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O povo palestino precisa se libertar duas vezes

Entrevista com Mohamad El Kadri ativista pela causa Palestina e militante do PT que luta por posições efetivas contra a ocupação israelense e o papel da Autoridade Palestina
Mohamad El Kadri [Foto arquivo pessoal]
Mohamad El Kadri [Foto arquivo pessoal]

Prestes a completar 73 anos, a Nakba palestina se estende até aos dias atuais. A expulsão e humilhação do povo palestino, que começou com o projeto sionista de fundar Israel em um país que já existia, a Palestina, continua. Embora existam leis internacionais que condenam as ilegalidades cometidas por Israel, o Estado sionista segue massacrando e usurpando o povo originário daquela terra.

Mohamad El Kadri, ativista da causa palestina de longa data, afirma em entrevista cedida ao Memo, que o inimigo dos palestinos não está apenas em Israel, mas dentro da Palestina, na Autoridade Palestina, que mantém acordo de cooperação de segurança com os sionistas.

Kadri, que também é filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde os primeiros tempos pós-fundação, faz uma análise sobre a atuação de seu partido em relação à causa palestina.

Como surgiu seu interesse pela causa palestina?

Em 1979 participei de uma reunião da sociedade palestina, já existia em mim um interessante grande por política, após essa reunião, a causa palestina passou a ser uma segunda pele em mim, comecei a estudar e a ler mais sobre a Palestina. Neste mesmo período, surgiu também o PT (Partido dos Trabalhadores), e ai foi lançado um candidato palestino a deputado, em 1982, na primeira eleição praticamente que o PT participou. Ele se chamava Suhayl Sayegh. Trabalhei ativamente na campanha dele. O PT foi o primeiro partido que trouxe em sua carta de fundação a questão palestina, então fomos em bloco para o PT por conta disso. Entrei no PT nessa época, me filiei, e também já fui candidato, participando da vida política do país. Estou nessa luta há muitos anos.

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Como você analisa a atuação do PT com a questão palestina quando estiveram na presidência Lula e Dilma?

O posicionamento político é muito bom, mas só que ao mesmo tempo existe uma questão que o PT encara de forma administrativa e que repudiamos. Como é que eu vou la e faço um discurso político a favor da criação do estado palestino e ao mesmo tempo eu vou e tenho uma relação comercial fortíssima com esse Estado que impede a criação do Estado palestino? É algo que condenamos na época e condenamos agora. Atualmente, estamos tentando resgatar a história do PT em relação à causa palestina dentro do partido, com alguns outros movimentos que estão dentro do partido também. É paradoxal dizer que apoia a Palestina e fazer negócios com Israel, isso não é correto, não é viável, não é aceitável.

E os acordos estão se intensificando ainda mais…

Sim, a MSC 371/2019 (Mensagem de Acordos, convênios, tratados e atos internacionais) voltou para Câmara dos Deputados para votação, para um grande acordo de cooperação militar com Israel.

Tenho trabalhado na campanha para evitar este tipo de acordo, enviando mensagens a diversos deputados de vários partidos para que votem contra isso. Mas é complicado, porque como é que eu vou condenar agora esses acordos militares que estão querendo fazer entre Brasil e Israel se o próprio PT, no governo do PT, cometeu esses equívocos?

A diferença em relação a hoje é que, na verdade, no PT, existe uma parte política de apoio à criação do Estado palestino, no qual ele seja criado conforme a partilha da ONU. Bolsonaro não tem essa posição. Muito pelo contrário, ele é contra a criação do Estado palestino, contra a luta do povo palestino e achou em Israel a sua cara metade, porque é um Estado criminoso, Estado bandido, fora da lei, tal qual o próprio genocida se coloca. Ele é exatamente igual.

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Essa diferença eu coloco porque é um posicionamento político e ideológico ao mesmo tempo. Porque quem anda no lado da extrema direita, com posicionamentos como o de Bolsonaro, fascista, racista, é lógico que ele vai ter uma relação bem próxima de Israel. Essa é uma identificação inclusive dele. E essa é uma diferença muito grande entre ele e o PT.

O que esse acordo traz para o Brasil?

Nada. Absolutamente nada. Simplesmente compra de material militar que poderia ser comprado de qualquer país, com uma diferença: esse material militar, esse arsenal é criado para massacrar o povo palestino, porque lá esse armamento é testado diretamente no povo palestino. Aí esse armamento vem para o Brasil para ser usado nas periferias de São Paulo, do Rio de Janeiro, para fazer o mesmo tipo de repressão que é feita lá. Com uma diferença, lá isso é feito diariamente, é uma coisa natural do estado nazi-sionista de Israel. É como se estivéssemos na época do nazismo e o Brasil fosse lá comprar armas dos nazistas, porque eles estão sendo testados em uma guerra. Para o Brasil, o acordo não traz nada bom, porque não vai trazer tecnologia, simplesmente vai trazer uma mercadoria que eles produzem, na qual ficaremos na dependência de sempre comprar peças de reposição para esses equipamentos.

Você participou dos encontros dos parlamentares por Al Quds…

Sim, achei muito interessante criar um parlamento internacionall de apoio à Jerusalém, Al Quds. Na minha visão, com isso, está se materializando efetivamente o apoio de vários parlamentares de diferentes países à Jerusalém, reconhecendo Jerusalém como capital da Palestina, assim como na partilha da ONU e dá força para impedir a anexação que Israel faz em relação à Jerusalém e a toda Palestina.

Fizemos uma bancada da América Latina que foi a esse encontro, foi muito bom, o Brasil teve representantes também. Para mim foi uma experiência fantástica.

Inclusive estamos discutindo para ter esse parlamento mundial, fazer dele uma força política junto aos organismos internacionais. Esse papel já esta acontecendo, mas ainda de forma muito lenta, tem que dar um passo maior.

E com a experiência dos deputados da América Latina, na volta se criou o Fórum Latino Palestino que também terá um papel muito importante.

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Você já esteve na Palestina?

Fui a primeira vez em 2011 no chamado dos palestinos da Nakba pelo direito ao retorno e essa primeira vez foi muito frustrante. Fiquei na expectativa de que entraria na Palestina, para ver como é que vive o povo palestino, estar no dia a dia e sentir de fato o que eles passam. Fui impedido de entrar, sem nenhuma justificativa e sem nenhuma acusação. Em 2015, fomos em uma comitiva que foi ao Fórum Social Mundial na Tunísia e essa comitiva era uma delegação com apoio oficial do governo brasileiro, então criei uma expectativa ainda maior. Novamente fui impedido por Israel de entrar na Palestina, eu e a companheira Soraya Misleh fomos impedidos. O restante da comitiva entrou e foi muito bom que eles conseguiram, pois, os jornalistas fizeram um ótimo trabalho na Palestina ocupada.

Mantenho vivo o sonho de entrar na Palestina, ir para Jerusalém e rezar na mesquita Al Aqsa, e isso, tenho certeza que ainda vou realizar. A Palestina será livre!

Qual o caminho para esta libertação?

Acredito que a Palestina será libertada pelas mãos dos próprios palestinos, porque os governantes árabes traíram e sempre foram traidores da causa palestina. A comunidade europeia se tornou refém dos sionistas por conta do holocausto. Os sionistas usam o holocausto em troca das atividades ilegais, imorais que Israel faz todo dia na Palestina e o mundo, e a ONU, fingem não ver.

Os palestinos têm dois inimigos, o primeiro é a autoridade palestina, onde seu líder, Abu Mazen, diz sem a menor vergonha que ele garante a segurança aos israelenses e trabalha em conjunto com as forças de ocupação de Israel. Este é o primeiro inimigo que tem que ser derrotado, pois é o inimigo que está dentro de casa e ele é a autoridade que direciona seu caminho. O segundo inimigo é a ocupação sionista, é um absurdo ter uma autoridade palestina compactuando com a ocupação sionista da Palestina. O povo palestino tem que se libertar duas vezes, da Autoridade Palestina e da ocupação sionista.

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