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A política de baixo para cima vê o ativismo popular por trás de uma mudança pró-Palestina nos EUA

Os candidatos democratas à presidência, a senadora Elizabeth Warren (D-MA) (esq.) e o senador Bernie Sanders (I-VT) (dir.), interagem durante um intervalo no debate das primárias presidenciais democratas, em 25 de fevereiro de 2020, em Charleston, Carolina do Sul [Win McNamee/Getty Imagens]
Os candidatos democratas à presidência, a senadora Elizabeth Warren (D-MA) (esq.) e o senador Bernie Sanders (I-VT) (dir.), interagem durante um intervalo no debate das primárias presidenciais democratas, em 25 de fevereiro de 2020, em Charleston, Carolina do Sul [Win McNamee/Getty Imagens]

Em uma Conferência J Street online recente, os senadores norte-americanos Bernie Sanders e Elizabeth Warren quebraram outro tabu político quando expressaram a disposição de alavancar a ajuda militar dos EUA como forma de pressionar Israel a respeitar os direitos humanos palestinos. Sanders acredita que os EUA “devem estar dispostos a exercer pressão real, incluindo a restrição da ajuda norte-americana, em resposta aos movimentos de ambos os lados que minam as chances de paz”. Warren, por sua vez, mostrou disposição de restringir a ajuda militar como uma “ferramenta” para pressionar Israel a “ajustar o curso”.

Bernie Sanders é um verdadeiro amigo da Palestina [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Bernie Sanders é um verdadeiro amigo da Palestina [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Geralmente, as posturas cada vez mais pró-palestinas de Sanders são mais progressistas do que as de Warren. Ambos, entretanto, ainda estão pairando dentro do discurso democrata dominante: a disposição de criticar Israel, desde que seja acompanhada de igual – se não ainda mais contundente – crítica aos palestinos.

Seraj Assi explicou essa dicotomia em um artigo publicado na Jacobin Magazine: “A posição de Sanders sobre Israel-Palestina poderia, sem dúvida, ser mais progressista. Ele tem votado consistentemente a favor da ajuda militar dos EUA a Israel, que subsidia ocupação, expansão de assentamentos e violência sistemática contra os palestinos. Ele ainda se opõe à campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), ao assinar uma carta antiBDS ao Secretário-Geral da ONU, em 2017, e reiterar sua oposição ao BDS”.

No entanto, como o próprio Assi indicou, a posição de Sanders sobre a Palestina e Israel não pode ser julgada simplesmente contra algum ideal imaginado. Deve ser visto dentro do contexto da própria cultura política da América, dentro da qual qualquer crítica a Israel é vista como “herética”, se não totalmente antissemita.

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A influência de Sanders no discurso político democrata geral é palpável. Ele abriu o caminho para vozes mais radicais e mais jovens no Congresso dos EUA que agora criticam abertamente o estado de ocupação, enquanto permanecem praticamente ilesos pela ira do lobby pró-Israel, principalmente do Comitê de Relações Públicas de Israel (AIPAC, na sigla em inglês). Já se foi o tempo em que a AIPAC e outros grupos de pressão pró-Israel moldavam o discurso político americano sobre Israel e a Palestina. Nada indica que a maré virou completamente contra Israel, ainda. No entanto, uma mudança decisiva na opinião pública dos EUA não deve ser ignorada. É essa mudança popular que está dando poder às vozes dentro do Partido Democrata para falar mais livremente, sem comprometer suas carreiras políticas, como costumava acontecer no passado.

Para decifrar as raízes da ocupação anti-israelense e os sentimentos pró-palestinos entre os democratas, alguns números podem ser úteis. Embora Sanders, Warren e outras autoridades democratas estejam dispostos a criticar Israel, mas rejeitar com veemência o BDS, os membros do Partido Democrata não têm a mesma opinião. Uma pesquisa do Brookings Institute no início de 2020 descobriu que, entre os democratas que ouviram sobre o BDS, “uma pluralidade, 48 por cento, disse que apoiava o Movimento, enquanto apenas 15 por cento disseram que se opunham a ele”.

Isso indica que o ativismo de base, que se envolve diretamente com os americanos comuns, está moldando amplamente suas opiniões sobre o movimento de boicote a Israel. Os democratas comuns estão liderando o caminho, enquanto seus representantes estão apenas tentando alcançá-los.

Outros números também indicam o fato de que a grande maioria dos americanos se opõe aos esforços pró-Israel para promover leis e legislação como uma ferramenta política para criminalizar boicotes. Essas leis, eles acreditam corretamente, infringem os direitos constitucionais à liberdade de expressão. Esperava-se que 80% dos democratas liderassem a oposição a tais medidas, seguidos por 76% dos independentes e 62% dos republicanos.

Essas notícias devem ser perturbadoras para Tel Aviv. O governo israelense investiu pesadamente através da AIPAC e outros grupos pró-Israel para rotular o BDS e qualquer outro movimento que critica a ocupação militar e o apartheid sistemático na Palestina como “anti-semita”.

BDS 'beirou' o antissemitismo? [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

BDS ‘beirou’ o antissemitismo? [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Os israelenses acham esse novo fenômeno bastante confuso. O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, foi criticado repetidamente no passado, até mesmo por oficiais israelenses e analistas da mídia, por virar os democratas contra o estado de ocupação ao se posicionar descaradamente com o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e seu Partido Republicano contra seus rivais na América. Ao fazer isso, Netanyahu basicamente ajudou a transformar o apoio sem perguntas a Israel de uma questão bipartidária em uma causa exclusivamente republicana. Uma pesquisa Gallup de fevereiro de 2020 refletiu essa realidade, descobrindo que 70 por cento dos democratas apoiam o estabelecimento de um Estado palestino, em comparação com apenas 44 por cento dos republicanos.

O apoio enraizado a Israel entre os democratas estabelecidos é muito profundo – e bem financiado – para ser apagado em alguns anos, mas a tendência de ocupação pró-Palestina e anti-israelense continua inabalável, mesmo após a derrota de Trump nas mãos do candidato do Partido Democrata, o atual presidente, Joe Biden. O ano passado, em particular, foi difícil para o lobby pró-Israel, que não está acostumado a decepções eleitorais. Em junho passado, por exemplo, o lobby se encurralou ao se esconder atrás de um dos mais fiéis apoiadores do estado de ocupação, o deputado Eliot Engel, de Nova Iorque, e descreveu seu oponente Jamaal Bowman como “anti-Israel”.

Bowman dificilmente é anti-Israel, embora sua posição seja relativamente mais moderada do que as opiniões extremistas e unilaterais de Engel. Na verdade, Bowman deixou claro que continua a apoiar a ajuda dos EUA a Israel e se opõe abertamente ao BDS. No entanto, ao contrário de Engel, ele não era o candidato perfeito cujo amor por Israel é cego, incondicional e eterno. Para constrangimento do lobby, Engel perdeu sua cadeira no Congresso dos Estados Unidos, que ocupou por mais de 30 anos.

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Ao contrário de Bowman, Cori Bush é uma ativista popular do Missouri que depôs o congressista pró-Israel William Lacy Clay. Ela defendeu o movimento de boicote à Palestina como uma questão de liberdade de expressão, apesar de uma campanha de difamação implacável descrevendo-a como “antissemita” apenas por aparecer em fotos com ativistas pró-Palestina. Em agosto passado, Bush – uma mulher negra americana de origem humilde – tornou-se representante dos EUA no primeiro distrito congressional do Missouri, apesar dos esforços do lobby pró-Israel para negar-lhe tal posição.

É importante reconhecer o papel desempenhado por indivíduos na inegável mudança no discurso político americano sobre Palestina e Israel. Pessoas comuns estão fazendo uma diferença real. Enquanto o lobby pró-Israel ainda empunha a arma dupla de dinheiro e propaganda, o ativismo de base politicamente engajado está se mostrando decisivo para angariar solidariedade americana para a Palestina, enquanto traduz essa solidariedade lenta, mas seguramente em ganhos políticos. Essa é a política de baixo para cima em ação.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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