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MEMO conversa com Aldo Fornazieri

Aldo Fornazieri é doutor em ciência política, professor da Escola de Sociologia e Política e coordenador do curso de pós-graduação Globalização e Cultura da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

Aldo Fornazieri é doutor em ciência política, professor da Escola de Sociologia e Política e coordenador do curso de pós-graduação Globalização e Cultura da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. O Monitor do Oriente Médio entrevistou Fornazieri a respeito das mudanças no governo dos Estados Unidos a partir do ponto de vista da América Latina e do Brasil, a relação da esquerda brasileira com esse novo governo Biden e como a mudança pode afetar a Palestina.  Também foi analisada a base e a ideologia da extrema direita apoiadora de Trump e Bolsonaro.

Sobre as eleições, Fornazieri afirmou que a maioria dos democratas do mundo torceram para a vitória do Joe Biden e a derrota de Trump. “Aquilo que se vinha dizendo de que ele (Trump) era uma pessoa de extrema direita com tendências fascistas foi comprovado na semana passada com a tentativa do golpe e invasão do congresso norte-americano.”. Em sua opinião, Biden é um político com uma boa interlocução com o partido republicano, o que não trará muitas dificuldades em relação à governabilidade.  E foi o candidato certo escolhido para derrotar o republicano;  “tinha o Bernie Sanders que era o preferido da esquerda brasileira, mas que provavelmente não venceria porque o Trump conseguiu uma votação muito significativa.”

Em relação à esquerda brasileira e a vitória do partido democrata, Fornazieri afirmou que não haverá uma ligação direta, mas há temas em comum, “a questão do Oriente Médio, me parece, que será uma pauta em comum. Tanto a questão da retomada do acordo nuclear com o Irã, quanto a Questão Palestina, há uma afinidade no que tange ao Oriente Médio entre a visão da esquerda brasileira e a de Biden.”. Pela sua expectativa, o cenário, associado à futura substituição de Netanyahu do governo Israel, vai ao menos favorecer uma política menos truculenta em relação aos palestinos.

Em relação à Palestina, o cenário traz questionamentos sobre se haverá ou não alguma mudança em relação ao financiamento de assentamentos ilegais na Cisjordânia pelo chamado Cinturão Bíblico, formado pelas igrejas pentecostais, que costumam votar com a direita e a extrema direita republicana. A expectativa é saber como Biden irá lidar com a questão, se tomará ou não medidas administrativas para impedir o financiamento de construções que violem o direito internacional.  O cientista político acredita que essas congregações ficarão enfraquecidas, mesmo com grande força dentro do partido republicano hoje, haverá algum tipo de disputa interna entre uma direita conservadora liberal e o conservadorismo dessas congregações religiosas evangélicas aliadas a Israel.  A tendência é que se acirre uma luta interna dentro do partido republicano devido ao prejuízo causado pelo governo de Trump, intensificado pela invasão de apoiadores do presidente ao Capitólio, evento que ficará marcado na história do país, isso fará com que a direita liberal busque retomar o controle do partido.

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Na política interna americana, o novo governo de Joe Biden poderá sofrer influências da esquerda americana em relação a questões sociais, como desemprego, retomada do Obamacare (lei de atendimento médico financeiramente acessível), imigração e a questão ambiental. Na política externa, vislumbra-se uma retomada do multilateralismo, tratado nuclear com o Irã e mediação de organismos internacionais como a ONU. Ainda há dúvidas sobre como a questão palestina será tratada, mas ele tende a acreditar que o governo irá moderar a ajuda a Israel, estabelecendo certos limites, assim como foi feito no mandato de Obama.

A relação estreita entre o governo de Bolsonaro e o governo de Trump também foi tema da conversa, “houve uma subordinação da política externa brasileira que nunca existiu na história do país” conta Aldo. Ele considera essa política de repetição americana pelo governo brasileiro “uma aventura catastrófica do governo Bolsonaro e Itamaraty”, sem nenhum benefício ao nosso país, mas que chegou ao fim com a saída de Trump do governo. Agora, Bolsonaro deverá buscar outro tipo de referência e respaldo na política externa.

Sobre a política externa brasileira, Fornazieri foi questionado sobre quais motivos teriam levado a um abandono da tradição diplomática pragmática – visto que o país tinha boas relações comerciais com o Oriente Médio e a China – para alinhar-se a um discurso culturalista abstrato. Ele explica que o  Ernesto Araújo, atual Ministro das Relações Exteriores no Brasil, dentro desse mosaico Bolsonarista, é aquele que tem uma visão ideológica mais definida, “a família Bolsonaro é uma família tosca, não dá pra dizer que tem uma ideologia, ela é teleguiada, porque eles são brutos do ponto de vista intelectual”. Araújo é uma expressão de uma nova extrema direita que parte do pressuposto que o ocidente está em declínio, com a China e o mundo árabe sendo o principal antagonista desse mundo cristão judaico-cristão ocidental. Eles recuperam de forma equivocada, segundo Fornazieri, teses do autor Samuel Huntington, do livro “O Choque de Civilizações” e do romance “O campo dos Santos” do autor francês Jean Raspail. Este último livro articula uma visão anti migração por considerar a migração uma espécie de infantaria avançada que irá desarticular a supremacia branca e a cultura ocidental anglo-saxã.

Já o livro de Huntington pode ser interpretado como uma das bases da moderna islamofobia. O sociólogo fala que o livro tem uma “dubiedade, levanta um debate interessante, aponta um caminho, que poderia ser um caminho democratico, mas que foi capturado pela extrema direita”. Ele explica que o livro acerta na tese de que Ocidente precisa ser visto como uma civilização específica e não universal, mas ao indicar um caminho para reafirmar essa civilização, a extrema direita nazi-fascista e da supremacia branca se apropria da tese.

Para encerrar a entrevista, Fornazieri foi questionado sobre quais temas relacionados ao Oriente Médio a esquerda brasileira deveria se aproximar. Ele acredita que existem dois temas, em primeiro lugar a questão Palestina, e em segundo o diálogo inter-religioso, já que o islâmismo foi muito demonizado no Ocidente, principalmente no Brasil. Deveriam, para ele, realizar tentativas de diálogos inter-religiosos e estabelecer programas de esclarecimento para explicitar o que é a religião islâmica e seu caráter pacifista, um ponto que seria interessante para a esquerda brasileira. Também deve ser defendida a retomada do acordo nuclear com o Irã.

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