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Por quanto tempo mais vamos ignorar Karim Younis e outros prisioneiros palestinos?

Karim Younis, prisioneiro político há mais tempo preso em todo o mundo, mantido nas cadeias de Israel desde 1983 [Agência de Notícias Ma’an]
Karim Younis, prisioneiro político há mais tempo preso em todo o mundo, mantido nas cadeias de Israel desde 1983 [Agência de Notícias Ma’an]

Quantas pessoas ouviram falar de Karim Younis? Caso seu nome não lhe diga muito, é provavelmente porque era uma criança ou sequer havia nascido quando Younis foi preso pelas forças de segurança da ocupação de Israel. Ou talvez a compaixão tenha se exaurido. Mas não deveria ser assim. É hora de acordar, pois Karim Younis é o prisioneiro político há mais tempo detido em todo o mundo e este mês de janeiro marca o 39° aniversário de seu sofrimento em uma cadeia israelense. Sim: 39 anos.

O então estudante universitário foi preso em 6 de janeiro de 1983 por nada mais do que resistir à brutal ocupação israelense da Palestina, um direito legítimo de todos os palestinos conforme a Convenção de Genebra de 1949, assinado pela maioria dos países, incluindo meu próprio, o Reino Unido. Sua prisão foi súbita e sem advertências. Younis foi acusado de posse ilegal e contrabando de armas ao então exército do movimento Fatah – organização clandestina, na ocasião –, além do assassinato de um soldado de Israel.

Como sabemos, é direito de todos resistir à ocupação em nosso país: pense sobre a resistência heróica do povo francês na Segunda Guerra Mundial, a resistência holandesa e a resistência dos judeus poloneses no Gueto de Varsóvia, por exemplo. Este direito à resistência é consagrado pela lei internacional, instituída pós-guerra. Contudo, aos olhos de Israel e seus apoiadores, a lei é irrelevante neste e em outros casos, pois a pessoa envolvida nasceu palestina na aldeia árabe de Ara, perto de Nazaré. Caso Younis tivesse nascido em qualquer outro lugar, talvez jamais seria preso, muito menos detido ao longo de cinco décadas. Porém, a malícia e crueldade das autoridades da ocupação israelense parecem não ter limites no que se refere ao povo palestino.

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Karim Younis nasceu em 24 de dezembro de 1956. Após concluir o ensino médio, matriculou-se na Universidade Ben-Gurion para estudar engenharia mecânica. Durante uma palestra no campus do Deserto do Negev, Younis foi preso e condenado à pena perpétua, que supostamente expira após 40 anos.

Junto de outros catorze prisioneiros palestinos mantidos por Israel a longas penas, Younis esteve entre os trinta prometidos para soltura pela ocupação, como suposto gesto de boa vontade para construir confiança na região. O acordo foi consentido entre Israel e a Autoridade Palestina em 2013, sob os olhos atentos do governo do Presidente dos Estados Unidos Barack Obama, e “garantia” a libertação de todos os palestinos detidos antes da assinatura dos Acordos de Oslo, em 1993.

Tudo isso, teoria. Israel, no entanto, despreza os acordos assinados da mesma forma que descumpre as leis e convenções internacionais: sem respeito algum. O estado ocupante ignorou mais resoluções da ONU do que qualquer outro país no mundo hoje, mesmo as condições para que fosse membro do fórum internacional, uma das quais prevê o direito de retorno dos refugiados palestinos à sua própria terra. Não é surpresa, portanto, saber que o estado colonial sionista renunciou ao acordo para libertar Younis e outros prisioneiros palestinos – o que basicamente destruiu o “processo de paz” promovido pelos Estados Unidos.

Durante seu tempo na prisão, Younis escreveu dois livros: The Political Reality in Israel (A realidade política em Israel), publicado em 1990, no qual reúne os méritos e deméritos dos partidos políticos israelenses; e The Ideological Struggle and Settlement (A luta ideológica e assentamentos), de 1993.

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É triste que organizações internacionais de direitos humanos não se recordem da injustiça do cárcere continuado de Younis e outros presos palestinos mantidos por décadas nas cadeias de Israel. Não ouvimos apelos por sua soltura, um indício deprimente do que todos nós nos tornamos. O velho provérbio “o que os olhos não veem, o coração não sente” jamais foi tão verdadeiro quanto agora.

Karim Younis é um combatente da liberdade, não diferente do falecido Nelson Mandela, que tornou-se reverenciado por líderes mundiais após ser libertado da prisão, nos últimos dias do regime de apartheid na África do Sul. A soltura de Mandela, em 1990, foi conquistada via pressão doméstica e internacional, após 27 anos na prisão. Younis já superou a pena do líder sul-africano em onze anos e entra agora em seu 39° ano por trás das grades. Onde está a indignação? Onde estão a cobertura de mídia e os concertos musicais “Free Younis”?

A aversão à injustiça não pode ser seletiva. “A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar”, disse o Dr. Martin Luther King. Por quanto tempo mais manteremos o silêncio sobre Karim Younis e outros prisioneiros palestinos encarcerados por Israel?

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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