Os governos da América Latina diante do martírio do povo de Gaza

Ato na Argentina solidariedade com o povo palestino denunciam o uso das tecnologias israelenses pelo Estado argentino [Resumen Latino Americano]

Na América Latina como em Gaza, o levante dos povos originários tem sido eloquentes ao procurar mover a política contra os poderes considerados coloniais e violentos. Os indígenas reverteram uma situação de golpe na Bolívia, estão ladeados com a juventude que tomou as ruas contra o governo na Colômbia, e se mobilizam para ajudar a levar um professor rural a derrotar a ameaça fascista da família Fujimori no Perú. Esse ambiente de batalhas anticoloniais coloca peso nas posições da região em relação ao que acontece hoje no conflito Israel-Palestina.

Na última década, os laços com o povo palestino, via de regra, foram alimentados por governos de esquerda.  Como disse o chefe da União das Comunidades Palestinas na América Latina,  Samaan Safadi Khoury, em entrevista ao Monitor do Oriente Médio “ a causa palestina é uma questão de justiça humana, uma causa de direito e de legitimidade, e isso vale para qualquer sistema político, seja de direita ou de esquerda, como devemos saber. No entanto, é necessário destacar que a direita é hostil à causa palestina e aos palestinos, e encontramos um bom apoio político dos partidos e governos de esquerda.”

Os confrontos iniciados em 10 de maio em Jerusalém de Sheikh Jarrah, os ataques entre Gaza e Israel, e a escalada da destruição, violência e mortes, majoritariamente de civis palestinos, obrigou países do mundo todo a se manifestarem.

Na América Latina, os governos apelaram pelo fim dos conflitos, mas se dividiram entre a solidariedade com a causa palestina contra o bombardeio de Israel ou a defesa da reação de Israel contra os foguetes lançados de Gaza.  As diferenças de posição revelam um continente ainda dividido  após uma sucessão de golpes brancos, o chamado lawfare, que colocou a rearticulação da direita em evidência na região.

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O governo da Argentina de Alberto Fernandez, que derrotou a direita nas últimas eleições ,acusou o uso desproporcional da força israelense. Foi atacado pela oposição ligada ao governo anterior, de Maurício Macri, e cobrado a acusar o Hamas de terrorismo. Fernandez, que tem mantido relações de proximidade com Israel,  não foi além. Frustrada, a direitista Patricia Bullrich enviou uma carta à embaixadora de Israel em Buenos Aires, Galit Ronen, em solidariedade pelos ataques sofridos e em apoio ao “legítimo exercício do direito de defesa” de Israel.

O   vizinho Uruguai, que  já reconheceu em 2011, a Palestina como Estado independente, desta vez seguiu o exemplo da argentina Patrícia. O presidente Luis Lacalle Pou, cuja eleição interrompeu uma sequência de governos de esquerda, se solidarizou com o embaixador de Israel, Yoed Magen e  condenou o que chamou de atos terroristas contra o território israelense.  Acabou sendo criticado publicamente pelo empresário da área gastronômica, Martin Pittaluga, gerando polêmica no meio empresarial.

O Panamá condenou “nos termos mais veementes”, o lançamento de mísseis de Gaza contra Israel mas alertou que “o direito de Israel de proteger seus civis deve ser proporcional e com o máximo de contenção no uso da força”.

Em uma linha de moderação sem dizer a quem se refere no recado, o Paraguai pediu o diálogo e condenou “o terrorismo em todas as suas formas”

O Chile, com a maior e mais antiga comunidade palestina do continente, e a caminho  também pediu calma e negociação. E defendeu a aplicação do direito internacional de  dois estados independentes “reconhecendo o direito de ambos os povos de viverem em harmonia, dentro de fronteiras seguras e reconhecidas.”

O Equador, em fim de mandato presidencial de Lenin Moreno, e perto da posse de um novo governo de direita,  considerou que “a hostilidade entre as partes —que levou à destruição e à morte— é inaceitável” e lembrou que ‘’as duas nações são obrigadas a cumprir as normas do direito internacional.”

Com firme alinhamento à causa palestina, Venezuela e Cuba, sob sanções dos Estados Unidos, e Bolívia, igualmente visada, condenaram Israel. O país de Chavez e Maduro pediu “o fim desta nova fase de violência sionista contra o povo palestino, bem como o compromisso dos atores envolvidos com o fim das hostilidades, a proteção dos direitos humanos e a garantia da inviolabilidade dos lugares sagrados sagrados para as comunidades muçulmanas e cristãs’’;

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A Bolívia de Evo Moraes e Luis Arce, que acaba de superar, pelo voto, o governo interino instalado por um golpe em 2019,  condenou a violência do Exército israelense e apelou “pela cessação dessas ações para salvaguardar a coexistência pacífica dos povos.”, declarou.

Cuba dos irmãos Castro e de Miguel Díaz-Canel olha o dedo para os Estados Unidos, que estendem “o manto da impunidade” sobre os crimes sionistas que insultam o mundo.

A atual contribuição do governo brasileiro nessa disputa não oferece qualquer surpresa. Nem mesmo é uma contribuição.

https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1392613176143978497

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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