida política. Netanyahu os usou como aliados confiáveis que, eventualmente, compensaram a falta de entusiasmo sionista entre círculos liberais e progressistas nos Estados Unidos.

A conexão entre o cristianismo evangélico e Israel parecia assim um golpe de mestre que poderia ser atribuído ao “gênio” de Netanyahu. De fato, era como se Netanyahu tivesse garantido indefinidamente a lealdade americana ao estado israelense. O pressuposto demonstrou-se inúmeras vezes, sobretudo quando os fundamentalistas socorriam Israel sempre que este engajava-se em uma guerra ou enfrentavam qualquer tipo de ameaça, seja real, imaginária ou fabricada.

À medida que a política nos Estados Unidos avançou a ideologias cada vez mais conservadoras e populistas, os evangélicos também se aproximaram dos centros de poder na região do Capitólio. Vale notar que o conservadorismo do Tea Party, um dos movimentos que acendeu as faíscas do subsequente caos trumpista, parecia louco de amores por Israel. Campos políticos antes marginais, com retórica motivada por uma amálgama de profecias e suposto pragmatismo, eventualmente tornaram-se a base do ex-presidente Donald Trump. Desta forma, não havia alternativa senão conceder apoio irrestrito a Israel como valor fundamental de sua campanha e seus eleitores jamais aceitariam nada menos.

O caso de amor entre Trump e Netanyahu sobre Jerusalém e o destino palestino [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Um argumento comum sugere que o erro fatal de Netanyahu foi tornar Israel uma questão doméstica nos Estados Unidos. Apesar dos republicanos ainda apoiarem Israel — graças a seu enorme eleitorado evangélico —, grupos democratas passaram pouco a pouco a voltar-se contra o estado colonial, um fenômeno sem precedentes visto apenas sob a ingerência de Netanyahu. Embora verdade é também inexato, à medida que sugere meramente um erro de cálculo por Netanyahu. Ao contrário, o então premiê efetivamente alimentou um forte relacionamento com diversos grupos evangélicos muito antes de Trump sequer considerar concorrer à presidência. Netanyahu queria apenas mudar o centro de gravidade da relação entre Washington e Tel Aviv — o que conseguiu.

Para Netanyahu, o apoio do campo conservador americano não era somente uma estratégia para reunir apoio à entidade sionista; tratava-se ainda de afinidade ideológica, ao vincular suas próprias crenças à política dos Estados Unidos por meio de fundamentalistas cristãos como veículo. Tal fato se demonstra em uma manchete recente do jornal Times of Israel: “Israel pode perder apoio caso Netanyahu seja deposto, alerta líder evangélico”.

A figura em questão é Mike Evans que, em visita a Jerusalém ocupada, declarou assertivamente: “Bibi Netanyahu é o único homem no mundo que une os evangélicos”. Evans prometeu levar seus 77 milhões de seguidores à oposição israelense contra qualquer governo que excluísse o ex-premiê. Pode-se aferir diversas ideias de tais ameaças, mas sobretudo o fato de que os evangélicos americanos de fato consideram a si próprios como um aspecto essencial à política israelense, ao passo que seu apoio é condicionado, contudo, à centralidade de Netanyahu na arena política do país.

Nas últimas semanas, muitas comparações entre Netanyahu e Trump ressurgiram. Embora apropriadas, a questão é levemente mais complexa do que meramente equiparar estilos políticos, discursos selecionados e mesmo seus personagens em campo. Na realidade, tanto o trumpismo quanto a vertente de Netanyahu do conservadorismo israelense — vamos chamá-la de netanyahismo — emergiram com êxito em ambos os países de uma forma quase impossível de apartar. Não obstante, tais relações poderão mostrar-se continuamente custosas a Israel, dado que o apoio republicano e evangélico é condicionado à habilidade da ocupação em servir à agenda política — senão espiritual — do conservadorismo americano.

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Semelhanças entre Trump e Netanyahu são óbvias, mas arriscam ser também superficiais. Ambos são políticos narcisistas, dispostos a desestabilizar todo o país para permanecer no poder, como se vivessem absolutamente a máxima francesa “Après moi, le déluge” — “Depois de mim, a enchente”. Ambos mantiveram ataques contra partes da elite tradicional e colocaram tendências políticas marginais — frequentemente chauvinistas e fascistoides — no centro da arena política. Ambos falaram de traição e fraude quando conveniente e exerceram o papel de vítima e único salvador possível de seus respectivos países. Trata-se de uma lista profícua.

Mas tendências populares dessa natureza não podem ser plenamente associadas a indivíduos. De fato, podemos argumentar que tanto Trump quanto Netanyahu aproveitaram a janela e exploraram um fenômeno político já existente que teria emergido com ou sem eles. A dolorosa verdade é que o trumpismo deverá sobreviver muito após a queda de Trump e que o netanyahismo alterou a imagem de Israel, não importa o que faça o ex-premiê. Seja como for, certamente agirá dentro de um campo familiar: seu exército iracundo de zelotas sionistas com apoio de fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos e em outros países. Netanyahu conquistou a América; por ora, perdeu Israel.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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