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Morre o poeta palestino Ezzedine Al-Manasrah – o último remanescente dos “quatro grandes” da poesia palestina

o poeta palestino Ezzedine Al-Manasrah
o poeta palestino Ezzedine Al-Manasrah

No último dia 05 de abril deste ano, seis dias antes de completar 75 anos, morreu Ezzedine Manasrah, em Amman, capital da Jordânia. Al-Manasrah era o último remanescente do grupo dos quatro grandes da poesia palestina, a saber: Mahmoud Darwich, Tawfiq Zayad, Samih Al-Qassem e Ezzedine Al-Manasrah. São poetas que marcaram a poesia árabe e palestina a partir da década de 1960 do século XX até os dias de hoje. Foram os protagonistas da poesia da resistência e do nacionalismo palestino frente à catástrofe palestina e árabe da Nakba. Fizeram inovações na poesia árabe e adotaram formas modernistas de expressão. Houve outros poetas palestinos desta geração, que tiveram grande expressão e presença também, como Mouin Bseiso e Murid Al-Barghouthi. No entanto, foram escolhidos, por convenção, somente quatro para o rol dos “grandes”.

A morte dos poetas palestinos é a própria encarnação da diáspora deste valente povo, ou “o povo dos gigantes”, expressão cunhada pelo líder eterno do povo palestino, Yasser Arafat, que dirigia-se a seu povo oprimido desta maneira que faz jus às suas bravuras e atos heróicos perante as injustiças e opressões sionistas. A começar por Al-Manasrah, que morreu em Amman, ou seja, fora dos territórios palestinos, as mortes dos demais poetas palestinos citados no parágrafo acima, são tão reveladores do destino do seu povo quanto a morte de Al-Manasrah. Mahmoud Darwich morreu no dia 09 de agosto de 2008, aos 67 anos de idade, em um hospital em Houston-Texas, nos EUA, em decorrência de complicações de uma cirurgia cardíaca. Muin Bseiso, amigo de Darwich, morreu aos 56 anos, sozinho, num quarto de hotel em Londres, e não pôde ser enterrado na Palestina. O estado sionista impediu o enterro do poeta Bseiso em Gaza, sua cidade natal; ele foi enterrado no Cairo. Murid Al-Barghouthi morreu no último dia 14 de fevereiro de 2021 em Amman, também. Tawfiq Zayad morreu num acidente de estrada, aos 65 anos, no seu caminho para ir recepcionar o líder palestino Yasser Arafat quando da sua volta aos territórios palestinos, após os acordos de Oslo, em 1994. Samih Al-Qassem morreu em 2014, na cidade de Safad (localizada no atual estado de Israel), vítima de câncer, num hospital israelense.

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O cineasta e escritor palestino, Nasri Hajjaj, radicado em Viena, capital da Áustria, e nascido no campo de refugiados palestinos em Ain Al-Helwe, nas proximidades da cidade de Saida, no Líbano, retrata de uma forma primorosa a morte como reveladora da diáspora palestina, no seu filme “A Sombra da Ausência”. Neste filme, Hajjaj visita vários cemitérios mundo afora, nos quais foram enterrados palestinos da diáspora. Desde cemitérios nos países vizinhos da Palestina, como Líbano, Síria e Jordânia, até um cemitério no distante Vietnã, no qual está enterrado um militante palestino, que casou com uma mulher vietnamita, e acabou morrendo tão longe de sua pátria, Hajjaj faz um retrato emocionante da diáspora palestina através da morte. No seu mais recente status da sua página do facebook, Hajjaj resume bem o drama e a dor dos palestinos: “Como felicito aqueles que amam as suas cidades. Eu não tenho cidade.”

Aliás, Nasri Hajjaj era amigo pessoal de Ezzedine Al-Manasrah. Na página do cineasta palestino no facebook, há fotos de diferentes épocas que reúnem os dois amigos. A foto mais recente é de cerca de dois anos atrás, em Amman, na Jordânia. Há uma foto do início da década de 1980, que reúne os amigos, na margem de um lago, perto de Sofia, capital da Bulgária. Naquela época, o grande poeta palestino estava concluindo seus estudos superiores em literatura búlgara moderna. Era relativamente comum, em todo o Oriente Médio, durante a época da Guerra Fria, que estudantes irem a ex-União Soviética e a países da Europa Oriental para a conclusão dos seus estudos. O bloco comunista soviético era considerado mais simpático às causas árabes e palestinas do que o bloco capitalista ocidental.

Um poeta militante

Ezzedine Al-Manasrah não marcou história somente como poeta, intelectual e pensador, mas foi também militante da causa palestina, com engajamento ativo na luta armada em prol da causa palestino, sobretudo em 1982, em Beirute-Líbano, por ocasião da invasão israelense a este país árabe, com o intuito de aniquilar a Organização de Libertação da Palestina, a famosa OLP, radicada então no Líbano, com sede na Beirute Ocidental. Neste quesito, Al-Manasrah foi o único dos seus quatro “grandes” poetas companheiros. Nenhum dos outros três teve no currículo participação em luta armada.

Lado a lado com o seu engajamento literário e jornalístico em publicações em periódicos palestinos, na época da guerra civil libanesa (que durou de 1975 a 1990), Al-Manasrah empunhou as armas e participou militarmente em duas ocasiões: em 1976 e 1982. Neste ínterim, ele havia conseguido o doutorado em crítica moderna e literatura comparada, na Universidade de Sophia, Bulgária, em 1981.

Vida do poeta

Nascido no dia 11 de abril de 1946, no vilarejo de Bani Naim, na região de Hebron, na Cisjordânia, na época do protetorado britânico pós Segunda Guerra na região, Al-Manasrah recebeu de seus pais o nome de Mohammad. No entanto, já na juventude precoce, o apelido Ezzedine, que era nome de seu avô paterno, que era poeta popular e homem respeitado na região de Hebron, o apelido acabou substituindo o nome de nascimento.

No ano de 1964, Al-Manasrah deixou a Palestina rumo ao Cairo, Egito (na época chamado de República Árabe Unida), onde ele obteve, em 1968, na Universidade do Cairo, a licenciatura em língua árabe e ciências islâmicas. Foi no próprio Cairo, em 1968, que o poeta ganhou o prêmio de poesia árabe das universidades egípcias. Nesta época, também, teve início o seu trabalho jornalístico e intelectual com a publicação de artigos em várias revistas palestinas e libanesas, entre elas a “Revista Al-Hadaf” (que significa a meta), que tinha na época como editor-chefe Ghassan Kanafani, famoso escritor e intelectual palestino, criminosamente assassinado por Israel, em Beirute-Líbano em 1972. Após a derrota árabe na guerra dos seis dias em 1967, Al-Manasrah iniciou o seu treinamento militar junto ao exército de libertação palestina no próprio Egito, como parte da resistência popular palestina que estava tomando forma naquela época nos países da diáspora.

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De 1970 a 1973, o poeta Al-Manasrah morou na Jordânia, onde trabalhou como diretor dos programas culturais na emissora jordaniana de rádio. Na Jordânia, o grande poeta palestino construiu relações de amizade com a elite intelectual local. No entanto, em decorrência dos desdobramentos políticos acontecimentos do chamado “setembro negro”, de 1970, o poeta teve que deixar a Jordânia rumo a Beirute, onde ficou até 1982. Este episódio sangrento, ocorrido na Jordânia, foi marcado pela luta entre o exército jordaniano e as diversas facções palestinas que estavam instaladas na Jordânia para treinamento.

Entre 1974 e 1982, Ezzedine Al-Manasrah residiu em Beirute-Líbano, juntando-se às fileiras da Revolução Palestina como intelectual, ativista, militante e guerreiro. Durante esta época, Al-Manasrah teve amizade estreita com o outro grande ícone da poesia e cultura palestinas, Mahmoud Darwich. Entretanto, após a morte de Darwich, Al-Manasrah não poupou críticas ao velho companheiro de letras. Entre tantas coisas, Al-Manasrah criticou as opções políticas de Darwich de proximidade com a OLP, o que teriam rendido a Darwich uma maior projeção árabe e mudial. Um outro ponto apontado por Al-Manasrah é que Darwich teria plagiado um verso do filósofo alemão Nietzche. Segundo Al-Manasrah, o grande poeta Darwich teria plagiado o famoso verso “nesta terra há algo pelo qual vale a pena viver” do grande filósofo alemão autor de “Assim Falou Zaratustra”. Embora Al-Manasrah reconheça que Mahmoud Darwich é, sem dúvida, um grande poeta, ele afirma que a poesia palestina dispensa este plágio.

Com a invasão israelense da capital libanesa Beirute, em 1982, e após um acordo diplomático internacional, os líderes e  combatentes da OLP e de facções palestinas acabaram saindo de Beirute por via marítima. Entre eles estava Ezzedine Al-Manasrah, que aparece numa rara foto datada de 01/09/1982, envolto com a famosa kufiya arafatiana palestina listrada em branco e preto, por ocasião da retirada dos “fedaiyin” (nome pelo qual eram conhecidos os militantes palestinos) do Líbano.

Após uma breve passagem pela Jordânia, Al-Manasrah acabou transferindo-se para a Argélia em 1983, onde trabalhou como professor universitário até 1991, quando o poeta voltou para a Jordânia, onde ficou pelo resto da vida. Ezzedine Al-Manasrah era casado, e deixou três filhos.

Obra

A obra literária de Al-Manasrah teve início precoce. Ele começou a escrever poesia aos dezoito anos de idade. Já nesta idade precoce, podiam ser notados traços característicos do poeta que o distinguiam dos colegas. Em 1968, aos vinte e dois anos de idade, Ezzedine Al-Manasrah publicou a sua primeira coletânea de poesia, sob o título de “Ó Uva de Hebron”. O traço característico de sua obra é a referência constante a símbolos culturais da Palestina antiga, ou Cananéia. Ele chegou a publicar, em 1982, a sua obra épica “Cananeida”, com nome derivado das clássicas “Ilíadas” e “Eneidas”. Al-Manasrah é reconehcido como o poeta rural por excelência da palestina, com profundas pesquisas da mitologia histórica palestina, que marca toda a sua obra.

Al-Manasrah publicou ao todo doze livros de poesia. Mas ele escreveu também obras em prosa, nas áreas de crítica literária, cinema, artes plásticas, cultura, política e linguística. Nos meios intelectuais palestinos, Al-Manasrah era reconhecido como: tão poeta quanto Mahmoud Darwich, e tão intelectual quanto Edward Said, em referência aos dois ícones da cultura palestina. Alguns poemas de Al-Manasrah foram cantados por artistas do mundo árabe. Os mais famosos são: “Fizemos o seu sudário de verde” e “Jafra”, cantados pelo cantor e compositor libanês, Marcel Khalife, que inclusive cantou poemas de Mahmoud Darwich e Samih Al-Qassem. Um dos ressentimentos de Al-Manasrah é que o público atribui poemas cantados de sua autoria ao poeta Darwich.

Um poeta injustiçado

Embora foi reconhecido como um dos “quatro grandes” da poesia palestina, e ter ganhado diversos prêmios em vida, Ezzedine Al-Manasrah, não foi devidamente valorizado pelos meios intelectuais, e mesmo popularmente, em vida. Inclusive ele chegou a externar este fato em uma de suas entrevistas. Segundo o autor de Jafra e da Cananeidas, enquanto Mahmoud Darwich morreu milionário, Al-Manasrah chegou a passar difuculdades econômicas junto com sua família. Mas, mesmo assim, ele se diz não arrependido pelas suas escolhas políticas de vida, mas espera ser reconhecido de uma forma justa.

*Fontes: Wikipédia, facebook e vários sites jornalísticos árabes

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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